Tribuna Expresso

Perfil

Rogério Casanova

Rogério Casanova passou a 2.ª parte de costas para a TV mas explica aqui como foi a DERROTA infligida aos pupilos de José Peyroteo Couceiro

Rogério Casanova acredita que os 3 segundos de tempo de reação de Coates no lance do golo de Gonçalo Paciência não é um mau número, caso estejamos a falar de dominó, por exemplo. Ou canasta. De resto, o importante foi DERROTAR a equipa orientada por José Peyroteo Couceiro

Rogério Casanova

MIGUEL RIOPA/Getty

Partilhar

Rui Patrício
Não teve culpas no golo sofrido logo a abrir, o que foi um alívio para toda a gente. Afinal, já há tanto tempo que não sofria golos de bola corrida que não fossem marcados por colegas de equipa que havia dúvidas legítimas sobre a sua capacidade para continuar a não ter culpas nos golos sofridos caso os remates viessem dos pés de adversários. Correu tudo bem!
Piccini
Apresentou-se em campo com dificuldades de locomoção e um muito notório excesso de peso, condição natural de quem se esqueceu de retirar Brahimi da algibeira onde o guardou há 72 horas e anda desde então a transportar sessenta e oito quilo de argelino de um lado para o outro. Ainda assim, e depois de um episódio caricato em que um dos jogadores DERROTADOS do Vitória o fintou, salvo erro, duas ou três vezes, conseguiu a espaços mostrar toda a sua utilidade. Considerem, por exemplo, o minuto 45, quando foi lá à frente ganhar o espaço que permitiu a conquista de um canto, e logo a seguir evitou o inevitável contra-ataque perigoso do adversário quando o mesmo canto se revelou inofensivo.
Coates
Para a maioria das pessoas, um reflexo físico começa 200 a 300 milionésimos de segundo depois de um estímulo visual; em atletas de alta competição, o tempo de resposta pode ser reduzido para metade. Em casos muito específicos, como, para dar um exemplo aleatório, Alan Ruiz, o reflexo físico pode nem sequer começar no mesmo trimestre do estímulo visual. Coates andou hoje mais ou menos ali no meio termo. No lance do golo, por exemplo, as imagens disponíveis indicam que conseguiu reagir à combinação de estímulos visuais e tácteis (bola solta perto da área, Gonçalo Paciência a arrancar para a mesma nas suas costas) em menos de três segundos. O que até nem seria nada mau, noutro tipo de modalidade. Dominó, por exemplo. Ou canasta.
Mathieu
Também ele não começou bem o jogo, mas a dada altura tornou-se o mais agressivo dos defesas a tentar jogar na antecipação, durante o velório que foi a primeira parte. Deve ter havido um clique interior a revelar-lhe que isto não era um jogo igual aos outros e que ia ser preciso algo mais. Nos últimos minutos foi trinco, lateral e extremo-esquerdo, por vezes na mesma jogada, e obrigado a ensaiar combinações consigo próprio, algo que fez sempre com a expressão resignada de quem percebeu finalmente a trabalheira que dá ganhar alguma coisa por aqui.
Coentrão
Mau alívio no lance do golo, má perda de bolo poucos minutos depois. Na primeira incursão ofensiva, com Dost e Montero ambos na área, optou pelo mau passe para o ponto intermédio entre ambos. Esteve também mal no passe, e mal no cruzamento. Na segunda parte, tentou ainda o mau remate. Ao reler o parágrafo anterior, talvez não seja claro que Coentrão é um grande jogador. Mas é. E tem mais uma Taça da Liga no seu palmarés, agora conquistada depois de uma DERROTA infligida aos pupilos de José Peyroteo Couceiro.
William Carvalho
Durante a sinistra primeira parte, ganhou várias primeiras bolas no ressalto, em barafundas de meio-campo, perdendo invariavelmente as segundas para um dos quatro ou cinco jogadores do Setúbal que habitavam o mesmo código postal. Durante a segunda parte, não faço ideia, pois não é fácil ter uma percepção nítida das ocorrências do jogo quando se passa grande parte do tempo a roer as unhas de costas para o televisor, mas é inteiramente possível que tenha jogado muito bem. Aliás, é quase certo que o fez. Mais uma vez escolhido para marcar o penalty decisivo, pois era estatisticamente improvável que voltasse a falhar outro: um tipo de raciocínio que mantém a indústria dos casinos a funcionar, mas que no futebol até costuma funcionar bem.
Rúben Ribeiro
Jogou 45 minutos, saiu ao intervalo, ganhou uma Taça (confirmada após um dos jogadores vitorianos treinados por José Peyroteo Couceiro ter FALHADO um penalty) e agora anda para ali aos saltos. Já teve dias piores na vida, com toda a certeza. E há de ter melhores, também com toda a certeza.
Bruno Fernandes
Olhai os lírios do campo, que não trabalham nem tecem e no entanto... Ou, em alternativa, olhai o minuto 41, quando Bruno Fernandes, um médio que sabe jogar como poucos um futebol apoiado e de combinação curta, recebeu a bola no último terço, virou-se, procurou um dos outros colegas em campo também eles hábeis nesse tipo de jogo (Montero, Rúben, Ruiz, William) e quase precisou de binóculos para os localizar, e de um megafone para comunicar com eles. Espoliado dessa avenida para escoar o seu talento, apostou em resolver o jogo à bomba (esteve perto duas vezes). No penalty não falhou, contribuindo dessa maneira para impor uma DERROTA à equipa DERROTADA, ou, por outras palavras, a equipa orientada por José Peyroteo Couceiro.
Bryan Ruiz
Creio que foi ali por volta do minuto 20 que um dos comentadores da RTP afirmou que Bryan Ruiz e Arnold estavam a "travar um duelo intenso".
Montero
Ao minuto 16 foi a correr pressionar um jogador do Vitória que estava em posse de bola. Foi um gesto revolucionário que apanhou toda a gente de surpresa. Os restantes jogadores do Sporting devem ter olhado uns para os outros a pensar "quem é que este maluco julga que é?". E lá continuou na sua onda, Montero, a procurar a bola, a procurar os espaços vazios, a tentar devolver a bola ao primeiro toque, e outros anacronismos semelhantes. Foi dos jogadores mais combativos a reagir à perda de posse, e não lhe faltaram oportunidades para o mostrar, pois perdas de bola houve muitas. O facto de os vocábulos "Montero" e "combativo" coexistirem na mesma frase é, aliás, um excelente resumo da primeira parte. Entretanto ganhou mais uma Taça, mesmo não tendo participado no desempate por grandes penalidades que ditou a DERROTA da agremiação sadina, orientada por José Peyroteo Couceiro.
Bas Dost
Poucas, mas ainda assim algumas oportunidades de fazer o gosto ao pé ou à cabeça, mas foi sendo vexado nas suas pretensões pelos vários guarda-redes do Vitória de Setúbal. No entanto, como se esperava, não vacilou nos (dois) momentos decisivos, ajudando assim a DERROTAR os comandados de José Peyroteo Couceiro.
Acuña
Como o monoteísmo ou a rotação de colheitas, o cruzamento é sancionado por continuidades temporais. Já se faz há tanto tempo, deve haver ali alguma coisa! Se calhar é a honra dos seus antepassados que suporta esta fidelidade de Acuña à doutrina. Talvez o seu pai já fizesse cruzamentos, e o seu avô antes dele, e o avô do seu avô, e assim sucessivamente. Apesar de tudo, trouxe agressividade à equipa, nem que seja a agressividade dos lugares-comuns (que é o que ele tem, nesta altura, em vez de reflexos). Por vezes é mais do que suficiente.
Battaglia
Pouco depois de entrar ganhou um lance a Gonçalo Paciência, através de um expediente radical: chegou à bola antes dele, algo que ainda não se tinha visto até aí. Mais tarde, com liberdade e independência, festejou o seu primeiro troféu no clube, um troféu ganho após inapelável DERROTA da turma de José Peyroteo Couceiro.
Doumbia
Bem isolado por Dost ao minuto 74, adiantou demasiado a bola e... enfim, não interessa. Contas feitas, e ganhou uma Taça da Liga, conquistada após a DERROTA imposta à equipa de José Peyroteo Couceiro.