Tribuna Expresso

Perfil

Rogério Casanova

E ao golo 50, Bas Dost deixou os abraços personalizados, aderindo a uma política de festejos comunista, como nos explica Rogério Casanova

O nosso escriba fala-nos ainda de como tem menos vontade de fumar cigarros quando vê Piccini jogar e do jogo menos conseguido de Acuña, desatento devido à curiosidade antropológica que é ter Pereirinha pela frente

Rogério Casanova

FRANCISCO LEONG/Getty

Partilhar

Rui Patrício

Como o participante mais passivo num jogo de Cluedo com a cronologia invertida, Patrício voltou a passar o tempo tentando adivinhar a solução do crime que costuma ocorrer nos últimos minutos, e que consiste em fazê-lo sofrer um golo após um jogo inteiro sem trabalho algum. Quem seria hoje? Quem, onde e como? O mordomo, com um punhal, na biblioteca? O Pereirinha, com um charuto, nos descontos? Incaracteristicamente, a Ordem e a Justiça prevaleceram.

Piccini

Aquele corte de cabeça a um cruzamento do corredor contrário ao minuto 23? Ou o desarme simples e higiénico quando apanhou um adversário de frente no 1x1 dentro da área ao minuto 31? Ou a paragem de peito a controlar um pontapé de baliza aos 58? Tudo coisas simples. Tudo episódios cumulativamente avaliáveis em 3 milhões de euros. Tudo frases não podiam ser escritas sobre laterais-direitos do Sporting até este ano. Mais do que qualquer outro futebolista contemporâneo, Cristiano Piccini faz-me querer fumar menos cigarros.

Coates

A reificação de um poder estrutural que deriva a sua eficácia totalizante de um sistema interseccional de relações de domínio e submissão, permitindo que o estatuto de subordinação dos indivíduos do Belenenses ao heteropatriarcado fosse de tal forma internalizado que na verdade Coates não precisou de exercer conscientemente os seus privilégios para sair triunfante das várias interacções sociais, sobrando-lhe inclusive tempo de lazer para ir lá à frente duas vezes brincar aos avançados.

Mathieu

Exibe a serenidade de um prestigiado faquir oriental em pleno exercício das suas místicas funções, sejam estas levitar, engolir cacos de vidro ou evitar chatices na área. Ainda assim não foi dos seus jogos mais brilhantes, e acumulou dois ou três lances esquisitos no último quarto de hora. Ao minuto 83, por exemplo, subiu em posse de forma esquisita, perdeu a bola de forma esquisita e acabou por ver amarelo, depois de cometer uma falta esquisita. Foi a sua maneira de perguntar, como Shylock “Se me picarem, não sangro eu? Se me fizerem cócegas, não desato a rir?” não vá a gente pensar que o homem não é homem, nem humano.

Fábio Coentrão

Cumpriu os noventa minutos pelo segundo jogo consecutivo, e com um fôlego que nem sequer permitiu ao espectador mais ansioso pensar em problemas musculares. Deu, no entanto, demasiado espaço a Diogo Viana na primeira meia-hora, deixando-o rematar ou cruzar por três ocasiões. E mesmo no ataque foi menos influente do que é hábito, estragando algumas combinações promissoras não com más decisões, mas com execuções deficientes, sugerindo que os recentes elogios a Zeegelaar em Inglaterra podem ter afectado a sua solidez psicológica. Se for esse o caso, posso garantir-lhe que não está sozinho.

William Carvalho

Jogando bem ou mal (hoje terá jogado mais ou menos), transmite sempre a sensação de existir fora do tempo. Uma atemporalidade que por vezes o leva a transcender a natureza efémera das circunstâncias do jogo, e por vezes o isola dentro delas. Ao minuto 40 fez um passe intrigante para um painel publicitário, num gesto que foi em simultâneo uma comovente manifestação de solidariedade com um colega de selecção e também um gesto modernista, mostrando-nos o medo numa mão cheia de pó. Soltou-se mais na segunda parte, conduziu alguns contra-ataques, e teve a serenidade necessária, quando confrontado com uma oportunidade de golo, para não alargar uma vantagem que deixaria toda a gente nervosa.

Bruno Fernandes

Impecável na recepção orientada seguida de abertura rápida para um flanco. Menos rigoroso quanto variou a metodologia (tentando a progressão em drible ou o passe longo), falhando tantas vezes como as que acertou. Com a entrada de Battaglia, subiu no terreno e começou a tentar o remate de fora da área com uma veemência que cada espectador – no estádio ou em casa – comprendeu perfeitamente. Estamos a chegar ao ponto em que, quando voltar a conseguir um golo num remate de longe, corremos o sério risco de Bruno assassinar alguém na euforia dos festejos.

Gelson Martins

É cansativo, é tudo muito cansativo, produzindo por isso, e consequentemente, cansaço. Gelson chegou ao fim do jogo cansado, tal como os colegas, tal como os adversários, tal como eu, tal como vocês. Anda ali de um lado para o outro a esfalfar-se, tenta uma coisa, tenta outra, percebe que não vai ser assim, volta para trás, volta a tentar – numa espiral que este parágrafo percebe perfeitamente, como podem reparar. A procura de desequilíbrios, na relva ou no parágrafo, é uma actividade desgastante, às vezes precisamos todos de descansar um bocadinho.

Acuña

Um remate de primeira com o pé esquerdo e um remate de primeira com o pé direito foram a soma da sua contribuição ofensiva relevante. De alguém para quem o andamento e a rotatividade representam 50% do orçamento qualitativo, é natural que pareça metade do jogador que é após uma paragem. Além disso, apanhou Pereirinha pela frente, factor que compreensivelmente desperta muito menos o instinto competitivo e muito mais a curiosidade antropológica.

Podence

Como qualquer agente vanguardista, a sua violência tem sempre um alvo duplo: os filisteus adversários são alvo da violência estética; mas a violência moral é contra a sua própria casta, da qual recebeu o paradoxal encargo da auto-contestação. Nas suas esporádicas aparições a titular, Podence mostra-se sempre capaz de acelerar o metabolismo da equipa, que hoje, e não pela primeira vez, lhe deve directa ou indirectamente as melhores manobras colectivas. Foi o melhor em campo na primeira parte, e o posterior eclipse (já uns minutos antes da substituição) redistribuiu igualitariamente a qualidade exibicional da equipa, que passou toda a jogar ao mesmo nível, com a pulsação 15 batidas mais baixa.

Bas Dost

Falhou um golo de cabeça logo ao segundo minuto, mas seria ele a inaugurar o marcador, num penalty que o fez chegar ao golo 50 com a camisola do clube – e seguido de uma celebração indicativa de que descartou definitivamente os abraços personalizados, aderindo agora a uma política de festejos estritamente comunista. Na 2ª parte tentou ser a diástole da equipa – relaxando-lhe os ventrículos e promovendo uma circulação serena sempre que a bola lhe chegava em condições. Já era um grande ponta-de-lança quando chegou, mas é cada vez mais um grande jogador.

Battaglia

Impediu que acontecessem coisas graves. Pelo menos em Alvalade. No outro estádio não, a julgar pela algazarra que aqui vai no café.

Bryan Ruiz

Uma primeira intervenção promissora, ganhando um ressalto e desenhando uma combinação que viria a resultar num canto. A cinco minutos do fim, rematou a bola para uma baliza onde o guarda-redes já não estava. Exactamente. Foi isso mesmo. Uma simetria entusiasmante, daquelas que quase nos convencem que as variáveis secretas do Universo, no conforto da sua privacidade inacessível, respeitam as mesmas leis que nos regem.

Bruno César

Entrou para marcar um pontapé de canto e para ceder um pontapé de baliza, tarefas que cumpriu por esta ordem, e no pleno respeito dos termos e condições do contrato.