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Rogério Casanova

Em vez de rematar, Bruno César tentou fazer um .gif. Conseguiu e desapareceu para sempre no mundo dos feeds online (por Rogério Casanova)

Duas horas e qualquer coisa depois da primeira derrota do Sporting na Liga, eis que Rogério Casanova nos apresenta a sua versão dos factos

Rogério Casanova

Gualter Fatia

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Rui Patrício

Nos primeiros seis minutos foi vítima de violentos ataques ad hominem por parte de adversários que, com a colaboração ignóbil do vento, lhe tentaram marcar golos de canto directo, num dos casos mais ultrajantes de desonestidade intelectual que testemunhei em toda a minha vida. Eram motivos mais do que suficientes para toda a equipa ter abandonado o terreno de jogo em protesto, mas decidiu-se continuar a legitimar aquela farsa, por motivos que me ultrapassam.

Piccini

Ganhou a linha de fundo várias vezes, com uma facilidade que recordou a todos os adeptos o milagre que foi a sua contratação ter custado uns meros 3 milhões de euros. No seguimento dessas jogadas, tentou algumas vezes cruzar, com uma dificuldade que recordou a todos os adeptos a tolerância que devem estender a alguém cuja contratação custou uns meros 3 milhões de euros. Pontos de bónus por ter sido o único jogador da equipa a conseguir, num lance de um para um, roubar a bola a Lucas Evangelista.

Coates

Manteve o nível dos últimos tempos, sem erros cataclísmicos, mas com dúbios posicionamentos, falhas na saída de bola e uma geral lentidão de processos a contribuir decisivamente para o processo de gentrificação da defesa do Sporting, que hoje assistiu a um dramático influxo de turistas cheios de vontade de fazer barulho e causar chatices.

Mathieu

Demorou oitenta e oito minutos a perceber que era o jogador em campo mais qualificado para impedir que o resultado final fosse aquele, e só nessa altura foi lá à frente, para fazer (evidentemente) o remate mais competente de toda a segunda parte. O guarda-redes do Estoril acabou por desviá-lo para canto, num dos exemplos mais repugnantes de desonestidade intelectual a que assisti em toda a minha vida.

Fábio Coentrão

Safou bolas em cima da linha, ganhou cantos, rematou à baliza (com o pé e com a cabeça) e ainda fez as melhores assistências: ao minuto 43 descobriu Coates sozinho na área; no minuto seguinte descobriu Bruno César sozinho na área; no minuto seguinte descobriu que estava sozinho no mundo. Amarelado na segunda parte, foi substituído pouco depois, quando ainda estava a ser dos melhores elementos da equipa, numa decisão que se compreende, por duas razões: a) a possibilidade de tentar desfazer à batatada mais um banco de suplentes, levando um recinto estruturalmente frágil a desabar por completo, merecia pelo menos ser testada; e (b) de qualquer maneira era injusto obrigá-lo a ficar a aturar aquilo até ao fim.

Battaglia

Ao minuto 17 foi fintado pelo guarda-redes do Estoril, num dos episódios mais vergonhosos de desonestidade intelectual que presenciei em toda a minha vida.

William Carvalho

Uma dedicação total à resolução de problemas, sem histerias, sem sentimentalismos. A sua solidariedade extrema em campo passa por vezes despercebida, pois assume uma forma contra-intuitiva: não é que William ande a correr freneticamente de um lado para o outro a resolver os problemas dos colegas; o que ele faz é andar a pensar freneticamente no mesmo sítio para evitar criar-lhes mais problemas do que eles já criam a si próprios. Foi, na primeira parte, o jogador mais esclarecido em posse, e fez os melhores passes da equipa. A meio da segunda parte decidiu eliminar os intermediários e começar a passar a bola directamente a jogadores do Estoril, para poupar mais embaraços aos colegas.

Bruno César

Mostrou-se rápido, alerta e interventivo, ganhando faltas perigosas, pressionando, jogando bem ao primeiro toque. Foi dos que mais tentou o remate, até ao minuto 44, quando em vez de tentar o remate, tentou fazer um .gif. Conseguiu; e desapareceu para sempre no mundo dos feeds online.

Acuña

Pareceu mais ágil hoje do que nos últimos tempos, física e mentalmente. Mas é cada vez mais óbvio que jogar sem espaço ou com tempo não é o seu forte: a sua tendência instintiva no primeiro caso é sempre para proteger a bola; no segundo (que o obriga a reflectir) para se ver livre dela o mais depressa possível. É muito melhor nas situações inversas, em que o espaço é muito, o tempo é pouco, e cada gesto é uma urgência, canalizando uma resposta emocional não premeditada, no sentido de evitar ou então participar no fim do mundo em cuecas. Emocionalmente, pelo menos, veio parar ao clube certo

Bruno Fernandes

Se William é o superego da equipa – o portador dos seus ideais éticos – Bruno Fernandes é o seu id, com a tarefa de produzir os seus desejos. Um meio-campo que tem tudo para funcional lindamente ao nível da saúde psicológica (deles e minha), desde que andasse por ali um terceiro elemento, idealmente equipado com um lança-chamas, a manter a ordem enquanto estes dois perseguem os seus desejos.

Doumbia

Um remate inócuo ao minuto 16 e uma boa jogada aos 39, a pressionar o defesa, a ganhar no esforço e a soltar no momento certo para Bruno César. De resto foi combativo, deu trabalho a toda a gente, e acumulou mais uma ou outra recuperação ofensiva. Menos bem sempre que tentou os lances de 1x1, ou qualquer outro recurso que o obrigasse a usar os pés, aqueles dois pés que tem, nomeadamente o pé esquerdo e o pé direito, duas das extremidades anatómicas mais intelectualmente desonestas que contemplei em toda a minha vida.

Montero

Há que ter paciência, não será fácil recuperar toda a qualidade e motivação que certamente perdeu após aquele ano inteiro a ser treinado por Marco Silva.

Rúben Ribeiro

Dos três suplentes utilizados, foi o único a acrescentar alguma qualidade. Deixou Acuña isolado na cara do golo assim que entrou, e teve o mérito de raramente se precipitar. O que não deixa de ser um elogio, mas repare-se bem nos parâmetros deste elogio: “teve o mérito de raramente se precipitar”. Mais jogos assim e qualquer dia estou a elogiar jogadores com frases do género “teve o mérito de não dar um tiro na cabeça”.

Bryan Ruiz

Foi o último suplente a entrar, e não esteve bem nem mal, numa das mais pérfidas manifestações de desonestidade intelectual que observei em toda a minha vida.