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Rogério Casanova

Coentrão e a artrite enteropática, a hipofosfatemia, a gliconecose de tipo IX, ou a osteocondrite dissecante (por Rogério Casanova)

Decidimos começar por Coentrão, mas há muitas outras análises curiosas que poderá ler ao onze do Sporting da autoria de Rogério Casanova

Rogério Casanova

FRANCISCO LEONG

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Rui Patrício

À excepção de duas defesas de grau médio-baixo de dificuldade, serviu acima de tudo como órgão consultivo para os colegas, que de vez em quando lhe entregavam a bola para ver se, por acaso, Patrício tinha algum projecto de jogada mais promissor do que os deles. Sofreu o golo da praxe nos últimos minutos (depois de ter feito a melhor defesa da noite), de forma a impulsionar a venda de tabaco em território nacional.

Piccini

Alguém que não seja adepto do Sporting tem toda a legitimidade em ver a exibição de Piccini esta noite e defini-la como meramente razoável, apontando as ocasionais falhas que teve e os poucos momentos em que as suas insuficiências se fizeram notar. Um adepto do Sporting, por outro lado, tem a obrigação moral de comparar a exibição de Piccini com as exibições hipotéticas de todos os titulares prévios do seu cargo nos últimos anos e, depois de observar, por exemplo, os cortes na área que fez aos minutos 16 e 67, chega rapidamente à conclusão de que, sem Piccini, o clube regressaria hoje de Paços de Ferreira com três milhões de euros a mais e três pontos a menos.

Coates

Escolheu bem o momento (na medida em que se revelou, ao fim de contas, não precisarmos de mais do que isto) para fazer talvez o seu jogo mais trôpego desde o play-off da Champions. Em especial na primeira parte – quando toda a gente, desde Whelton a Tom Bombadil, o conseguiu ultrapassar em drible ou numa simples corrida em linha recta – pareceu menos o defesa-central que sabemos ser, do que um anónimo participante recrutado pela Aximage para aparecer hoje na Capital do Móvel e fazer perguntas simpáticas.

Mathieu

Calmo e clarividente, foi a última redundância no sistema imunitário da equipa. Tentou apostar na prevenção, para que o perigo não chegasse sequer a começar. Quando isso não foi possível, fez sempre o necessário para prestar às jogadas moribundas os melhores cuidados paliativos, como ao minuto 33, quando foi a correr interromper o resultado aparentemente inevitável de uma sequência de falhas sistémicas – um gesto que repetiu, com menos espectacularidade, mas igual eficiência, mais 5 ou 6 vezes durante o resto do jogo.

Fábio Coentrão

Jogou com o desespero compreensível de quem sabia que Jonathan Silva não estava no banco para o substituir aos 80 minutos, circunstância que lhe trouxe a responsabilidade acrescida de tentar não apanhar uma lesão ou doença gravíssima até ao apito final. Nesse sentido dedicou-se, com sucesso retumbante, a não contrair uma distensão muscular, ou uma artrite enteropática, ou hipofosfatemia, ou gliconecose de tipo IX, ou osteocondrite dissecante. Depois de arranjar tempo para fabricar o segundo golo da equipa, e sobreviver à autoestrada que Bruno César ajudou a abrir, conseguiu ainda chegar ao fim do jogo sem qualquer quisto sinovial, espondiloartropatia, policondrite recidivante, ou trombastenia de Glanzmann.

William Carvalho

Uma exibição acima do esperado, tendo em conta que se encontra claramente num dos seus já lendários momentos de má forma. Atento e bem posicionado a defender, a má forma acabou por se notar menos em erros comprometedores do que nos inevitáveis dois segundos extra que demora a concluir as suas sessões de auto-esclarecimento quando em posse de bola.

Battaglia

Estreou-se a marcar na Liga, aplicando o seu temível e reputado golpe de cabeça ao segundo poste, e fez um belíssimo jogo. Nota-se-lhe um conforto maior (que até pode ser ilusório) com a bola no pé, tendo até arriscado algumas variações de flanco bem sucedidas; quando optou pelo expediente mais familiar de queimar metros em transporte, fê-lo hoje com timing quase sempre imaculado. Saiu a 20 minutos do fim, por dois motivos muito fáceis de explicar: eu não percebo patavina de futebol, e vocês também não.

Gelson Martins

O seu estilo de finta assemelha-se cada vez mais a um distúrbio obsessivo-compulsivo, que se manifesta na tendência para tentar sempre recuperar as condições iniciais, mas na verdade é um artifício mais astucioso do que isso. Aquele maneirismo de simular o início de dois dribles em direcções opostas, traçando duas linhas invisíveis equidistantes na relva, antes de uma rotação rápida do corpo devolver todos os intervenientes ao posicionamento original, como quem recorda um itinerário cognitivo assombrado pelas próprias vésperas, é uma forma metafórica de se colocar a si próprio entre aspas, reduzindo-se a uma abstracção, para ser mais fácil materializar-se de repente, para perene espanto dos adversários, a fazer cortes importantes na defesa, ou a matar o jogo antes que o jogo me mate a mim.

Acuña

Ainda mal o jogo tinha começado e assistiu, com consternação argentina, a um fenómeno estranhíssimo: o árbitro brandia uma cartolina rectangular na sua direcção, tão amarelo como o Sol, tão amarelo como os narcisos do campo, tão amarelo como os dedos de um fumador que sabe sempre encontrar o seu isqueiro. Acuña esboçou uma expressão incrédula, irada. O General Videla devia fazer a mesma cara sempre que lhe mostravam um cartaz numa manifestação estudantil. O quarto de hora que se seguiu a esse lance consistiu em Acuña a tentar transcender-se, numa proeza de auto-domínio, para não ver o segundo amarelo, tarefa que, contra todas as expectativas, conseguiu cumprir.

Bruno Fernandes

As suas três primeiras intervenções no jogo foram bolas perdidas (passes demasiado longos, fintas demasiado curtas) e a bola teimou em sair-lhe mal dos pés um número incaracterístico de vezes. Depois do intervalo, mergulhou num revigorante período de hibernação, do qual emergiu 25 minutos depois para rematar de primeira ao poste.

Bas Dost

Passou por um episódio invulgar ao minuto 18, falhando um golo só com o guarda-redes pela frente, meras horas depois de ter efectuado uma longa viagem de autocarro na companhia de Bryan Ruiz, circunstância em nada relacionada com a primeira e que se menciona apenas a título de curiosidade. O certo é que a partir daí deu (mais) uma lição de como jogar ao primeiro toque, em que cada devolução sua funcionou como um solvente artifical a corroer o tecido colectivo, apontado aos restantes neurónios um caminho desobstruído pela soma de todas as opções rejeitadas. Raras vezes faz sentido descrever um ponta-de-lança como o cérebro da equipa, mas foi isso que Dost foi hoje.

Bruno César

Ajudou Coentrão a desenhar a jogada do 0-2, mas fez uma exibição bem mais fraca do que costuma fazer na Champions ou em jogos “grandes” (aos quais a sua utilização devia ser limitada em exclusivo). Três deslizes comprometedores a defender: um valeu-lhe um amarelo, outro um breve susto colectivo, o terceiro um cigarro nervosamente acendido ao contrário da minha parte.

Bryan Ruiz

Interrompeu uma curta carreira enquanto Afonso Martins do século XXI para fazer a sua estreia esta época, numa notícia que trará certamente uma explosão de alegria a todos os cidadãos da Costa Rica, pelo menos até lhes explicarem que Ruiz jogou a trinco.

André Pinto

Entrou numa altura em que provavelmente havia mais nervos fora de campo do que dentro