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Rogério Casanova

A caçada de Doumbia, David Attenborough e Rogério Casanova, anulada pelo VAR por irregularidades na formação de organismos multicelulares

Rogério Casanova está feliz, não só porque o Sporting venceu o Feirense (2-0), mas porque o videoárbitro está sempre atento e pronto a detetar "uma irregularidade na Carta Constitucional de 1826, outorgada pelo Rei D. Pedro IV" ou "uma irregularidade no Tratado de Zamora, que reconheceu a independência do Reino de Portugal em 1143"

Rogério Casanova

JOSE MANUEL RIBEIRO

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Rui Patrício

Setenta minutos de ansiedade à distância até que, como já vem sendo hábito, alguém decidiu faltar-lhe ao respeito: uma desonestidade intelectual de Edson que só não teve sequelas mais graves porque Patrício conseguiu desviar o remate para o poste. Continua a ser o homo sacer do futebol português: não é permitido incluí-lo em rituais de sacrifício coletivo, mas toda a gente insiste em tentar matá-lo de desgosto.

Piccini

Mais uma noite segura, a contribuir para a estabilidade da sua cotação. Foi o primeiro jogador da equipa a conseguir esticar o jogo com sucesso, e ao minuto 77 ainda lá andava lá por cima, a ganhar lances no um para um perto da linha de fundo e, em vez de tentar cruzar (instinto contra o qual vai lutando corajosamente) optando antes por ganhar cantos. Mas, numa noite cheia de novidades, aconteceu-lhe também algo pela primeira vez: em cima do intervalo, perdeu um lance de cabeça para um adversário nas suas costas que conseguiu ganhar-lhe o espaço à sua frente. Foi um momento filosófico, que ao lembrar-nos que nada é certo nesta vida, acaba por nos reconciliar com a nossa própria falibilidade humana.

Coates

Ao contrário do que aconteceu demasiadas vezes últimos tempos, não foi o principal responsável pelo frenético incinerar de cigarros entre os espectadores, esse flagelo social que tanto atinge as vozes mais livres e independentes do país. Algumas boas aberturas a rasgar, soltando Piccini ou Gelson pelo corredor, e até as suas já lendárias polguices beneficiaram da presença de Doumbia no onze, pois assim conseguem por vezes assemelhar-se mais a “passes em profundidade” e menos a “charutadas lá para a molhada”.

Mathieu

Continua a ser impressionante que um jogador com um currículo tão escasso na conversão de livres diretos tenha conseguido agora, aos 34 anos, transformar cada lance desses num legítimo momento de esperança entre os adeptos. Hoje tentou um rasteiro, para a direita de Caio Seco, e outro mais canónico, a meia-altura e para o lado esquerdo. Felizmente nenhum deles entrou, ou era possível que fossem anulados, caso o VAR detectasse uma irregularidade na Carta Constitucional de 1826, outorgada pelo Rei D. Pedro IV.

Brunos Césares

Estiveram geralmente bem, mas podiam ter aproveitado melhor o facto de serem imensas pessoas para criar situações de superioridade numérica no ataque. Acabaram por ser mais úteis a defender, como se viu ao minuto 14 minuto, depois de uma falha de Piccini ter dado origem a um contra-ataque venenoso do Feirense: felizmente os adversários eram apenas três e os Brunos Césares eram muitos mais, conseguindo dessa maneira cortar o lance de perigo. Saíram todos a vinte minutos do fim, vários deles com a noção do dever cumprido.

William Carvalho

O Mostrengo que vive no fundo do VAR,
Os cornos lhe veio hoje chatear;
No meio do relvado chatices causou,
E um golo limpíssimo invalidou.
O Homem da Braçadeira,
Que golos não mete,
Lá veio de urgência,
Fazer o frete.
Porque mais que o Mostrengo que no VAR se mete,
E soprou no apito daquele gatuno,
Manda a vontade de não ser croquete,
D'El Rei De Carvalho, o Bruno.

Gelson Martins

Primeiro minuto: saída rápida do Feirense, interrompida no segundo exato antes de poder criar perigo porque Gelson teve velocidade suficiente para vir ao meio atrapalhar a variação de flanco. Minuto 12: sem sequer acelerar muito, o Feirense conseguiu manter a posse e trocar a bola em progressão pelo meio campo do Sporting, até Gelson vir do outro lado do campo ao flanco esquerdo resolver o problema. Minuto 27: apareceu na sua área, a intercetar um cruzamento e cedendo canto, segundos depois de ter sido ele a criar perigo na área contrária. Houve mais momentos análogos, sempre intercalados com a hiperatividade do costume no último terço, e a fiabilidade habitual para criar problemas ao adversário de dois em dois minutos. Ainda assistiu Montero para o 2-0. Não é nenhum crime de lesa-majestade apontar as falhas de Gelson ao nível da decisão e do último passe; mas há alturas em que, ao olhar para a totalidade do seu rendimento em campo e para a equipa, falar nas suas más decisões é também uma má decisão.

Bruno Fernandes

Sacou o primeiro amarelo do jogo depois de uma boa aceleração pelo meio, e foi dessa maneira que produziu, aqui e ali, alguns desequilíbrios. Mas, na linha do que tem acontecido de há umas semanas para cá, aquelas típicas rotações em que não toca na bola para tentar ir buscá-la com mais espaço ao outro lado acabaram muitas vezes em bolas perdidas, algumas delas em zonas pouco recomendáveis. Teve o 3-0 nos pés mas, apesar de só faltarem 20 segundos para o jogo acabar, decidiu (bem) não submeter os nervos coletivos a esse resultado tenebroso. Além que o lance teria provavelmente sido anulado, caso o VAR detectasse uma irregularidade no Tratado de Zamora, que reconheceu a independência do Reino de Portugal em 1143.

Bryan Ruiz

Desde que foi reintegrado no plantel, a dúvida quando o víamos surgir em campo era sempre se ia jogar bem ou mal. Bryan Ruiz foi optando pela resposta salomónica (no sentido de Diogo Salomão): nem uma coisa nem outra. Hoje, pela primeira vez, e em especial durante a primeira parte, deu uma resposta mais conclusiva, e terá feito se calhar os melhores 45 minutos desde a sua primeira época, para os quais despertou mentalmente ao minuto 14: apareceu na quina da área, teve tempo de avaliar todas as opções para se refugiar na segurança, fazer um passe atrasado inócuo, ou até perder honestamente a bola, mas lembrou-se de repente que já foi um belo jogador. Portanto rematou em arco, para uma boa defesa (e ainda falhou mais uma oportunidade clara). Mas pode ser que o lembrete lhe sirva para o resto do semestre.

Montero

Mais solto e com mais mobilidade do que nos jogos anteriores, mas acima de tudo mais confiante a reter a bola sob pressão e mais incisivo a soltar os colegas em profundidade (percebeu bem mais depressa que muitos outros elementos do plantel qual a melhor maneira de tirar algum partido da agressividade de Doumbia a atacar as costas das defesas). Depois de se juntar à epidemia coletiva de falhanços escandalosos (rematou contra clavículas de guarda-redes, septos nasais de defesas, painéis publicitários, etc) acabou por merecer fechar a contagem, num lance que até podia ter sido anulado, caso o VAR tivesse detectado irregularidades no processo de Deriva Continental que desmantelou a Pangeia e permitiu indirectamente o golo de Montero.

Doumbia

FADE IN:
EXT. #1 – FLORESTA TROPICAL

A voz de David Attenborough sussurra através da folhagem

DAVID ATTENBOROUGH (Voz off)

(…) temos aqui uma rara oportunidade para observar o instinto predatório do Doumbia no seu habitat natural

EXT. #1 – FLORESTA TROPICAL

Grande plano de Doumbia, a tirar o guarda-redes da frente e a engalfinhar a bola contra um defesa que ali aparecera.

DAVID ATTENBOROUGH (Voz off)

Nem sempre o Doumbia consegue atingir os intentos para os quais a evolução o preparou. A única certeza é de que vai continuar a tentar, até a mudança das estações o obrigar a partir para terrenos mais férteis.

EXT. #1 – FLORESTA TROPICAL

Grande plano de Doumbia, a marcar um golo e a vê-lo anulado.

DAVID ATTENBOROUGH (Voz off)

Infelizmente, ainda não é desta que o Doumbia consegue capturar a sua presa. A Natureza, na sua infinita sabedoria, decidiu anular a caçada, depois de o VAR detectar uma irregularidade na formação dos primeiros organismos multicelulares no Mesoproterozóico.

EXT. #1 – FLORESTA TROPICAL

Grande plano de Doumbia, isolado, a rematar a bola para o raio que o parta.

DAVID ATTENBOROUGH (Voz off)

E a vida continua, numa dança tão antiga como o próprio Tempo, da qual somos aqui, por momentos efémeros, espectadores privilegiados.

Rafael Leão

Assim que entrou fez um remate perigoso à baliza que não deu em golo, e logo a seguir assistiu um golo que viria a ser anulado, integrando-se assim perfeitamente no espírito do jogo. Tem várias características físicas e técnicas que auguram um bom futuro, além de uma característica mental tão ou mais importante: uma mistura muito específica de calma e descaramento.

Lumor

Teve a sorte de entrar com a equipa balançada no ataque pelo que conseguiu logo apresentar-se com um excelente cruzamento. A defender, perdeu um lance de cabeça na área, mas no dia histórico em que até a Piccini aconteceu o mesmo, é precipitado tirar grandes conclusões. Até porque para tirar conclusões imediatas sobre um novo jogador, e dizê-las cantando a toda a gente, está lá o treinador.

Battaglia

Hoje entrou demasiado tarde para poder extrair o fémur a um adversário sem anestesia e beber-lhe a medula óssea de penálti, resta-lhe esperar pela próxima oportunidade.