Tribuna Expresso

Perfil

Rogério Casanova

Rogério Casanova tranquiliza os sportinguistas: a 9 de maio de 2005, Liedson também foi estupidamente expulso e falhou o jogo com o Benfica

Depois da vitória do Sporting sobre o Moreirense (1-0), Rogério Casanova está otimista. Mesmo que Gelson não jogue no Dragão: "Liedson pontapeou estupidamente uma bola para fora, vendo um cartão amarelo escusado que o afastou do jogo decisivo disputado cinco dias depois, na casa de um rival direto. Mas não houve crise: não jogou Liedson, jogou outro qualquer no seu lugar, de certeza que correu tudo bem". ( Spoiler: o Benfica venceu por 1-0 e acabou por ser campeão)

Rogério Casanova

Gelson marcou o único golo do Sporting frente ao Moreirense e tirou a camisola para mostrar uma mensagem para o ex-colega Rúben Semedo. Como já tinha amarelo, foi expulso e não vai jogar na sexta-feira contra o FC Porto

NurPhoto

Partilhar

Rui Patrício

Depois de uma sucessão de jogos em que o seu isolamento só foi quebrado por golos ou por atrasos solidários dos colegas, num esforço inglório de reinserção social, hoje teve oportunidade, ao minuto 56, para acrescentar mais uma estirada milagrosa ao YouTube de quinze minutos que a sua carreira vai merecer daqui a uns anos, quando chegar ao fim. Esperemos que tenha sido suficiente para lhe saciar a autoestima a curto prazo. Caso contrário, neste período de vitórias sofridas e épicos descontos, talvez seja uma questão de tempo até que o próprio Patrício se sinta obrigado a marcar um golo nos derradeiros segundos.

Battaglia

Adaptado por necessidade, devido às ausências forçadas de Piccini (3 milhões de euros) e Ristovski (2,25 milhões de euros), trouxe às funções de lateral-direito a sua mais óbvia qualificação para as mesmas: o facto de 80% do seu passe ter custado 4,2 milhões de euros, o que significa que a totalidade de Battaglia foi avaliada em 5,25 milhões de euros, a soma exacta das transferências dos dois colegas. Foi fácil fazer estas contas? Não, não foi. Foi um pouco mais difícil do que deveria ter sido, para alguém com a escolaridade obrigatória. Tal como "jogar futebol" é um pouco mais difícil para Battaglia do que deveria ser para alguém com a formação completa. Mas essa dificuldade não faz grande diferença. Battaglia, claramente, não precisa do talento que não tem para ir fazendo bons jogos. Precisamos nós muito mais dele para ir sobrevivendo.

Coates

Passou grande parte do seu primeiro jogo em Alvalade depois de ser ter tornado o melhor ponta-de-lança na história do clube a fazer oferendas aos Deuses. Enquanto noutros tempos sacrificaria uma virgem na caldeira de um vulcão, hoje optou por oferecer, com uma receção defeituosa e um instante de hesitação, a bola ao adversário (minuto 10), deixando-o correr para a baliza. Ofereceu também vários passes em profundidade aos peitos e cabeças de jogadores do Moreirense. Mas estas situações que puxam mais pelo coração que pela cabeça promovem-no às suas sete aflitivas quintas, e foi vê-lo lá na frente, nos últimos minutos, a participar com brio e entusiasmo no tudo ou nada.

André Pinto

Certinho a defender (privilegiando o alívio a qualquer espécie de solução mais arriscada), e uma boa oportunidade para marcar, pouco antes do intervalo, após centro de Ruiz ao qual não soube acrescentar pescoço suficiente. Enquanto defesa-central tem ainda outra característica interessante: chegou aos 28 anos sem nunca ter sequestrado um espanhol depois de o ameaçar com uma pistola e de o espancar com um taco de baseball.

Rúben Semedo

Alcochete terá formado jogadores mais talentosos, mais decisivos, mais carismáticos - mas nenhum outro com um raio de ação tão alargado no tempo e no espaço. Diz-se de alguns ex-jogadores, elogiosamente, que "continuam a sentir o clube". Neste caso, mesmo 264 dias depois de ser transferido e a 800 quilómetros de distância, é o clube que continua a senti-lo a ele.

Acuña

Continua a recuperar a melhor forma física depois daquele desolador interregno quando regressou da lesão. Hoje jogou a lateral, o que, traduzido em Acuña, significa apenas que foi uma besta intratável nos duelos corpo a corpo uns metros mais atrás. Ando há meses a tentar lembrar-me de que jogador Acuña me lembra e hoje finalmente ocorreu-me: Zinedine Zidane. Não, como é evidente, o Zidane das piruetas, dos toques aveludados, dos Mundiais ou das Bolas de Ouro, mas o Zidane que existiu apenas na breve fracção de segundos entre Materazzi ter insultado a sua irmã e ter levado com a cachola em cheio na apófise xifóide. Acuña, com bola ou sem bola, a médio ou a lateral, é uma versão concentrada dessa fracção de segundos: uma pilha de nervos com a honra ferida, decidindo instintivamente qual o melhor metro quadrado de realidade contra o qual espatifar o seu corpo. Belo jogo, em suma, na sua mais que provável futura posição.

Petrovic

Não deixou que a bola passasse muitas vezes por ele quando a equipa defendia. Coerente e fiel aos seus princípios, também não deixou que a bola passasse muitas vezes por ele quando a equipa atacava. E por cada dois úteis bloqueios, interceções ou passes curtos precisos, punha no outro prato da balança uma falta cometida por falta de agilidade ou uma entrega demasiado à queima. Acabou por ser expulso na segunda parte por ter derrubado telepaticamente um adversário obrigando-o a escorregar, uma infracção disciplinar prevista no Código de Hogwarts.

Bruno Fernandes

Foi o primeiro a criar mini-desequilíbrios, com aquelas súbitas rotações que mudam automaticamente o centro de gravidade da jogada. Foi o primeiro a rematar com perigo, por cima da barra, ao minuto 14. Foi o primeiro a chegar ao sítio certo numa transição defensiva, e a conseguir atrapalhar Bilel no lance do golo anulado. Foi o primeiro a festejar o golo da vitória, erguendo os braços para a bancada. Foi o primeiro a ralhar com Gelson, quando este despiu a camisola. Foi o primeiro a pedir aplausos para Doumbia, quando o público descompensou. Em noites assim não seria difícil convencerem-me de que também foi o primeiro a fundar o Sporting, antes de José Alvalade.

Gelson Martins

A 9 de maio de 2005, no segundo minuto de descontos de um jogo ganho por 1-0, Liedson pontapeou estupidamente uma bola para fora, vendo um cartão amarelo escusado que o afastou do jogo decisivo disputado cinco dias depois, na casa de um rival direto. Mas não houve crise: não jogou Liedson, jogou outro qualquer no seu lugar, de certeza que correu tudo bem.

Bryan Ruiz

Excelente recuperação defensiva ao minuto 14, um corte crucial de cabeça (à Piccini!) dentro da área ao minuto 23, que provavelmente evitou um golo do Moreirense, um passe de morte ao minuto 40 deixando Bruno Fernandes isolado frente ao guarda-redes, e o tal cruzamento milimétrico para André Pinto antes do intervalo. Quatro momentos de lucidez e competência que fizeram dele o melhor jogador da equipa na primeira parte, o que é excelente para ele, mas é ainda mais, e com todo o respeito, um bocado grave para todos os outros.

Montero

Uma assistência com a nuca, possivelmente inadvertida, que proporcionou um remate em zona frontal de Battaglia, e um carrinho em esforço que isolou Gelson na segunda parte. Não esteve mal com a bola no pé (raramente está, desde que seja devagar) e tentou procurar os espaços certos dentro e fora da área. Mas numa fase em que cada jogo se transforma numa Götterdämmerung, exigindo uma manobra ofensiva alimentada de fogachos e explosões individuais e não de ligações pacientes, aquele seu estilo de semi-anonimato vai sempre destoar, e parecer ainda mais amorfo do que já é.

Doumbia

Segundo o treinador, foi um dos afectados pela virose colectiva, e terá jogado ainda com uns resquícios de febre. Febre que não o impediu de mostrar grande discernimento ao minuto 22 (depois de furar sozinho pelo meio dos centrais), ao minuto 35 (depois de receber na pequena área em rotação), e já na segunda parte (quando foi desmarcado em profundidade por Acuña). Três momentos de jogo em que podia ter rematado à baliza. Mas para quê? Para lhe anularem mais três golos? Nessa armadilha Doumbia não volta a cair, ai pois não. E quem não perceber isto não merece um avançado com toda esta sabedoria.

Rafael Leão

A quádrupla habilidade na jogada do golo - (1) a recuperação em carrinho, (2) a mudança de direcção em velocidade, passando a bola por trás da perna de apoio, (3) o truque "físico" de obrigar o adversário que o tentou derrubar a fazer um mortal à rectaguarda, aproveitando o impacto para galgar mais uns metros em passada larga, (4) o passe a fazer a bola deslizar com o peso certo para o melhor alvo possível (o colega mais solto) - tudo isso foi quase um anti-clímax. O essencial já tinha sido alcançado alguns minutos antes. Figo, Simão, Quaresma, Ronaldo, Nani, cinco talentos ofensivos produzidos em Alcochete com os quais Rafael Leão pode, a partir de hoje, afirmar com orgulho ter algo em comum: também ele conseguiu ser assobiado em Alvalade antes sequer de ter dezanove anos. Dessa elite, pelo menos, já faz parte.

Misic

Transportou um pequeno oásis portátil de calma para o centro do terreno e ali ficou a fazer as coisas básicas - passar, receber, posicionar-se nos sítios certos, não complicar - proporcionando assim aos colegas a tranquilidade necessária para se dedicarem eles ao desespero.

Brunos Césares

Entraram já perto do fim, permitindo que a equipa jogasse os últimos trinta segundos em superioridade numérica.