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Rogério Casanova

Coentrão, aquilo que aconteceria se fosse possível sintetizar num laboratório um filme do Rocky dentro de um humano (por Rogério Casanova)

Um dos lados bons do jogo contra o "Viktoria Beckham" é que Fábio Coentrão não viu um cartão amarelo, ao contrário de Coates, castigo por tocar na bola com a parte da anatomia humana que a memória seletiva de Rogério Casanova denomina como "peito de Pedro Silva"

Rogério Casanova

Gualter Fatia/Getty

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Rui Patrício

Muito discreto na noite em que igualou Hilário no topo da lista de futebolistas com mais jogos oficiais pelo Sporting: pouco interventivo na manobra ofensiva da equipa, arriscou pouco no drible, no passe em profundidade, no remate de meia distância. Foi um jogador a menos, no fundo. Tem de rever a sua postura competitiva.

Ristovski

Procurou dar continuidade ao trabalho desenvolvido no Dragão, com uma exibição bastante exibida ao nível exibicional. Destacou-se acima de tudo pelo sarcasmo que imprimiu a cada uma das suas acções - o passe, o cruzamento, a cobertura do espaço - que assumiram muitas vezes a forma oposta à sua intenção. Na segunda parte, tirando dois lances em que deu demasiado tempo e espaço ao extremo adversário, teve um rendimento menos irónico.

Coates

Jogo defensivo quase perfeito, atento às dobras, às sobras e aos restos, implacável no desarme, e limpando tudo o que havia para limpar no jogo aéreo. Ao minuto 66 foi-lhe assinalada uma falta após dominar a bola com a parte extremamente ilegal da anatomia humana conhecida como "peito de Pedro Silva" e, numa reacção intempestiva, decidiu vingar-se em André Pinto, obrigando-o a viajar até à República Checa para ser titular na segunda mão.

Mathieu

Preocupação constante em praticar um futebol civilizado, não no sentido coloquial da palavra (distante, bem educado, acima do tumulto), mas no sentido que restaura a velha raiz etimológica, de alguém comprometido com um ideal colectivo e disposto a assumir a sua parte de responsabilidade pela manutenção do mesmo. Dito isto, pontos negativos para o lance nos descontos em que falhou o golo só com o guarda-redes pela frente. Não pelo falhanço em si (era o que faltava), mas por andar ali naquelas correrias, correndo o risco de fazer algum dói-dói, numa fase do jogo em que já devia estar sentado na relva a fumar um cigarrinho para descomprimir.

Fábio Coentrão

Coentrão é aquilo que aconteceria se fosse possível sintetizar num laboratório um filme inteiro do Rocky em forma de ser humano. O início titubeante, de alguém que parece meio preso de movimentos e com pouca pujança. Depois a montagem de treino ao som de rock dos anos 80, uma bola recuperada com o abdómen, uma corrida pelo campo inteiro, e um toque a assistir o primeiro golo - seguido de festejos aos berros. Depois, bem, depois são as pequenas coisas. Ao minuto 79 fez um sprint tão ameaçador na direcção de uma bola perdida que obrigou o lateral checo a ceder um lançamento lateral. Aos 83 foi fazer o mesmo ao outro corredor e ganhou um canto. Dois minutos depois fez o mesmo ao evidentemente escandalizado guarda-redes do Plzen. Saiu logo a seguir, para se poder preparar física, mental e espiritualmente para o maior desafio que teve de superar esta noite: conversar alguns minutos com Nuno Luz.

William Carvalho

Qual a situação do Romântico à deriva numa sociedade capitalista? Obrigado a enfrentar o mundo sem a intermediação do seu estatuto, o Génio Romântico sente-se constrangido pelas circunstâncias a prostituir o seu talento no mercado livre do jogo jogado, ao mesmo tempo que é forçado pelos imperativos do seu próprio génio a continuar a desafiar a complacência burguesa. É claro que, em momentos de fraqueza, procure o refúgio fácil do iconoclasmo: tenta rematar de longe, ensaia slaloms em drible dentro da própria área, etc. O cartão amarelo escusado que o impede de disputar a segunda mão foi uma forma de se auto-disciplinar. Não tentemos, como um dia pediu Norman Mailer, compreendê-lo demasiado depressa: ele está muito à nossa frente.

Bruno Fernandes

É cada vez mais difícil concordar com o ultrajante facto de ter custado apenas 9 milhões de euros. Seria da mais elementar justiça implementar um plano ético de compensações. Podia-se, por exemplo, expropriar o Colón de alguns milhões pagos a propósito da transferência de Alan Ruiz e redistribui-los para a Sampdoria, acompanhados de um ramo de flores, e de uma mensagem de agradecimento contendo corações desenhados a lápis de cera e a hashtag #Fair_Trade_Not_Free_Trade.

Gelson Martins

Com uma ou outra falha no momento de definição, foi ao longo da primeira parte o único jogador da equipa a conseguir criar desequilíbrios em velocidade. O problema (que não se notou hoje pela primeira vez, ou pela segunda, ou sequer pela décima) é que a sua diferença de velocidade de execução para os restantes é tão grande que os desequilíbrios criados acabam por se reflectir não só na organização adversária, mas também na da sua própria equipa, que nem sempre reage a tempo de se posicionar nos sítios mais correctos para aproveitar os mesmos. E depois, por falta de Gelsonsplaining, há dez jogadores a jogar futebol e um a jogar Gelsonbol. Mas ainda assim fez um bom jogo: é tão, tão bom que isso acontecerá quase sempre.

Marcos Acuña

Primeira parte de grande disponibilidade física, naquele seu estilo habitual cuja principal arma é o suspense: a atenção e a curiosidade, tanto do espectador como do adversário, estão tão focadas naquilo que vai acontecer a seguir que nunca submetem a um escrutínio crítico adequado aquilo que está a acontecer agora. Daí que os seus reflexos instintivos consigam tantas vezes ganhar micro-espaço nas alas, onde hoje acumulou uma sucessão de excelentes cruzamentos para Bas Dost, que por acaso não jogou. Os jogadores do Viktoria Beckham protestaram o lance do segundo golo, sugerindo que o mesmo começara com uma falta de Acuña. Nestas situações, o mais importante é não violar o segredo de justiça, pelo que optei por não ver uma repetição para confirmar.

Bryan Ruiz

Vai no terceiro ou quarto jogo consecutivo onde se sucedem indicações de estar a recuperar alguma mobilidade e imprevisibilidade que, acrescentadas à lucidez qualidade técnica (que nunca deixaram de estar presentes), lhe vão permitindo fazer imitações bastante razoáveis do jogador que já foi. Hoje foi tão imprevisível que a sua primeira grande intervenção no jogo, ao minuto 18, apanhou até as câmaras de surpresa, não sendo filmada. De resto, foi crucial no primeiro golo, e até podia ter somado uma assistência, caso Bruno Fernandes tivesse a pontaria mais afinada.

Fredy Montero

Início de jogo pouco promissor (bloqueou um remate de Acuña e respondeu a um bom cruzamento de Bruno Fernandes autorizando a bola a bater-lhe na testa), mas foi ganhando confiança, e acumulou uma série de toques artísticos e eficazes - às tantas, até uma bicicleta tentou. De elogiar a excelente decisão no lance do 2-0, ao optar por não endossar a bola a Bruno Fernandes. Já vamos em 15 ou 20 jogadas esta época em que variadíssimos jogadores são (justamente) criticados por não arriscarem o remate dentro da área, preferindo procurar um colega solto. Já era altura de alguém dizer basta: os portugueses estão fartos de demagogia.

Battaglia

Voltou a não ter uma entrada feliz como suplente, e a falta de capacidade de arriscar com a bola no pé torna-o cada vez mais num elemento a menos em situações de gestão de resultado (ao invés de situações de barafunda, nas quais está sempre nas suas sete quintas).

Rúben Ribeiro

Excelente passe em profundidade para Mathieu num contra-ataque, obrigando-o a correr desenfreadamente ao minuto 91. É, em suma, um irresponsável.

Bruno César

Votos sinceros de um Feliz Dia Internacional da Mulher, tanto às dezenas de Brunos Césares como a todas as suas respectivas esposas.