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Rogério Casanova

Rogério Casanova parabeniza BdC com um Conteúdo Digital Aberto Dirigido à Fração do Universo Visível Não Constituída Por Bruno de Carvalho

Bruno de Carvalho completa 46 anos esta quinta-feira, dia 8 de fevereiro, e Rogério Casanova aproveitou a ocasião para dizer algumas – bom, muitas – coisas sobre o homem que tanto pode ser visto como “assassino de gatinhos” ou como o melhor presidente do Sporting

Rogério Casanova

Bruno de Carvalho é presidente do Sporting desde 2013

José Carlos Carvalho

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Foi há aproximadamente sete anos que ouvimos falar pela primeira vez em Bruno de Carvalho, o que significa que foi há aproximadamente sete anos menos quinze minutos que ouvimos dizer pela primeira vez que Bruno de Carvalho era um vigarista histriónico pronto a levar o Sporting para o abismo. Sete anos passaram, e os dois pares ainda cá andam na pista de dança: o Sporting e o abismo (estes significativamente mais afastados que em 2011), e Bruno de Carvalho e a as opiniões sobre Bruno de Carvalho - esses ainda no mesmo sítio, mas sujeitos ao desconforto dos reajustamentos constantes, drásticos ou infinitesimais, como uma comichão emocional difícil de coçar.

Muitas delas - as opiniões - foram instintivas e imediatas: para todas as pessoas que, quinze minutos depois de ele se materializar na vida pública portuguesa, o identificaram corretamente como alguém incapaz de identificar corretamente um garfo de ostras. Outras foram cristalizando na sequência de uma campanha eleitoral que ele (por necessidade e temperamento) conduziu como um bolchevique, e que a lista de Godinho Lopes (por necessidade, temperamento e Cunha Vaz) conduziu como uma mistura de Dinastia Romanov, Pravda e Jornal do Incrível.

Da síntese dessas duas circunstâncias, surgiu a ubíqua criatura mitológica conhecida como “o Bruno de Carvalho”: o arrivista chico-esperto, o arruaceiro com sede de protagonismo, o tiranete suburbano, o operador de esquemas-pirâmide, o prestigiado assassino de gatinhos; alguém que a qualquer momento, mais tarde ou mais cedo, iria deixar em escombros uma instituição centenária e fugir para Vladivostoque, deixando na sua esteira resmas de multas por pagar, mensalidades do condomínio em atraso, e bandas gástricas descartadas pelo caminho.

Entretanto, para o Sporting e para o seu fiel abismo de estimação, a bem sucedida colagem eleitoral aos fantasmas disponíveis (“mais um Jorge Gonçalves”, “outro Vale e Azevedo”) significou também uma opção pela continuidade dessa serena eutanásia administrativa de quase duas décadas conhecida como Projecto Roquette. Foram vinte e dois meses finais emocionantes do ponto de vista cardiovascular, nos quais a resposta às sucessivas crises auto-induzidas foi redesenhar solenemente o organograma da SAD, alienar património, dobrar o passivo, subalternizar ainda mais o clube em relação aos rivais históricos, remeter percentagens do plantel para Chipre, e reforçar as nossas reservas estratégicas de Termos de Identidade e Residência.

Bons tempos! Mas chegou-se ao fim, fizeram-se as contas (aplicando exclusivamente as tabuadas da divisão e subtracção) e uma pluralidade de sócios concluiu que eleger o assassino de gatinhos era uma resposta adequada ao desfiar do último saco de gatos. O arrivista arrivou - com o bolchevismo intacto, a promessa emancipatória de um “fim de ciclo”, e a capacidade (que só surpreendeu quem não prestou atenção da primeira vez) para não deixar que o seu radicalismo, em retórica ou em actos, fosse minimamente atenuado pelas exigências pragmáticas da transição para o poder.

Em que consistiu o radicalismo, na prática? Para começar, em demonstrar que fim-do-mundo em cuecas podia ser protelado. Depois mostrando, nas funções essenciais do cargo, essa mistura caótica de intuição, bom senso, trabalho, confiança e sorte a que chamamos competência, e que permitiu reequilibrar as finanças precárias do clube, reduzir o fosso orçamental para os rivais, bater recordes de lucros da SAD e de transferências do clube, contratar Piccinis por três milhões, revitalizar a tradição eclética ressuscitando modalidades extintas e tornando outras competitivas, aumentar o número de sócios e a média de assistências no estádio, cumprir a promessa de fornecer aos sócios informação financeira com mais transparência, criar um canal televisivo, construir um pavilhão, resolver o problema crónico do relvado, e não fuzilar ninguém. No futebol profissional, não trouxe os títulos mais desejados, mas até aqui se recuperou algo perdido: a possibilidade de sentir, na sua plenitude, a mágoa profunda de não ganhar, e de poder encarar uma derrota com o Estoril como uma violenta desgraça e não apenas como aquilo que costuma acontecer ao domingo. (O fenómeno mais desolador durante os últimos estertores do Roquettismo não foi as vitórias terem deixado de acontecer, mas sim as derrotas terem deixado de doer).

E por fim, trazendo para o futebol português (ou, com mais precisão, para a esfera discursiva para-futebolística) um estilo de conduta e de retórica que, não sendo propriamente original no conteúdo, era novo tanto na forma como na aparente convicção. Bruno de Carvalho não foi o primeiro populista episodicamente destravado no desporto nacional, nem inaugurou os seus registos mais incendiários. Mas terá sido o primeiro a encarnar o zelo próprio do nativo desse ambiente, ao invés da teatralidade protocolar e instrumental dos incendiários tradicionais: os que incendeiam taticamente, em resposta a emergências locais; ou os que preferem, com sentido de Estado, delegar em terceiros os materiais combustíveis.

NUNO FOX

Uma dos efeitos desta novidade (um efeito sentido, embora me pareça que não totalmente compreendido) foi a irreversível transformação em texto do que até então tinha sido subtexto. Não é tanto que Bruno de Carvalho tenha vindo perturbar, com os tabus da flatulência e brejeirices sobre terceiros olhos, a Arcádia do futebol nacional, com a sua pastoral promiscuidade, as suas idílicas buscas da PJ, as suas bucólicas prostitutas oferecidas a árbitros, e as suas tranquilas suspeitas de corrupção sistémica. Mas ao apresentar-se na orla do bosque com o seu próprio lança-chamas e o seu próprio latão de gasolina, proclamando em alta e rouquíssima voz que aquelas árvores estavam ali a tapar coisas muito graves, destruiu a artificial barreira profilática entre a comum retórica do adepto (que anda há mais de trinta anos a presumir, com resignada indignação, um pântano de ilegalidades e conspirações nos bastidores da modalidade) e a típica retórica institucional (que sempre tratou o "clima de suspeição" como mais um instrumento estratégico, a ser utilizado ou descartado em função das necessidades).

Reside aqui, provavelmente, uma das (várias) explicações para a aversão profunda e mais ou menos generalizada que a sua presença e o seu estilo abrasivo provocam, tanto nos adeptos dos clubes rivais, como até em pessoas cuja ligação com o fenómeno desportivo é pouco mais que turística. A popular objeção do “adepto-adepto” ao “Presidente-adepto” é no fundo o reconhecimento de um espírito coevo, e da sua cooptação efectiva da retórica do café, da barbearia e da cantina do emprego; o corolário é óbvio: se aquela linguagem é a nossa, então o lugar dele é aqui, e não ali. Porque a diferença é que no café, na barbearia e na cantina do emprego, se pode responder em conformidade e em tempo real. A própria natureza diária e recíproca do ritual, conduzido entre amigos, colegas ou pelo menos conhecidos, permite cumprir a função de desabafo, e tornar o processo de provocação minimamente salutar. Quando o mesmo discurso é mediado por um ecrã de televisão ou pelas páginas de um jornal, e responder é impossível, o efeito será muito mais corrosivo e insatisfatório. (E mesmo a promissora alternativa digital de lhe deixar comentários diretos no Facebook deve produzir em quem não o suporta uma catarse deprimentemente analógica).

Ao nível interno, o ambiente também está longe de ser pacífico, até porque é inevitável que alguma desta massa de reacções atávicas se infiltre pelos adeptos do próprio clube. Um clube desabituado de vitórias tende a apegar-se em demasia ao conforto terapêutico da superioridade moral: se não podemos sentir-nos maiores, queremos ao menos sentir-nos melhores. Na ausência de festejos, procura-se o refúgio da dignidade e rejeita-se tudo o que cheire a embaraço adicional. Tudo isto é saudável (será, pelo menos, a saúde possível), desde que não se deixem os parâmetros desse embaraço ser definidos à revelia por terceiros.

Feito o somatório de jogos ganhos e troféus conquistados, muito do mercado clubístico civil tende a transformar-se numa luta pela posse dos meios de produção de gozo e pelo controlo dos circuitos de irrisão: quem consegue largar a boca mais eficaz, reduzindo o interlocutor à inferioridade simbólica; quem consegue afirmar, com maior plausibilidade, que algo no outro clube é "patético", "ridículo" ou digno de risota. Com maior ou menor bonomia, o adulto clubista mais funcional nunca sai totalmente deste recreio. É neste campo secundário que alguns adeptos do Sporting, mesmo entre aqueles que não partilharam a aversão inicial e instantânea ao seu estilo e personalidade, foram revelando (a meu ver) alguma falta de imaginação, aceitando uma herança não examinada de lugares-comuns sobre "dignidade", "correção" e "elevação" que não devia sobreviver a cinco minutos de olhos abertos à frente do futebol português (e até de outras áreas), e, munidos desse abrantesmendismo serôdio, foram-se deixando convencer que o comportamento do Presidente seria um factor adicional na sua vulnerabilidade colectiva, porque os outros meninos no recreio assim o dizem, com memes e loles e dedos no nariz. Em resposta, foram recalibrando um conjunto de exigências cada vez mais esotéricas, separando personalidade e competência, retórica e prática, ansiando por um Presidente mítico, que seja um leão com a Doyen e um cocker spaniel na tribuna, um Bonaparte na sala de reuniões e uma Elena Ferrante na sala de imprensa, uma louca na cama, mas uma lady na mesa.

Um dos clichés mais associados à emergência de Bruno de Carvalho é a imputação aos seus apoiantes de pulsões messiânicas: um seguidismo cego que nele vislumbrou um Homem-Providencial, no qual era incapaz de encontrar defeitos. Não deixa de ser curiosa que a forma encontrada por alguns de resistir a este impulso - real ou imaginário - e de manter uma postura de independência e exigência crítica, consista em formular um inventário de atributos ideais, reivindicando utopicamente um Presidente no qual se consigam "rever" em todos os aspetos, e que seja capaz de corresponder a todas as suas preferências e ao mesmo tempo reconciliar por artes taumatúrgicas as ideias e flutuações emocionais de dois milhões de adeptos, cada um com uma ideia própria do que é a identidade sportinguista no seu estado não adulterado. Este desejo de representação "perfeita" pode ou não ser o verdadeiro messianismo; mas razoável, de certeza que não é.

Uma coisa é manter a vontade de melhorar e o discernimento necessário para saber identificar uma alternativa superior quando ela se apresenta. Outra é passar um ano a redescobrir semanalmente, com renovada desilusão, que Slimani era um ponta-de-lança com tanta agressividade competitiva que era uma pena não ter melhor toque de bola; e o ano seguinte a redescobrir semanalmente, com renovada desilusão, que Bas Dost é um ponta-de-lança tão letal que era uma pena não ter mais agressividade competitiva: não será possível encontrar um que tenha tudo? Se calhar é, mas não todas as décadas. E, até ver, o exercício retórico de quem reclama alguém, no universo sportinguista, capaz de fazer o trabalho deste Presidente sem todo aquele lastro tão incomodativo, parece-me o suspiro mais messianista de todos. Talvez haja um Bismarck potencial em cada esquina do Campo Grande, mas num clube em que, nos últimos atos eleitorais, se apresentaram alternativas tão empolgantes como Pereira Cristóvão, Zeferino Boal, Madeira Rodrigues, Carlos Severino e o treinador do Setúbal, não será má ideia atenuar alguma dessa fé no património interno de talento, carisma e qualidades de liderança.

A questão de fundo é saber se Bruno de Carvalho ainda serve, e se o seu serviço é ainda preferível a um regresso ao passado, ou a um novo tiro no escuro. E é uma questão que, pelos vistos, ele próprio quer ver respondida, com tanta ou mais urgência do que aqueles preparados para responder negativamente.

Por muito legítimos que sejam os receios mais bem informados sobre as propostas de alteração de estatutos, a ideia vendida e circulada de "golpe estatutário" (que contribuiu para o caos em que se transformou a última AG) não faz grande sentido. Os instrumentos para sancionar disciplinarmente os sócios não me parecem diferir substancialmente dos que já existiam; nem, aliás, dos que existem, vertidos em linguagem quase igual, em outros clubes. E por muitas dúvidas genuínas que alguns dos seus repentes autoritários (mais tribais que ditatoriais) provoquem, é difícil alimentar a ficção de um plano maquiavélico para se perpetuar no poder sobre alguém que já vai em três eleições e que, à mínima contrariedade, se volta a submeter voluntariamente à vontade dos sócios.

Foto António Pedro Santos / Lusa

Esta ânsia de re-legitimação não deixa de indicar uma intenção de reforçar o seu poder (pelo menos será essa a consequência, caso seja bem sucedido). Mas também sugere, até pelo motivo que a provocou, que tudo isto, ainda para mais visto à luz de uma série de intervenções públicas cada vez mais expostas, vulneráveis, e ressentidas, tem outra origem: uma origem bem menos sinistra, da sacrossanta perspectiva "democrática"; mas possivelmente mais esquisita.

Não é que Bruno de Carvalho se importasse que todas as vozes da dissensão se calassem (nisso não será diferente de qualquer outro líder). Mas o que está aqui em causa não parece ser a intenção de abafar pela censura futuras oposições internas, mas sim denunciar a contestação de uma minoria organizada, e com bagagem, que ele vê (quanto a mim corretamente) como querendo acima de tudo fazer ruído; e demonstrando (a eles e, se calhar, a si próprio) que existe uma maioria disposta a fazer mais ruído.

Posso estar enganado, mas tudo isto me parecem cada vez mais os anseios não de quem quer estar acima de uma corte submissa, mas sim à frente de uma tribo unida; não de quem, com o ego inchado, quer pessoalizar o clube, mas de quem, com o ego ferido, não compreende como alguém acredita nisso; não de quem quer sossego para fazer barulho sozinho, mas de quem quer companhia para fazer barulho com ele; não de quem quer lealdade passiva, mas de quem quer militância activa.

Algo que ainda não é claro nesta altura, mesmo após anos de confessionalismo público torrencial, é se Bruno de Carvalho já percebeu e interiorizou que a substancial maioria de sócios que o elegeu e a esmagadora maioria que o reelegeu não é, nem nunca vai ser, uma massa unificada. O que é, é uma coligação heterogénea de minorias emocionais: a minoria dos que apreciam a sua competência e gostam da sua personalidade; a segunda minoria (mais numerosa, suponho) dos que apreciam a sua competência e apenas toleram a sua personalidade; uma terceira minoria dos que apreciam a sua competência, mas não gostam da sua personalidade; e certamente ainda uma quarta, composta por todos aqueles que têm muitas dúvidas sobre tudo, mas que, perante as alternativas, o escolheram como mal menor. E caso ainda não tenha acontecido, era útil que se habituasse à ideia de que vai sempre haver, dentro e fora de portas, quem não goste nada dele, de forma visceral. (Por amor de Deus, esse é um dos motivos secundários pelos quais eu gosto dele!)

É nesta heterogeneidade, e na sua incerta reação à mesma, que se intercruzam de forma mais problemática a crítica mais substantiva que lhe é feita, e o tipo de exigência que agora parece ser ele a colocar aos sócios. A crítica é o desgaste a que se submete voluntariamente, procurando com diligência encontrar toda e qualquer provocação, todo e qualquer insulto, toda e qualquer crítica, com um sentido de escala e proporcionalidade que já pareceu mais afinado. A sua reiterada exigência - essa é menos evidente. Um pedido de que estejamos com ele, também nessa trincheira? Uma admissão de que a fadiga e desgaste acumulados pela postura combativa de militância constante de que ele próprio não abdica é um fardo que tem de ser partilhado?

É uma possibilidade que haja aqui duas conceções distintas e irreconciliáveis de militância clubística: uma que sente cumprir-se no pagamento atempado de quotas, no acompanhamento fiel das várias modalidades, e na participação regular em Assembleias eleitorais ou extraordinárias; e outra que exige um nível acrescido de ativismo, mais interventivo, mais organizado, mais sintonizado, e em moldes que se calhar quem o defende ainda não soube explicar e articular. Tal como é uma possibilidade que, sem nenhuma das partes ter ainda dado conta, ambas estejam implicadas num diálogo de surdos: de um lado, uma massa associativa que reconhece perfeitamente o lodaçal circense que é o futebol português, mas não quer ter nada a ver com isso, e prefere aproveitar a recém-devolvida vontade de se concentrar no "jogo jogado", mandatando o Presidente para o resto, como quem diz "não não, a gente sabe disso tudo, mas essa parte é contigo"; e do outro um Presidente que parece estar a tentar dizer aos adeptos, "não não, é precisamente esta parte que já não posso ser eu sozinho".

Bruno de Carvalho tem sido, por larga margem e critérios objetivos, o melhor Presidente do Sporting no período que englobou toda a minha adolescência e idade adulta. Para além de tudo o resto, permitiu-me a novidade estonteante de ver o Sporting dirigido simultaneamente por alguém competente e que gosta mais do clube do que eu próprio. Preferia que isto continuasse como está. Mas nesta altura, e por muito que lhe custe a acreditar, isso depende mais dele do que de mim e de todos os outros que (ainda) pensam da mesma maneira.