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Rogério Casanova

André Pinto, ao contrário de Coates, não desmembra rivais e preserva o resto em pickle num frasco cheio de vinagre (por Rogério Casanova)

Parece que é um rapaz que vai lá mais pelo diálogo construtivo e por soluções de consenso. Rogério Casanova acredita ainda que Coentrão nunca nasceu, é antes "fruto de geração espontânea, após uma reacção auto-alérgica da poeira acumulada num armazém de enciclopédias sobre futebol, que se espirrou a si própria em direcção ao mundo e ganhou consciência". Sim, é isto

Rogério Casanova

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Rui Patrício

Nas Tragédias Gregas, a inevitabilidade era um elemento central: o desenlace era pré-determinado, e qualquer acção individual de um protagonista para contornar o seu destino só servia para o encaminhar mais rapidamente direito ao mesmo. Foram com certeza estes os pensamentos de Rui Patrício quando viu Bas Dost marcar irresponsavelmente o 3-0. Felizmente para ele, os tempos são outros. Felizmente para mim também, até porque, na Antiguidade Clássica, o meu emprego seria escrever jocosos comentários individuais sobre os participantes na Guerra do Peloponeso: “boa exibição de Alcibíades hoje na Batalha de Siracusa, com um punhado de boas intervenções, e sem quaisquer culpas nas duas mil e seiscentas baixas mortais sofridas pelo seu exército”.

Piccini

Até ao minuto 40 estava a cumprir o seu duplo dever: fazer um jogo discreto, e certificar-se que qualquer adversário no seu raio de acção era ainda mais discreto do que ele. Nessa altura decidiu improvisar, perguntando a si mesmo: qual a conduta ética adequada a 3 milhões de euros, nesta sociedade sem valores? Tendo chegado à resposta certa (“ajudar a pagá-los”), tratou de inventar o lance do primeiro golo. As hesitantes comparações com Schelotto feitas durante o defeso parece agora relíquias patuscas de tempos cientificamente mais inocentes, em que era legítimo comparar espécies com um número diferente de cromossomas.

André Pinto

Tem uma abordagem muito diferente de Coates à diplomacia defensiva. Enquanto o primeiro instinto do uruguaio, quando confrontado com a transgressão de um avançado adversário, é desmembrá-lo, enterrar cada braço e perna num ponto cardeal diferente, e preservar o resto em pickle num frasco cheio de vinagre, André Pinto opta pelo diálogo construtivo e pela procura de uma solução de consenso. Apesar de tudo não cometeu grandes erros a defender, embora a construção de jogo tenha deixado muito a desejar: tendo acertado um passe de três metros, deixou-se consumir pela hubris e dedicou-se a projectos cada vez mais megalómanos, tentando passes de cinco, seis, ou até mesmo oito metros, com o insucesso que se advinhava.

Mathieu

Como Roland Barthes explicou um dia (salvo erro a respeito de detergentes), há uma diferença significativa entre “varrer” a defesa, ou “limpar” as jogadas. A limpeza consiste na modificação violenta da matéria, que é um processo abrasivo e mutilante. “Varrer”, por outro lado, é um processo de reorganização e separação que, sem alterar profundamente a ordem molecular estabelecida, expurga o jogo de todas as suas imperfeições e impurezas circunstanciais. Mathieu é um defensor exemplar da técnica do varrimento, e hoje deixou o campo sem uma partícula de pó, a não ser o que os avançados do Olympiacos certamente lhe ganharam.

Fábio Coentrão

É impressionante a quantidade de momentos por jogo em que no transmite a sensação de ser a pessoa mais experiente em todo o recinto. Que idade tem Fábio Coentrão? A internet diz-nos vinte e nove, o que está longe de constituir uma resposta adequada, pois força-nos a imaginar um parto, uma infância, um percurso de aprendizagem, etcetera, quando a hipótese mais razoável é Coentrão nunca ter nascido, sendo antes fruto de geração espontânea, após uma reacção auto-alérgica da poeira acumulada num armazém de enciclopédias sobre futebol, que se espirrou a si própria em direcção ao mundo e ganhou consciência.

William Carvalho

Há duas formas de encarar o jogo de William: uma é reconhecer que soube encarnar aquela forma superior de passividade cujo condão é suspender as normas quotidianas e criar a segurança afectiva de uma verdade superior; outra é consultar as estatísticas de bolas perdidas, constatar que o total se assemelha a um número de telefone para chamadas de valor acrescentado, e concluir que William optou hoje (e muito bem!) por descentralizar protagonismo e alguns serviços essenciais da Capital – que é ele – para zonas mais periféricas.

Battaglia

Boa incursão pela área ao minuto 29, recebendo bem de peito e tentando alvejar a baliza, mas vendo os seus objectivos atrapalhado por Engels, tal como aconteceu a vários milhões de pessoas no século XX. A defender, mostrou mais uma vez o que o separa da espécie humana: o que aos nossos olhos parece uma caótica e permanente reconfiguração de elementos isolados, a Battaglia parece o movimento legível e previsível de um organismo vivo – que ele depois pisa com a sola dos pés, até o matar.

Gelson Martins

Mesmo na primeira parte (em que não esteve tão bem como na segunda) fez o suficiente para merecer as duas assistências que não contabilizou: uma a servir André Pinto para este rematar ao poste, e outra a furar em zona central e a soltar para Dost no momento certo. Depois do intervalo, apareceu pontualmente a esticar o jogo, a segurar à espera de apoios, e a distribuir intervenções de puro talento defensivo, provando mais uma vez que, salvo raríssimas excepções, o Sporting joga sempre com dois extraordinários laterais-direitos.

Bruno César

A maneira como ganhou um lançamento lateral no meio-campo ofensivo ao minuto 13 (atirando de propósito contra a canela de um adversário, ao avaliar correctamente que seria incapaz de fazer um passe ou um drible bem sucedido) é muito parecida com a maneira como ganhou uma falta na sua área ao minuto 16 (depois de avaliar correctamente que era um modo mais prático de ganhar o lance do que tentar cortar a bola). Bruno César segue à risca a instrução do Oráculo de Delfos - “conhece-te a ti mesmo” - e o resto vem por acréscimo: golos, recuperações de bola, livres bem marcados, disponibilidade total, e esta capacidade para jogar quase sempre melhor do que a gente acredita ser possível.

Bruno Fernandes

Marcou muito bem pelo menos dois cantos (um dos quais para o 3-0), infringindo um dos estatutos mais antigos do clube, e a sua lucidez foi útil especialmente depois desse golo, quando era preciso segurar esse resultado historicamente perigosíssimo e evitar o empate a qualquer custo. Golos é que está quieto: hoje, quatro dos seus típicos remates de meia distância saíram por cima da barra, circunstância que já merece um novo programa de televisão que denunciasse a corrupta influência exercida nos meandros do futebol pela Força da Gravidade.

Bas Dost

Depois de reagir à primeira oportunidade clara de golo de uma forma que levou quatrocentas mil pessoas a recordar instantaneamente que Bryan Ruiz foi recentemente reintegrado no plantel, lá veio restabelecer a normalidade.

Tobias Figueiredo

A única pessoa em campo com plena consciência da história do clube, e com a inteligência suficiente para perceber que a única resposta razoável a estar a ganhar por 3 golos a dez minutos do fim é uma pessoa ficar uma pilha de nervos.

Ristovski

Um bom lateral-direito, e barato. Pelos vistos é facílimo encontrá-los.

Mattheus Oliveira

Falhou um passe. Ainda tentou falhar um segundo, mas não foi suficientemente inepto. Resta-lhe levantar a cabeça e continuar a trabalhar.

  • Um Sporting com sal, mas sem risco de hipertensão

    Sporting

    A vitória clara e sem sobressaltos do Sporting frente ao Olympiacos por 3-1, mais do que garantir desde já a Liga Europa, coloca os leões numa situação que parecia impensável depois do sorteio: a discutir o apuramento para a fase a eliminar até à última jornada. Esta quarta-feira, em Alvalade, Bas Dost fez dois e Bruno César voltou a mostrar que adora os grandes momentos