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Rogério Casanova

Alguém deve oitenta e oito cêntimos a Rogério Casanova, feita uma conta que tem a ver com Gelson e cigarros

Se os três jogadores do Sporting que saíram do banco, já na segunda parte, são descritos por Rogério Casanova como "apenas testemunhas de uma desgraça, e é como tal que devem ser tratados", como será alguém que se deixou "comer na profundidade por um jogador com aproximadamente 58 anos de idade"? Agora pensam, ou melhor, leiam

Rogério Casanova

MÁRIO CRUZ/LUSA

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Rui Patrício

Passou por alegadas dificuldades ao minuto 45, quando alegadamente demorou a resolver um atraso e ia alegadamente chutando a bola contra um jogador do Vitória, mas as imagens televisivas não mostraram o alegado incidente - uma manifestação de decoro e respeito pela paz e sossego de um campeão europeu que devia servir de exemplo para todos, não só outros órgãos de comunicação social, mas também os adversários que teimam em invadir a sua privacidade com grandes penalidades.

Piccini

Era óbvio que algo não estava bem. Desde o primeiro minuto que se notaram indícios de comportamento deficiente na sua estrutura. Será necessário um relatório para apurar as causas das anomalias detectadas, mas à primeira vista eram evidentes algumas fissuras na coxa direita, roturas ao nível do passe curto e longo, uma racha no frontispício do cruzamento fácil e outros sinais de alarme que levaram alguns adeptos mais nervosos a sentir vontade de invadir o campo até tudo ficar esclarecido.

Ninguém deve ser obrigado a ver um jogo neste clima de insegurança, quando três milhões de euros que até aqui pareciam tão estáveis de repente ameaçam ruir. Há que proteger o espectáculo. O ideal, o justo, o ético, teria sido interromper a partida, chamar uma equipa de engenheiros para avaliar o problema, e continuar o jogo daqui a uns meses.

Coates

Está mais do que na altura de Coates fazer uma introspecção profunda e demorada na maneira como se relaciona com a violência, uma relação cada vez menos eficaz e profissionalizada. Viu um amarelo ao minuto 50 por se encostar ao inofensivo Gonçalo Paciência, que conduzia inofensivamente a bola perto da inofensiva linha lateral. Nos últimos minutos, quando podia e devia ter anulado um problema bem mais sério, pregando uma pantufada ao adversário que lhe virasse os intestinos do avesso, optou por deixar-se comer na profundidade por um jogador com aproximadamente 58 anos de idade.

Mathieu

Perfeitamente enquadrado no espírito do clube, respeitador do seu passado, conhecedor das suas tradições, sabia que há um ritual que consiste num defesa-central ser obrigado a cometer uma falta por trás, dentro da grande área, no Estádio do Bonfim, em Janeiro, sobre Edinho, e nos últimos minutos de um jogo decisivo. Limitou-se, portanto, a cumprir à risca o que estava previsto nos estatutos.

Fábio Coentrão

Foi o melhor em campo e saiu depois do empate, envolvendo-se de imediato num debate de ideias com o banco de suplentes, tão rancoroso como uma polémica teológica medieval. A interpretação de Coentrão, a julgar pela veemência injustiçada dos seus gestos, pelo seu semblante intransigentemente solitário, devia ser herética e não ortodoxa. O banco de suplentes teve o que merecia (a equipa também, ao contrário de Fábio). Uma coisa é certa: mais uma vez, Fábio Coentrão não caiu, não se aleijou, não sangrou: a não ser por dentro.

William Carvalho

O grande passe para Gelson dentro da área ao minuto 10, a placidez com que frustrou ao minuto 14 um projecto de trinta segundos de um jogador do Vitória que consistia em roubar-lhe a bola, o excelente contra-ataque que conduziu logo a abrir a segunda parte, galopando 40 metros e soltando no momento exacto para Piccini, o esclarecimento que mostrou quase sempre com bola: estes são os quatro pontos cardeais de uma boa exibição. O resto - e quando me refiro ao resto, refiro-me à escavação arqueológica a que por vezes se assemelha o meio-campo defensivo da equipa - tem menos a ver com a responsabilidade individual de William Carvalho e mais com a responsabilidade de quem acha que o fantasma de Adrien Silva ainda ali anda a ajudá-lo quando a equipa não tem bola.

Gelson Martins

Temporização e definição perfeitas no lance do golo. Grande slalom a partir da própria área ao minuto 77, num lance em que fez tudo bem e que merecia melhor conclusão. Capacidade inesgotável para fazer de lateral, segundo trinco, e segundo avançado, por vezes no espaço de 10 segundos. Aos 89, isolado depois do milionésimo sprint da época, já não teve energia para rematar, e fez com que eu acendesse não um, mas dois cigarros em simultâneo, que posteriormente deixei cair ao chão no momento do penálti, tendo voltado a acender mais dois, e a deixá-los cair também. Pelos meus cálculos, alguém me deve oitenta e oito cêntimos; mas não é Gelson - é quem o deixou, muito literalmente, jogar até cair.

Bruno Fernandes

A qualidade que conta nos momentos cruciais. Marcou um golo, na primeira diagonal em que conseguiu aparecer dentro da área. E merecia bisar a dois minutos dos 90, que mais não seja por ter sido dos poucos que se apanhou com a bola dentro da área e tentou metê-la realmente dentro da baliza, em vez de criar uma instalação artística chamada "Andebol". Espero que Coentrão tenha deixado uma parte do banco intacta, pois este também estava com cara de quem precisava de descomprimir à biqueirada.

Acuña

Alguns jogadores vêem as jogadas como elas são e perguntam "porquê?" Outros sonham jogadas que nunca foram e perguntam "por que não?" Acuña imagina os dois tipos de jogadas e pergunta "será esta uma boa altura para chutar a bola para a nebulosa de Orion?" E a resposta é quase sempre positiva. Embora o torne inútil como médio-ala, o seu actual momento de forma ainda pode ter utilidade noutras áreas. Os instrumentos de trabalho de Marie Curie permanecem radioactivos xx anos depois da sua morte. Talvez as recentes exibições de Acuña possam ser preservadas num laboratório subterrâneo no Nevada, debaixo das areias do deserto, dentro de um cubículo reforçado por paredes de aço de dois metros de grossura, estudadas pelos andróides que vão preparar armas biológicas para a IV Grande Guerra Mundial.

Rúben Ribeiro

Geralmente bem nas combinações ao primeiro toque, esteve envolvido em duas jogadas na segunda parte (ambas com Gelson) em que podia ter decidido ou executado melhor. Creio que o cliché operativo mais adequado neste tipo de situações é "não fez um jogo deslumbrante". E não fez. A não ser para quem se deslumbre com pouco, como eu. Quem se deslumbre, por exemplo, com a capacidade que mostrou ao minuto 85 para, rodeado por três adversários e sem linhas de passe perto da linha, manter a calma, manter a posse, e deixar a situação esclarecida. Saiu no minuto seguinte, e perdeu-se pelo menos um bocadinho dessa lucidez em espaços fechados, e dessa anómala relutância em perder bolas escusadas.

Bas Dost

A fada dos golos deve tê-lo informado que hoje não ia marcar e portanto não valia a pena estragar a sua sobrenatural percentagem de eficácia com tentativas condenadas ao fracasso. É pelo menos essa a conclusão a tirar da sua acção ao minuto 86, quando optou por servir Bruno Fernandes, no outro lado da área, em vez de rematar à porra da baliza. E assim se vai agravando a sua preocupante seca de golos, que já se arrasta há 93 minutos.

Battaglia, Podence e Doumbia

Foram apenas testemunhas de uma desgraça, e é como tal que devem ser tratados.