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Rogério Casanova

Coentrão cumpriu 270 minutos plenos de saúde em 7 dias e é por isso que não se partiu outro banco de suplentes (por Rogério Casanova)

Ora, o onze do Sporting visto por Rogério Casanova traz análises matemáticas, estatísticas, filosóficas e humorísticas. Como sempre

Rogério Casanova

Gualter Fatia

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Rui Patrício

Desviou um remate para canto nos primeiros minutos e encaixou outro à figura à passagem da meia hora, mas no geral teve mais uma noite descansadinha, onde nem o provável futuro colega conseguiu obrigá-lo a mostrar a qualidade que as equipas que o defrontam têm conspirado para resguardar como se fosse um segredo de Estado. Tal como a esmagadora maioria dos guarda-redes do campeonato nacional, chegou ao fim do jogo em condições de responder à pergunta "sabe qual foi o resultado final?"

Ristovski

Momento intrigante ao minuto 12, que é legítimo especular só aconteceu porque jogou ele e não Piccini: num pontapé de baliza do Vitória, juntou-se uma molhada de gente na sua zona e o guarda-redes bombeou para lá a bola. Foi um lembrete de outros tempos, quando o plano ofensivo de muitos adversários do Sporting consistia quase exclusivamente em tentar meter a bola por alto nas costas do lateral-direito: um jogo de má memória com o Lokomotiv, em 2015, foi isto do princípio ao fim. Desta vez, por acaso, a jogada até veio a resultar num remate perigoso à baliza de Patrício, e fica a ideia que a diferença de preço entre Piccini e Ristovski (seiscentos e cinquenta mil euros) se deve acima de tudo à diferença de posicionamento - e centímetros - visível nesses lances.

Mas não voltou a acontecer, e por bons motivos: Ristovski dá largura (sempre), dá profundidade (quase sempre), dá lucidez e compostura (quando tem a bola), dá raça (quando não a tem), dá atenção dentro da área (fez um corte providencial aos 20 minutos) e dá-nos a todos (sobretudo) um merecido descanso em relação a uma das posições mais traumáticas dos últimos anos.

Coates

Depois do suplício que passou no sábado passado, teve precisamente o tipo de jogo que tanto ele como o miocárdio colectivo sportinguista mais necessitavam: sem chatices, sem Gonçalos Paciências, sem princípios de enfarte.

Mathieu

Voltou a fazer o mesmo número que já fizera no fim-de-semana, durante a Suprema Final do Insigne Campeonato de Inverno 2017/18: depois de ganhar todos os duelos defensivos que travou, e à medida que as ideias se iam esgotando lentamente no resto da equipa, apareceu no último quarto de hora a apresentar as suas. Que são, bem vistas as coisas, ideias muito simples: que a bola deve ir para dentro da baliza, e não para fora; que os jogos são para ganhar, e não para empatar; e que todas aquelas que coisas que "o Mundo sabe" enumeradas antes do apito inicial, Mathieu já as sabe de memória.

Fábio Coentrão

Havia alguma pessoa no estádio inteiro que tivesse menos vontade de empatar este jogo do que Coentrão? Suponho que é teoricamente possível, mas duvido. Mais do que a experiência, mais do que a pura qualidade, voltou a trazer ao jogo aquela hipertrofia competitiva e fobia quase violenta a qualquer outro resultado que não a vitória. E entretanto cumpriu 270 minutos plenos de saúde no espaço de 7 dias, sendo um dos principais responsáveis por não ter que destruir mais um banco de suplentes.

Battaglia

Regressivo, primordial, telúrico, Battaglia é uma aparição vinda directamente do passado misterioso do futebol: uma Terra Perdida de répteis, cavernas, monossílabos e pedras lascadas. Algures, para lá da colina, vive uma outra tribo, que fala um dialecto diferente do nosso, e que tem uma bola. Battaglia não concorda que eles tenham a bola, portanto vai lá buscá-la. Pelo caminho, é possível que tenha de assassinar alguns camponeses e incendiar algumas cabanas, mas a bola vem com ele. Depois entrega a bola aos seus amigos. Nem sempre é fácil. Battaglia sabe que a bola é uma relíquia sagrada do seu povo, e olha-a com um temor reverencial que o deixa nervoso, e a mim também. No fundo, sente-se mais confortável a assassinar camponeses e incendiar cabanas. Mas também conhece a importância que a bola assume na nossa pequena civilização e lá vai tentando participar nos rituais que a incluem, embora se suspeite que somente o assassinato de camponeses e a incineração de cabanas o deixam verdadeiramente realizado.

William Carvalho

A jogar mais solto e mais adiantado, começou bem, sofreu intermitências, mas acabou ainda melhor. Terá sido, com a bola nos pés, um dos elementos mais consistentes da equipa, tentando várias vezes na segunda parte organizar a manobra ofensiva por ordem alfabética (Acuña - Bruno - Coentrão - Doumbia), tal como faz com as suas prateleiras de clássicos do jazz. Aos poucos, vai-nos matando as saudades que dele tínhamos; não devemos ser gananciosos e esperar que as mate todas de uma vez.

Bruno Fernandes

Como o outro Bruno do plantel, está aparentemente condenado a um périplo vocacional por todas as posições em campo, e é uma questão de tempo até fazer uma perninha a lateral-esquerdo. Mostrou a vontade e mobilidade habituais, mas, tal como no fim-de-semana, esteve algo desastrado no passe. Nos últimos minutos, no entanto, foi instrumental a guardar a bola no meio-campo ofensivo e a tentar que equipa defendesse a vantagem não a hiperventilar perto da área, mas lá ao longe e em ritmo de passeio. Quando o treinador fala no "cinismo à italiana", também se deve referir a este tipo de coisas.

Rúben Ribeiro

Várias acções de qualidade em posse, mas quase todas transitivas e auto-contidas, a flutuar na sua inócua e competente autonomia, como frases de campanha de um político talentoso, que sabe omitir os verbos de acção necessários para transmitir a impressão de fazer imensas promessas sem em qualquer momento assumir um compromisso. Ao vê-lo com a bola no pé, de frente para o jogo, calmo e confiante, fica-se sempre com a sensação de que é um candidato extremamente viável a qualquer coisa. Ainda falta perceber a quê, mas temos tempo.

Acuña

Não têm sido tempos fáceis para a relação entre Marcos Acuña e a faixa esquerda do meio-campo ofensivo. Ainda há amor, e carinho, e respeito mútuo, mas fisicamente, as coisas simplesmente não têm funcionado. Acuña bem tenta, mas não consegue satisfazer as necessidades da faixa esquerda do meio-campo ofensivo. Não que a faixa esquerda do meio-campo ofensivo se queixe. Pelo contrário: é a primeira a reconhecer que Acuña anda cansado e a primeira a enumerar liricamente todo o léxico do cansaço (a fadiga, a ansiedade, o excesso de trabalho). E é capaz de olhar Acuña docemente nos olhos e dizer-lhe com total sinceridade para ele não se preocupar, que isto também acontece aos outros médios-ala. É uma fase, só isso. Mas enquanto Acuña, por muita impotência que revele em algumas funções fundamentais, continuar a meter comida na mesa, solidariedade na defesa, remates no alvo e assistências no pecúlio, o casamento lá se vai aguentando.

Bas Dost

Democratizou de tal forma o golo que ausência de um é quase sentida por si como uma privação ou um enfermidade: era uma questão de tempo até que isso se materializasse de forma psicossomática. Esperemos que recupere depressa.

Montero

Houve alturas na sua primeira passagem pelo clube em que aquele complacente sangue frio se revelou um atributo crucial para meter em campo nas alturas mais tremidas. Houve outras em que era aflitivo ver tanto talento junto afogado num batido de banana. A sua segunda passagem pelo clube não será diferente.

Doumbia

Trouxe uma velocidade, agressividade e capacidade de atacar as costas da defesa que os outros avançados do plantel não conseguem dar. Trouxe também os seus pés, que nem sempre facilitam a aplicação mais correcta das virtudes acima descritas.

Brunos Césares

Pessoalmente, e mesmo sabendo todas as suas limitações, durmo mais descansado à noite por saber que os Brunos Césares fazem parte do plantel. Entraram bem no jogo esta noite, e até podiam ter marcado.

Lumor

Em primeiro lugar, bem vindo. Em segundo lugar, e em resposta à tua pergunta: sim, ele é um bocado descompensado. Mas não ligues, há-de correr tudo bem.