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Rogério Casanova

Podence, um cruzamento estilístico entre o Dunga dos Sete Anões e um teledisco do Billy Idol (nas palavras de Rogério Casanova)

O extremo agora alourado passou quarenta e quatro minutos essencialmente a dancing with himself, de acordo com este nosso/vosso escriba, que acredita ainda que é uma questão de tempo até aparecerem maluquinhos na Internet a defender a organização das economias mundiais num regime cambial de padrão-Piccini

Rogério Casanova

MIGUEL RIOPA/Getty

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Rui Patrício

Mais um jogo a líbero, mais um jogo em que as pequenas criaturas olhavam dos centrais para o guarda-redes e do guarda-redes para os centrais, mas já era impossível distinguir quem era central e quem era guarda-redes. Embora, na sua forma actual, talvez fosse preferível ser ele e não Coates a tentar fintar avançados à entrada da área.

Piccini

O seu valor é de uma estabilidade tão grande nestes tempos de incerteza que começa a ser ridículo encarar a sua cotação como flutuante. Aliás, é uma questão de tempo até aparecerem maluquinhos na Internet a defender a organização das economias mundiais num regime cambial de padrão-Piccini, em que uma autoridade monetária é obrigada a possuir Piccinis suficientes para converter todo o dinheiro representativo que emite em Piccinis, de acordo com taxas de câmbio fixas. Neste sistema, seria a quantidade de reservas de Piccinis de cada país a determinar a sua oferta monetária. Depois, se um país for superavitário na sua balança de pagamentos, deve importar Piccinis de países deficitários, elevando a sua oferta interna de moeda, e levando a uma expansão da base monetária. Caso tenha uma balança comercial deficitária, exportaria então Piccinis, sofrendo a respectiva contracção monetária e aumentando a competitividade de seus produtos no exterior. Não sei, quer dizer, já ouvi ideias piores

Coates

São legíveis no seu rosto os vestígios do ancestral combate entre o instinto animal e o protocolo social. O instinto diz-lhe para pegar numa submetralhadora MP5 da Heckler & Koch e despejar uma rajada ininterrupta de metal fundido na direcção de um jogador do Boavista, sacundindo-lhe o cadáver numa tarantela blasfema sob a torrente de balas até nada restar a não ser um charco de espuma carmesim no relvado, com alguns farrapos dispersos de Rochinha lá no meio. Mas as pressões da sociedade dizem-lhe para fazer antes um corte em carrinho e ver o consequente cartão amarelo, ou então para o tentar fintar à entrada da área e perder a bola. Mesmo que nem sempre se tome a decisão mais correcta, é nestes impulsos contraditórios - e nas respectivas lições - que se forma o carácter humano.

Mathieu

Um jogo - mais um - à altura de uma parábola Zen: «O Sporting foi ter com um monge sábio que se retirara para meditar e perguntou-lhe: 'Mestre, qual o caminho que devo seguir?' E o monge sábio respondeu-lhe "a luz do amor é como um relâmpago, mas a luz da sabedoria é como um cometa. E metal do arado que lavra a terra é o mesmo da espada que deixa a água incólume". E enquanto o discípulo fez uma vénia e ficou a reflectir sobre o assunto, o jogo já estava ganho, e a equipa provisoriamente em primeiro lugar

Fábio Coentrão

Travou o que se costuma chamar "um duelo interessante" com Kuca, um daqueles extremos chatos que nunca param quietos e que, por algum motivo, têm quase sempre tranças. Fez o primeiro remate da equipa, que saiu por cima, levando-me de imediato a fazer o único comentário que a situação exigia: "Mas este gajo remata à baliza porquê? Ele alguma vez marcou um golo sequer?"

William Carvalho

Porque é que as coisas acontecem como acontecem dentro de campo? Ninguém sabe, nem nunca ninguém soube. Um dos efeitos colaterais curiosos do actual momento de forma de William é que acaba por reforçar a ideia de causalidade, denunciando um jogo repleto de ecos, relações, processos, movimentos - mas fá-lo denunciando ao mesmo tempo essa causalidade como refém perpétua de forças que lhe escapam, deixando-a assim suspensa no território indeterminado entre a Razão e o Desconhecido, e entretanto pelo menos até Domingo à noite estamos isolados no primeiro lugar, portanto não pensem mais nisto.

Gelson Martins

Talvez por ser o jogador mais capacitado para o fazer, foi também o primeiro a perceber que alguém tinha urgentemente de começar a deixar jogadores do Boavista para trás, de forma a evitar que nos aparecessem tantos jogadores do Boavista à frente. O facto de esse esquema revolucionário o ter deixado muitas vezes sozinho (já que os colegas ficavam também eles para trás) não foi especialmente problemático, pois Gelson é uma pessoa paciente, além de que pode aproveitar esses momentos de solidão para descansar. Um grande slalom individual (o quarto na partida) já nos descontos, foi uma lição de como defender desesperadamente um resultado perigoso nos últimos minutos: fintar depois da linha do meio-campo, e não antes; e a finta ser feita por Gelson e não por Coates.

Bruno Fernandes

Fez a exibição possível para alguém que dá todas as indicações físicas de ter saído de uma unidade de cuidados intensivos cinco minutos antes de o jogo começar. O talento não é propriamente afectado, apenas a velocidade a que opera. Bruno Fernandes demora mais três quartos de segundo a pensar no que vai fazer a seguir, e entretanto já um ou outro chato do Boavista lhe cancelou os planos. A fadiga - física e mental - acumulada foi óbvia para todos, excepto talvez para Alan Ruiz, que assistiu do banco boquiaberto a esta demonstração de energia, agilidade e rapidez de execução. Útil nas bolas paradas, residualmente melhor na segunda parte do que na primeira, foi substituído só a cinco minutos do fim. "Até que enfim", pensaram os adeptos. "Este gajo precisa é de descanso". "Incrível", pensou Alan Ruiz, "como ele se mexe!"

Bruno César

Um médio-ala pós-moderno, na medida em que apenas finta, cruza ou remata ironicamente. Criou a melhor oportunidade da equipa nos primeiros 25 minutos de jogo, e fê-lo sem sequer tocar na bola (desviou-se para deixar a bola chegar a Coentrão). Ainda voltou a não tocar na bola várias vezes, mas sem o mesmo sucesso. Aliás, as vezes em que tocou na bola e as vezes em que não tocou na bola tiveram, daí em diante, resultados equivalentes.

Podence

Estreou nos relvados o seu novo visual - um cruzamento estilístico entre o Dunga dos Sete Anões e um teledisco do Billy Idol - e passou quarenta e quatro minutos essencialmente a dancing with himself. Quando finalmente concluíu que nada lhe estava a sair bem à primeira, deu-lhe um assomo de perfeccionismo e decidiu repetir a mesma acção várias vezes (no caso, uma finta no corredor direito) até a mesma atingir o ponto, altura em que fez o único cruzamento decente do jogo inteiro para Coentrão inaugurar o marcador. Na segunda parte, antes de sair, ainda voltou a desenhar uma jogada de golo que Dost preferiu não aproveitar. Com altos e baixos, o certo é que vai sendo decisivo.

Bas Dost

Eis o milagre da conversão brusca da matéria: de um lado o material em bruto, informe (uma esfera, perdida no ar), do outro, o objecto perfeito, humano, acabado (a bola dentro da porra da baliza); e entre os dois extremos nada, a não ser um trajecto quase invisível de sublimação, vigiado e fiscalizado apenas por Bas Dost, uma mistura de autómato, demiurgo e melhor pessoa do mundo de todos os tempos.

Acuña

Nos seus pés, o cruzamento continua a ser um signo que, semiologicamente falando, opera excessivamente, desacreditando-se ao expor de forma tão óbvia a sua finalidade. Mas o canto que deu origem ao 0-2 foi ganho por ele, e não seria, numa reprodução exacta das mesmas circunstâncias, ganho por muitos outros jogadores.

Battaglia

Entrou para recuperar bolas e foi exactamente o que fez, que os tempos não estão para desobedecer a ordens.