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Rogério Casanova

Aureliano González, o mexicano de cabelo amarelo-limão que fugiu de uma infância difícil e do pai opressivo (por Rogério Casanova)

Como a reabertura do mercado de transferências está aí à porta, pedimos a Rogério que tipo de jogadores precisaria o Sporting para reforçar o plantel. E ele entregou-nos a história de Aureliano

Rogério Casanova

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Catorze dias antes da reabertura oficial do mercado de transferências, o pré-debate oficioso entre os adeptos foi inaugurado por uma declaração do treinador do Sporting, por sua vez resumida numa manchete tão perfeita quanto uma manchete resumindo a declaração de um treinador de futebol pode ser: “JESUS PEDE DUAS OU TRÊS PRENDAS DE NATAL”. Na justaposição descontextualizada de duas concepções antagónicas da época festiva, a ideia de Jesus a pedir prendas de Natal é de uma beleza tão autosuficiente como um diamante no seu escrínio de veludo; a única que lhe poderia fazer concorrência seria qualquer coisa como "PAI NATAL PEDE PARA SER CRUCIFICADO".

Enquanto portador de uma voz livre e independente que, como qualquer produtor ocasional de conteúdos para plataformas digitais associadas a órgãos de imprensa, não tem filiação clubística assumida, o meu interesse nesta matéria é puramente académico, mas defendo que o Sporting deve ficar quieto, permitindo que essa ideia e essa manchete subsistam apenas na sua perfeição não-concretizada, e levar o plantel actual até Maio, na saúde e na doença, na alegria e na desgraça, para o melhor e para o pior, por três motivos muito simples:

1) A importância desproporcional que o "mercado de Janeiro" assumiu na imaginação e na prática discursiva dos adeptos sportinguistas deve-se às circunstâncias fortuitas ocorridas em dezembro de 1999, quando três reforços adquiridos por menos de meio Piccini acabaram por ser decisivos no título que encerrou o infame Primeiro Jejum. Desse acidente histórico, surgiu por geração espontânea um coro normativo periódico que todos os anos faz questão de o recordar, exigindo implícita ou explicitamente a reprodução exacta do mesmo processo como condição sine qua non para o sucesso, esquecendo, por exemplo, que a actuação no mercado de inverno no único título seguinte teve o nome de "Nalitzis", e que mais não foi necessário porque o trabalho tinha sido bem feito até Setembro. Independentemente de o trabalho ter ou não sido bem feito em Setembro deste ano, a melhor coisa que nos podia acontecer seria conseguir ganhar um campeonato e em simultâneo dar origem a uma lenda alternativa: a de que Janeiro é para estar sossegado.

2) Adquirir jogadores novos em janeiro para reforçar de forma ostensiva uma candidatura ao título tresanda a desespero, e pode inquinar problematicamente a manobra de sedução. A relação entre "Sporting" e "títulos" é já de si complicada, e se o Sporting quer realmente sair da friendzone, não pode andar por aí como um beta cuck a comprar perfumes caros, a exibir os penteados mais recentes, e mandar cartas de amor aos troféus; a melhor estratégia consiste playing it cool: não devolver telefonemas, não fazer a barba, e comparecer aos encontros com meia-hora de atraso - com a roupa do dia anterior e o quarto central de há seis meses.

3) Bem, na verdade não há um terceiro motivo, a não ser uma propensão congénita para imaginar tudo o que pode correr mal, mesmo que ao início corra tudo bem. É fácil olhar para o plantel actual e identificar algumas carências qualitativas e quantitativas. É fácil admitir que daria jeito mais uma opção para a lateral-esquerda, mais outra para o centro do terreno, e mais um jogador rápido, criativo e inteligente, capaz de acrescentar poder de fogo e capacidade de desequilíbrio à manobra ofensiva.

É fácil especular que talvez se devesse contratar um extremo/médio-ofensivo/segundo-avançado, possivelmente de origem sul-americana. Um internacional sub-21 mexicano, por exemplo, considerado promissor no seu país, mas que ainda não fez a sua estreia na respectiva selecção principal. Alguém chamado, digamos, Aureliano González, um dínamo de pele morena, um metro e setenta e cinco, e cabelo recentemente oxigenado, com aquela curiosa tonalidade amarelo-limão que não evoca propriamente qualquer citrino conhecido, mas sim plásticos, laboratórios químicos, ou as cristas de aves semi-exóticas. Alguém com uma tatuagem da Virgem Maria no braço esquerdo, e com os quatro caracteres chineses que compõem a palavra "Sonho" no direito.

O vídeo das melhores jogadas na sua época de estreia no Racing de Popocatépetl (com banda sonora dos Eurythmics) tem dezasseis mil visualizações no YouTube, e os primeiros quatro comentários são, por ordem cronológica: "No te vas, crack <3", "Welcome to West Ham 2018", "I find this easy to masturbate to", e "Porque é que já não fazem música assim?".

É fácil imaginar que a velocidade com bola do jovem Aureliano González nesse vídeo vai ser muito impressionante. Mas porque corre tanto, o jovem Aureliano González? De que foge ele? Da sua infância difícil em Colonia San Rafael, o bairro operário da Cidade do México? Da influência opressiva do seu pai, Abraxas Herculano González, um homem rude, cujo emprego implica usar um colete fluorescente e colocar cones cor-de-laranja à volta de buracos na estrada causados por explosões de minas colocadas na periferia de territórios controlados por narcotraficantes? Das ambições profissionais da sua irmã Calígula González, que sonha ser escultora e estrela do Instagram? E o que nos garante que o empresário do promissor Aureliano González não seja um escroque sem escrúpulos que vai alterar repetidamente as condições do negócio à última da hora, numa escalada de exigências, até que daqui por quatro anos um leak maciço de emails na internet revele que, como prémio de assinatura, o Sporting foi obrigado a dar-lhe dezasseis milhões de euros, duas toneladas de cocaína e um helicóptero prateado? É sempre este o problema com os jogadores hipotéticos. Vale mesmo a pena correr o risco?

Há portanto alguma prenda de Natal que eu, pessoalmente, deseje? Apenas uma, talvez utópica - uma manchete para emparelhar com a que deu início a este texto. Receber o privilégio de ler, nem que seja uma vez (e mesmo que não lhe consiga atribuir o mínimo de credibilidade) na primeira página de um jornal português, as palavras "ALAN RUIZ INTERESSA AO WATFORD".