Tribuna Expresso

Perfil

Rogério Casanova

Num holocausto nuclear, Coentrão acordaria com ligeira enxaqueca antes de começar a ultrapassar baratas em velocidade (diz Rogério Casanova)

Rogério Casanova deixa os sportinguistas descansados. Não há problema físico que trame Fábio Coentrão: "Podem espirrar-lhe directamente na garganta que ele não se constipa. É possível que já nem sangre a fazer a barba". Além disso, fala-nos de um diálogo entre o físico austríaco Erwin Schrödinger e Battaglia que termina, naturalmente, com um gato morto

Rogério Casanova

TIAGO PETINGA/LUSA

Partilhar

Rui Patrício

Foi hoje, e pela primeira vez em vários meses, vítima daquela antiga maldição chinesa: “Que possas viver tempos interessantes”. Os tempos interessantes em questão consistiram num intervalo de dois segundos no minuto 18, quando um livre indirecto em zona frontal chegou à cabeça de Diney apanhando Patrício a meio do que pareceu uma expedição indecisa. Seria culpa sua, caso a bola entrasse? Nunca saberemos. Mas são estes os riscos que corre um guarda-redes submetido a uma sucessão de jogos fáceis e de quase total inactividade (Portimonense, Benfica, etc.).

Ristovski

E se...? Ouçam-me. E se os laterais-direitos muito bons fossem, afinal, também muito fáceis de encontrar? Se calhar são! Que provas temos do contrário? Se calhar há, por essa Europa fora, em dezassete países diferentes, quatro centenas de bons laterais-direitos à mão de semear, muitos deles desempregados. Se calhar, basta sair num terminal ferroviário em Albacete, Skopje, Frankfurt, Budapeste ou Plovdiv, dar cinco passos em qualquer direcção, agarrar no primeiro vagabundo que se encontre e o mesmo virá a revelar-se um excelente lateral-direito. De acordo com esta teoria, que ainda ninguém refutou cabalmente, justifica-se um investimento tão avultado (5,25 milhões de euros no total) apenas para contar com dois excelentes laterais-direitos no plantel? Que isto sirva para promover o debate interno no Sporting.

Coates

Conseguiu aos vinte minutos cumprir o projecto que William e Bruno Fernandes já tinham tentado algumas vezes antes dele, mas sem sucesso: desmarcar um colega nas costas da defesa adversária com um passe que não fosse demasiado longo, nem demasiado curto, mas na medida exacta. Num jogo praticamente sem trabalho defensivo, teve de ser ele a entreter-se sozinho: primeiro com o deslize da praxe (minuto 30, aparente escorregão no círculo central, felizmente sem consequências); depois, nos últimos minutos, com algumas incursões lá na frente para fazer umas fintas.

André Pinto

Não aproveitou, como o colega que substituiu faria com toda a certeza, o resultado folgado nos minutos finais para ensaiar subidas em sprint pelo campo acima, tentando também ele molhar a sopa, e arriscando uma lesão de esforço. Felizmente para todos, Mathieu já estava lesionado, e portanto não se lesionou. Quanto a André Pinto, cumpriu mais uma vez as duas funções essenciais que se pedem ao terceiro central de um plantel: 1) ser o terceiro melhor central do plantel; 2) jogar, quando joga, como se fosse o segundo melhor central do plantel.

Fábio Coentrão

Uma única falha, ao minuto 61, corrigida por ele, também ao minuto 61. Não fosse isso e poderia falar-se de um jogo perfeito, e pleno de saúde, como se viu na arrancada que iniciou a jogada do 3-0. Pensar que não há muito tempo, andávamos todos receosos que Coentrão sofresse uma lesão muscular. Uma lesão muscular! Entretanto provou-se que Coentrão não sofre lesões musculares. Nem, provavelmente, qualquer outro tipo de problema. Podem espirrar-lhe directamente na garganta que ele não se constipa. É possível que já nem sangre a fazer a barba. Se o mundo acabasse amanhã num holocausto nuclear, aí sim, talvez acordasse só uma semana mais tarde, e com uma ligeira enxaqueca, antes de começar a ultrapassar em velocidade baratas gigantes.

William Carvalho

Depois da merecida folga a meio da semana, regressou à titularidade e apresentou-se mais fresco, disposto a extrair magicamente uma unidade ao pluralismo, insistindo que a diversidade de ideias não é mais do que formal e não desmente a existência de uma matriz comum. Mais do que gerir um meio-campo fluente, William salvaguardou o futuro da civilização, ou pelo menos a parcela da mesma que depende de eu não me suicidar.

Bruno Fernandes

Podíamos ser românticos e dizer que foi o melhor em campo. Mas o mais provável era que, caso Bruno Fernandes nos ouvisse a dizer uma coisa dessas, rachasse o gargalo de uma garrafa de Somersby no balcão do bar e o brandisse de forma ameaçadora à frente das nossas trombas. E nós temos medo de Bruno Fernandes. Como qualquer pessoa racional deve ter. Portanto sejamos cobardes e tenhamos a cobardia de o julgar de acordo com os seus próprios critérios: Bruno Fernandes hoje não marcou um golo; teve, por conseguinte, uma das noites mais horríveis de toda a sua vida.

Gelson Martins

Mobilidade, agressividade, sempre a procurar diagonais perigosas para o meio, sempre com disponibilidade para dar linhas de passe ou ajudar na recuperação – e com a assistência decisiva que desbloqueou o resultado. É preciso ser um caso muito especial para merecer uma frase como a anterior numa tarde em que praticamente não acertou um último passe.

Bryan Ruiz

Marcou um bom golo, hoje. Fez uma boa época, há dois anos. A classe individual nunca se perde, como pode confirmar qualquer pessoa que veja Robert Pires num jogo de veteranos. Robert Pires, que, já agora, se reformou em 2016, aos 42 anos, após uma época no Futebol Clube de Goa. O que significa, entre outras coisas, que o Futebol Clube de Goa se calhar precisa de um médio ofensivo para o seu lugar.

Podence

Criou a primeira jogada atacante digna desse nome, mas não teve – nem criou – muitas oportunidades para fazer o seu número mais eficaz: receber no meio, de costas para a maralha, girar, progredir em velocidade, e vasculhar o horizonte à procura de linhas de passe ou pontos de fuga. Ajudou a recuperar algumas das bolas que perdeu, mas de resto dedicou-se hoje, incaracteristicamente, à produção de conteúdos não monetizáveis

Bas Dost

Não é a primeira vez que Bas Dost transmite a distinta impressão de só rematar à baliza quando tem a certeza absoluta de que vai marcar golo. O que é suspeito. Deve haver algures uma agência de apostas secreta, só acessível através da Dark Web, com odds estratosféricas para uma aposta sobre recorde de golos marcados com mínimo de toques na bola acumulada com percentagem de eficácia. E Dost tem lá metade dos ordenados investidos. É uma questão para as autoridades investigarem, antes que ele se torne, por larga margem, o homem mais rico de todos os tempos.

Battaglia

Schrödinger: Portanto o gato está simultaneamente vivo e morto na caixa, numa sobreposição de estados quânt...

Battaglia: Então matam-se os dois gatos. Com o pé.

Schrödinger: Não, não me fiz entender. Não há dois gatos, só há um gato. Um gato que...

Battaglia: Então mata-se esse gato. Com a minha chuteira. O gato fica morto.

Schrödinger: Mas a questão não é essa, o gato existe ao mesmo tempo em dois planos que...

Battaglia: Mata-se o gato nos dois planos. Com a minha chuteira.

Acuña

Entrou e fez logo um cabrito a um adversário, para colocar as coisas em perspectiva. Na sua segunda intervenção arriscou um lance no 1 para 1, que evidentemente perdeu. Mais tarde marcou um golo. Seria possível reconstruir em laboratório o tipo de jogador que é só a partir destes três lances.

Iuri Medeiros

É logicamente possível olhar para a soma das contribuições de Iuri no jogo e tirar duas conclusões opostas: a) entrou muito bem, e b) entrou mal. Escrevi inclusive uma versão de cada e ambas eram extremamente plausíveis (além de extraordinárias também de muitas outras maneiras). Uma pena que nenhuma seja publicada.