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Rogério Casanova

O que Battaglia faz não é exactamente carregar o piano, diz Rogério Casanova. O que ele faz é escavacar o piano ao pontapé

A ideia era escrevermos aqui parte da prova que Rogério Casanova idealizou para Bryan Ruiz e sua respetiva exibição em Plzen, tão inspiradas como as dedicadas a Battaglia, mas não queremos spoilar. Destapamos apenas que misturou escadotes, gatos pretos e um quilo de sal no caminho do costa-riquenho do Sporting

Rogério Casanova

MICHAL CIZEK

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Rui Patrício

Uma semana em que esteve no centro de uma empolgante discussão contabilística sobre recordes, que Patrício deve ter encarado com o distanciamento próprio de quem sabe quão irrelevantes são critérios como o total de "jogos oficiais" para aferir a experiência temporal de jogar no Sporting, em que milénios inteiros podem ser vividos em apenas 120 minutos. Tem apenas 30 anos, Patrício, mas já é mais velho que Hilário, mais velho que Damas, mais velho que Matusalém; aqueles olhos de obsidiana já viram o declínio e queda de civilizações, já viram naves de guerra em chamas na constelação de Orion, já viram o espaço vazio entre as estrelas, mas mantêm-se abertos, atentos, ternos, disponíveis.

Battaglia

Há jogadores que são solistas, há jogadores que são maestros, há outros que são carregadores de piano. Poder-se-ia julgar que Battaglia pertence a esta terceira categoria, mas não é verdade. O que Battaglia faz não é exactamente carregar o piano, o que ele faz é escavacar o piano ao pontapé perante o olhar incrédulo do afinador, depois reunir os cacos do instrumento nos seus braços peludos, correr semi-nu na direcção do palco, e explicar a toda a plateia que não há piano nenhum, que a gente não precisa de piano, que o piano é só uma de entre muitas maneiras de fazer barulho e que se é barulho que a gente quer ele vai dar-nos o barulho que a gente quer, aos gritos.

André Pinto

Uma exibição daquelas que leva Bob Geldof a organizar um concerto de solidariedade e André Gomes a pegar imediatamente na guitarra acústica.

Mathieu

Começou o jogo dando todas as indicações de confiar numa noite descansada, um sinal de tranquilidade algo preocupante de que ainda não se encontra devidamente familiarizado com a história da instituição que representa. Com o passar dos minutos lá se foi apercebendo da largura, comprimento e profundidade do abismo, e procedeu aos reajustamentos necessários, conseguindo até imprimir um ligeiro desespero eficaz a algumas das suas acções defensivas.

Fábio Coentrão

Uma primeira parte horrenda, uma segunda parte assim-assim, um prolongamento fresquinho, de quem parecia ter chegado agora ao ginásio. A relação do seu estilo de jogo (parâmetro que inclui também a sua indecifrável condição física) com o resto da equipa e com o jogo em si é muito pouco "jornalística", no sentido que não procura transmitir a informação mais pertinente da forma mais rápida e eficiente possível; pertence quase à esfera da narração criativa, em que parte da intenção é manipular as ansiedades de quem vê de forma a proporcionar recompensas emocionais tardias. Mais do que um grande lateral-esquerdo, Coentrão é um exemplar contador de histórias.

Petrovic

Muita competência na maneira como entrou em campo quatro minutos antes do apito inicial e também na maneira como saiu, ao minuto 66, perfazendo um total de 70 minutos em que o seu corpo esteve situado no interior das quatro linhas. Ganhou algumas disputas aéreas, fazendo uso da sua reconhecida capacidade para acertar com a cabeça em cheio na bola, quando a mesma se desloca através do ar na sua direcção.

Bruno Fernandes

Tentou fazer o papel de William, não em termos estritamente posicionais, mas no sentido em que foi dos poucos jogadores da equipa a não se importar de reter a bola o tempo suficiente até uma linha de passe se materializar, algo que aconteceu tão poucas vezes que Bruno Fernandes decidiu falhar os respectivos passes, em sinal de protesto. O seu melhor período no jogo acabou por ser a segunda parte do prolongamento, em que soube segurar e aguentar - tanto a bola como todo o meu sistema cardiovascular.

Gelson Martins

Excelente na forma como soube promover e exponenciar a sua inconsequência e desinspiração até estas atingirem um nível muito mais elevado do que a mera soma das partes, pois apercebeu-se que o amor que lhe sinto é suficientemente vasto para assumir a responsabilidade de o exaltar até em noites assim, ou, por outra palavras, não me chateiem os cornos.

Acuña

Insuficientemente cansado para jogar ao seu nível, não deu apoio defensivo, não ganhou um único duelo individual na primeira parte, e demorou quase meia-hora a conseguir completar a sua primeira acção no ataque, que consistiu, para surpresa de todos, em ir à linha e cruzar. Parece cada vez mais um perplexo refém de circunstâncias atléticas que é obrigado a traduzir de improviso para o fenómeno desportivo correcto, como se o seu corpo julgasse estar no meio de um jogo de hóquei no gelo, e cada espasmo tivesse de ser descodificado por retro-engenharia.

Bryan Ruiz

Como teria sido a carreira de Bryan Ruiz, caso não tivesse integrado a equipa que profanou o túmulo de Tutankamon em 1922, na mesma tarde em que passou por baixo de um escadote, se cruzou com sete gatos pretos, partiu quinze espelhos e entornou um quilo de sal ao almoço? Nunca saberemos. Mas não jogou mal, hoje, opinião com que até o seu futuro exorcista concordará.

Bas Dost

São sempre estes, aqueles que parece que não partem um prato, os que acabam por se revelar mais malévolos. Ao minuto 38, com um toque de refinada crueldade, praticamente obrigou Bryan Ruiz a rematar à baliza nas piores condições possíveis: a cinco metros da mesma e só com o guarda-redes à sua frente. Como se isso não fosse suficiente, voltou a assisti-lo na segunda parte, para novo remate. Mas os Deuses do futebol estavam atentos, e castigaram-no com um penálti falhado. Que lhe sirva de lição, e que nunca mais volte a repetir a gracinha de descobrir Bryan Ruiz isolado e passar-lhe a bola.

Piccini

Entrada a frio, parecendo algo preso de movimentos, como uma determinada quantia de dinheiro que tivesse passado demasiado tempo a estagnar numa conta-poupança com juros extremamente baixos. Foi só ao décimo quinto minuto do prolongamento que recuperou a capacidade de investimento, comprando sozinho o canto que deu origem ao golo de Battaglia.

Fredy Montero

Um jogo perfeito para fazer uso da sua absoluta imunidade a estados emocionais: entrou em campo como se não fizesse a menor ideia de como a equipa estava a jogar, das dificuldades que ia encontrar, ou sequer de qual era o resultado acumulado da eliminatória. Móvel, lúcido, bem a segurar a bola, foi ainda, por larga margem, o jogador mais combativo e pressionante do Sporting, uma frase tão improvável que eu próprio ainda não acredito que a acabei de escrever.

Rúben Ribeiro

Mais um jogo extremamente Rúben Ribeiro por parte de Rúben Ribeiro, que, tal como Montero, não sabe nem quer saber o que é que se passou até ali, nem em que ponto estão as coisas. Tivesse entrado com o resultado em 5-1 ou 0-4 e jogaria exactamente da mesma maneira.