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Rogério Casanova

Rogério Casanova acredita que o gesto de Mathieu merecerá protesto do Sindicato Nacional dos Barbeiros, Cabeleireiros e Ofícios Correlativos

Por outro lado, os desequilíbrios criados por Gelson Martins poderão merecer fortes protestos do Sindicato de Fabricantes de Balanças e o falhanço de Doumbia perto do final do jogo um protesto do Sindicato dos Operadores do VAR Responsáveis por Invalidar Golos Limpos ao Doumbia

Rogério Casanova

PAULO NOVAIS

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Rui Patrício

Fez uma grande defesa a desviar para canto um remate que ia entrar junto ao poste, situação que sucedeu ao minuto 32, e quando digo "ao minuto 32" estou obviamente a designar o minuto que senti no interior do meu coração e não num qualquer instrumento opressor do patriarcado cronológico, que tanto procura zelar pela manutenção da ditadura do tempo, algo quanto a mim incompatível com os valores pluralistas que constituem esse património colectivo a que chamamos Liberdade.

Piccini

Adicionou mais uma pérola à sua já impressionante colecção privada de atrasos de peito ao guarda-redes, mas não esteve tão irrepreensível nos duelos individuais como em Astana, em especial durante a primeira parte. Subiu muito de nível depois do intervalo e, depois da expulsão de Mathieu, alargou o raio de acção para cobrir o excesso de largura e profundidade que o campo ganhara, acumulando algumas dobras importantes. Perto do fim, subiu bem e ganhou um canto, na sequência do qual tentou um remate de ressaca: a bola subiu à troposfera, onde a meteorologia é deliberada e distribuída pelos vectores naturais, e voltou a descer, aterrando algum tempo depois algures em Salamanca, uma ocorrência que pode configurar uma exportação ilegal.

Coates

Mantém-se firme naquela postura de eremita que acabou de regressar do topo da montanha, onde passou um semestre a jejuar e reflectir até decidir renunciar à violência (e à velocidade; e à agilidade; e ao sentido posicional). Os cortes, quando acontecem, são no limite. Os alívios, quando os consegue, vão para adversários. Os passes longos, quando os tenta, vão para fora. Os piques, quando arranca, ganham jet-lag pelo caminho. E quando remata, nem sequer olha para a porra da baliza. É, em suma, o melhor jogador do mundo de sempre e uma dádiva que nos foi entregue pelos Céus. Uma vénia.

Mathieu

Podia dizer-se que colheu os benefícios de ter sido poupada à viagem ao Cazaquistão, mas a verdade é que mantém a mesma frescura física e mental desde que se sagrou espectacularmente Campeão de Inverno 2017/18. Há um lance a meio da primeira parte em que defendeu um canto na sua área, e logo a seguir foi à área contrária ganhar outro. Teve duas boas oportunidades para marcar ainda antes do intervalo e alguns cortes impecáveis depois, antes de ser expulso por segundo amarelo por criticar sensualmente a forma como um jogador do Tondela tinha os pelos faciais aparados, num gesto que merecerá certamente um forte protesto do Sindicato Nacional dos Barbeiros, Cabeleireiros e Ofícios Correlativos.

Brunos Césares

Ocuparam em conjunto o lugar do castigado Coentrão e dividiram entre eles a função de lateral-esquerdo. Um deles desenhou a primeira jogada ofensiva da equipa, com um passe a rasgar para a corrida de Doumbia, que por acaso ainda não estava em campo, e ao qual Dost não conseguiu chegar a tempo. Outro deles também foi responsável pelo primeiro remate da equipa. Substituídos na segunda parte, para irem formar o seu próprio sindicato.

William Carvalho

Tem uma capacidade única no actual plantel: consegue interpretar a liberdade criativa como um veículo para tomar sempre a decisão menos inesperada para toda a gente, mas, de uma forma qualquer difícil de explicar, mais inesperada para o jogo em si. É um processo dialéctico que permite à manobra colectiva atravessar o seu período saudável de disputa e argumento, e emergir do outro lado, numa nova quietude, racionalmente melhorada, num parágrafo que é capaz de arrancar um forte aplauso do Sindicato dos Produtores e Vendedores de Bebidas Alcóolicas.

Bruno Fernandes

Logo a abrir, podia ter sido o elemento intermédio num contra-ataque letal iniciado por Dost, mas o último passe saiu-lhe como lhe sai quase tudo: como se fosse um remate. Mais tarde tentou uma penetração central, tendo passado por dois jogadores do Tondela e fintado Montero para disparar ao lado. Alguns remates passaram mais perto, mas no geral teve mais boas ideias do que boas execuções (especialmente ao nível do passe). Mérito na maneira como conseguiu disfarçar o cansaço até ao fim.

Gelson Martins

Teve à frente um oponente temível (Joãozinho, o melhor lateral-esquerdo em toda a história das opiniões de Jesualdo Ferreira), mas não se deixou atemorizar e fez um jogo à sua altura, que parece ainda mais alta desde que regressou da paragem. Absolutamente intratável nas compensações defensivas, fez dobras, fez cortes, bloqueou um remate que levaria muito perigo, e nunca lhe faltou energia para continuar a chegar à frente, onde conseguiu desequilibrar sempre que teve bola no pé perto da área, numa consistência que poderia merecer fortes protestos do Sindicato de Fabricantes de Balanças.

Acuña

É um estilo de jogo muito peculiar, que envolve menos o uso público da Razão, e mais uma espécie de psicopatologia motora, desfazendo-se em lapsus pedis e metendo-se em sarilhos e emergências até encontrar uma maneira de dar significado às suas inadvertências técnicas. Tudo isto é um sintoma, e merece ser diagnosticado: Acuña é um homem que não pode ter tempo, nem espaço, e que precisa da ameaça constante da calamidade para explorar o seu génio. E veio parar ao Sporting! Há horas de sorte.

Montero

Sofreu a primeira falta do jogo, mas a partir daí pareceu sempre retraído nas bolas divididas. Com a bola no pé, foi simultaneamente lúcido, rigoroso e pouco acutilante. Saiu ao intervalo, numa acção que talvez não origine protestos oficiais da Embaixada Colombiana.

Bas Dost

Arrisco que fez os melhores 45 minutos da época, e talvez da carreira, na primeira parte. Cada toque na bola - sempre de primeira, a tabelar, a variar de flanco, até a devolver um passe com a nuca, de costas - criou automaticamente uma boa jogada, quase ex nihilo. Mereceu o golo que marcou e mereceu ainda mais ter oferecido a bola que resultou no golo da vitória, um golo marcado ao minuto que os sportinguistas bem entenderem, pois, enquanto criaturas autónomas e independentes, capazes de pensar pelas suas próprias cabeças, não precisam que qualquer autoridade externa ande de forma paternalista a tentar explicar-lhes que horas são.

Doumbia

Teve na cabeça a oportunidade de marcar, depois de solicitado na área por Acuña, mas atirou alguns centímetros por cima da barra, numa acção que merecerá fortes protestos do Sindicato dos Operadores do VAR Responsáveis por Invalidar Golos Limpos ao Doumbia.

Rúben Ribeiro

Cometeu algumas faltas desnecessárias e também ganhou algumas faltas que os adversários não precisavam nada de cometer. Parecem ser as suas duas grandes especialidades, além do inquestionável requinte complacente com que trata a bola, como alguém com grande orgulho pessoal na sua caligrafia.