Tribuna Expresso

Perfil

Rogério Casanova

Rogério Casanova elaborou uma teoria para a lesão de Danilo: tem a ver com abraços, paixão e Bas Dost

Confrontado com a missão de ter de escrever sobre os jogadores do FC Porto e os seus afazeres, Rogério Casanova mencionou, por mais que uma vez, o desejo de abraçar o avançado holandês que notou em vários jogadores portistas. E como isso pode, "a breve prazo, destruir irremediavelmente o balneário" dos dragões

Rogério Casanova

HUGO DELGADO/LUSA

Partilhar

Iker Casillas

Defendeu com segurança um remate perigoso efetuado pelo seu poste esquerdo e pouco trabalho teve além disso. Com a sua experiência e palmarés, calcula-se que já não ligue grande importância ao facto de fazer parte de alguns dos clubes mais restritos da história do futebol (o dos "jogadores com mais jogos em competições da UEFA", o de "jogadores com mais vitórias na história do campeonato espanhol", o de "guarda-redes que mais vezes perderam o lugar para guarda-redes piores que eles", etc), mas é da mais elementar justiça informá-lo que hoje conquistou lugar num dos mais restritos de todos: o "clube de guarda-redes que viram mesmo à sua frente Bryan Ruiz aproveitar uma oportunidade de golo decisiva".

Ricardo Pereira

Representante máximo em campo da típica arrogância do Futebol Clube do Porto, que acha que pode andar por aí a adquirir bons laterais-direitos por menos de três milhões de euros. Tinha uma tarefa difícil pela frente, pois cabia-lhe travar a imprevisibilidade de Acuña: um jogador que nunca se sabe se vai tentar cruzar desesperadamente logo ao segundo toque, ou se, por outro lado, vai tentar proteger a bola com o corpo até poder passá-la para trás - uma panóplia de recursos criativos aflitiva para qualquer defesa. Ao minuto 74, devidamente esclarecido, foi lá à frente fazer umas fintas e um remate cheio de otimismo, como se Rui Patrício não estivesse por ali.

Felipe

Identificou corretamente Bas Dost como uma força essencialmente benigna, pelo que procedeu aos ajustamentos e realinhamentos de personalidade necessários para não o assassinar à biqueirada. Está de parabéns.

Marcano

Envolveu-se em algumas jogadas de combinação com Rui Patrício, recebendo de cabeça vários passes longos efectuados pelo guardião português. Sempre muito atento a defender, como se viu ao minuto 64, quando foi o único a perceber de onde vinha o perigo num lance que parecia inócuo, desatando a correr para bloquear um remate de Bruno Fernandes. Foi ainda vítima de um lance violentíssimo na segunda parte: barbaramente agredido no seu queixo pelas costas de Dost, após ter inocentemente arremessado o seu queixo contra as costas de Dost. Não se sabe como conseguiu ter condições para continuar a jogar, quanto mais ainda ter forças para marcar o penálti.

Alex Telles

A qualidade do costume nas bolas paradas, e a mesma atenção de Marcano ao pormenor fatal: também ele bloqueou um remate perigoso de Bruno Fernandes ao minuto 17, o que prova pelo menos uma verdade insofismável: a defesa do Porto não tem qualquer confiança em Casillas. Será prematuro falar já em mau clima no balneário, mas estes sinais não indicam nada de bom.

Danilo

Começou intranquilo, com um passe pela linha lateral logo na primeira saída de bola, e uma segunda perda de posse para Rúben Ribeiro logo na jogada seguinte. Aos cinco minutos, compreendeu-se o motivo do seu transtorno emocional: após ano e meio a ver Bas Dost distribuir abraços pela televisão, não conseguiu mais reprimir os seus sentimentos e demonstrou em público toda a trovadoresca paixão que sente pelo holandês. Ao perceber que não era correspondido, saiu de campo, certamente com o coração despedaçado.

Herrera

Corre imenso, Herrera. Imenso! E, mais estranho que isso, ninguém o tenta parar, nem adversários, nem colegas? Porquê? Quer dizer, é o impulso natural, quando se vê um crime a ser cometido: tentar fazer os possíveis para o evitar. Mas não, é como se as correrias de Herrera inibissem esse impulso altruístico em terceiros. Pormenor curioso: ao minuto 60, tentou também ele abraçar Bas Dost. O gesto foi mais discreto que o de Danilo, e ocorreu no meio-campo, mas indicia um possível triângulo amoroso platónico que pode, a breve prazo, destruir irremediavelmente o balneário portista.

Sérgio Oliveira

Ao minuto 14 roubou a bola a William Carvalho. Isso mesmo: quem é que este julga que é? Como se não bastasse, no minuto seguinte, tentou rematar de longe, procurando dessa maneira... o quê, exactamente? Marcar um golo? De fora da área? A Rui Patrício? Já não se aprende nada nas escolas? Que futuro é este que estamos a deixar às nossas crianças? Felizmente, o que lhe falta em conhecimentos sobra-lhe em humildade, pois a partir daí começou a falhar sempre no momento de definição em jogadas que poderiam ser perigosas. Foi a sua maneira de reconhecer os próprios erros, e pedir desculpa.

Brahimi

Perdeu um lance para Piccini ao minuto 4. Perdeu o segundo ao minuto 10. Ao minuto 11 foi fintado por Piccini. Ao minuto 20 voltou a não conseguir ultrapassá-lo. Ao minuto 40, cansado daquela vida, tentou ultrapassar outra pessoa, Coates: conseguiu. Cheio de moral, foi outra vez tentar a sua sorte com Piccini: falhou. Lá lhe conseguiu ganhar um lance na segunda parte, mas viria a perder mais quatro ou cinco. A dada altura, apercebendo-se da facilidade com que era possível anular Brahimi, outros jogadores do Sporting sentiram inveja de Piccini e começaram eles próprios a tentar: Battaglia, Bruno Fernandes, etc. Todos conseguiram. E assim foi a sua noite, até falhar o penálti. Se alguém tivesse dito a Brahimi, hoje de manhã, que iria fazer uma exibição quase inofensiva, Brahimi largaria uma sonora gargalhada. Ou pelo menos tentaria largar uma sonora gargalhada: é provável que Piccini lá estivesse por perto, a tapar-lhe a boca.

Marega

Deu o primeiro sinal de vida com uma extraordinária iniciativa individual ao minuto 12, num slalom que deixou para trás meia equipa do Sporting e que concluiu com um audacioso passe para os painéis publicitários, permitindo assim que a sua equipa ganhasse tempo e se reposicionasse defensivamente. Teve mais algumas incursões do mesmo género, ultrapassando pessoas com tanta velocidade que, caso levasse um telemóvel no bolso, o actual governo tentaria bloquear-lhe a rede para evitar acidentes. Acidentes acabou por ter um ou dois, o mais estranho dos quais ao minuto 75, quando cedeu à tentação dos inocentes e foi perguntar a Fábio Coentrão qual o segredo da imortalidade. Pelo gesto, foi punido pelo árbitro com um amarelo. Pela insolência, foi punido pelos Deuses com a reiterada impossibilidade de voltar a marcar golos ao Sporting.

Soares

Quase anónimo até ao minuto 34, altura em que foi fintado por Rúben Ribeiro, tendo reagido de pronto com uma falta (mas optou por não mostrar a si próprio um cartão amarelo, decisão com a qual o árbitro concordou). Logo a seguir teve o discernimento necessário para não estragar o espectáculo com um golo prematuro: ao ver que a jogada era demasiado boa para não ser concretizada, fez a única coisa ao seu alcance, e desmarcou-se uma fracção de segundos demasiado cedo, o suficiente para ficar em fora-de-jogo. Na segunda parte tentou fazer um chapéu a Patrício, um gesto tão descompensado que foi imediatamente castigado pelo seu treinador com a substituição, em mais um claro sinal de problemas gravíssimos no balneário do Porto. Aliás, a própria maneira como se limitou a atirar efeminadamente um casaco ao chão, em vez de destruir o banco de suplentes ao murro (a reacção normal de um futebolista que sai de campo com o jogo empatado) mostra que o clima de tensão é óbvio, e merece ser acompanhado de perto pela comunicação social.

Óliver Torres

Um grande passe para Herrera ao minuto 28, que revelou toda a sua clarividência e visão de jogo, na medida em que esperou pelo momento certo para apanhar o colega em posição irregular. Desenhou um par de boas jogadas, mas foi perdendo lucidez com o passar dos minutos, como se percebeu quando derrubou em falta Battaglia, num momento de total irresponsabilidade que podia ter posto em risco a integridade física - não a de Battaglia, evidentemente, mas a sua.

Aboubakar

Uma boa iniciativa perto do fim, desembaraçando-se de Coates e fazendo um cruzamento perfeito para Waris. Podia ter deitado tudo a perder, mas felizmente teve sangue frio para se redimir a seguir, falhando a sua grande penalidade.

Waris

Este, pelo contrário, não falhou o penálti. Mas numa noite em que nem Bryan Ruiz conseguiu falhar o seu, seria injusto estar a criticá-lo por isso.