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Rogério Casanova

Rogério Casanova viu Coentrão sair do jogo após sentir um inesperado espasmo de vida no seu corpo secretamente embalsamado desde 2011

Depois de assistir à fria vingança de Gelson Martins com aquela finta a Marcão, marcando depois o primeiro golo do Sporting frente ao Rio Ave, Rogério Casanova tem a certeza que, onde quer que esteja, Rúben Semedo despiu a parte superior do seu uniforme prisional em sentida homenagem ao seu amigo

Rogério Casanova

Gualter Fatia/Getty

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Rui Patrício

“No man is an Island” escreveu John Donne, com a precipitação que o caracteriza, antes sequer de ter oportunidade para assistir a um típico jogo de Rui Patrício na Liga portuguesa. Zero trabalho, zero preocupação, excepto, como seria de esperar, a grande defesa da praxe ao minuto 37, a um remate que ressaltou equivocadamente na perna de Mathieu, alterou a trajectória, e só não lhe permitiu sofrer um golo no qual não teria quaisquer culpas, porque até esses Patrício começou a rejeitar de vez em quando.

Piccini

Bela exibição no regresso à titularidade, insuperável nos duelos defensivos, arriscando o transporte de bola para esticar o jogo em momentos criteriosamente escolhidos, e tendo até intermediado de forma exemplar a combinação entre Bruno Fernandes e o apanha-bolas que deu origem ao primeiro golo. Mas o seu melhor momento foi mesmo o providencial atraso de cabeça para Patrício ao minuto 35, permitindo ao guarda-redes aquecer e recuperar níveis de concentração para a dificílima defesa que teve de fazer um minuto e meio depois. Não só é um grandessíssimo lateral-direito, Piccini: também prevê o futuro.

Coates

Sólido e intransponível no seu centésimo jogo oficial pelo Sporting. Outro dado estatístico curioso: leva sete golos marcados, os mesmos que o seu compatriota Carlos Bueno acumulou ao serviço do clube. Coates tem o mesmo número de golos que Carlos Bueno. Um facto transtornante, que talvez ajude a explicar aquela ânsia em subir até ao ataque nos últimos minutos das partidas.

Mathieu

Ao minuto 32, depois de uma extraordinária recuperação de bola a meio-campo, desarmando um adversário por trás, viu o árbitro marcar-lhe uma falta, situação à qual reagiu compondo a expressão facial mais francesa que lhe vimos desde que chegou ao clube: não foi a cara do protesto automático, ou da indignação teatral, mas a cara de alguém que procedeu a uma exaustiva investigação filosófica da Verdade, concluiu que a mesma era incompatível com a opinião do seu interlocutor, e reagiu explicando simultaneamente que “Bof!” “Zut!” e que a existência precede a essência.

Fábio Coentrão

Bastou-lhe um prolongamentozinho para recuperar a melhor forma. Enorme disponibilidade física, andou numa constante procissão de incursões ofensivas que lhe permitiram procurar várias vezes a cabeça de Dost, além de rematar ao poste e centrar à barra (uma forma muito original de aproveitar uma das grandes armas históricas do clube: o cruzamento defeituoso). Depois de ver amarelo na segunda parte, hesitou em procurar o contacto físico e sentiu algumas dificuldades com Nasdaq, que de facto tem estado em alta. Saiu a cinco minutos do fim, depois de sentir um inesperado espasmo de vida no seu corpo secretamente embalsamado desde 2011.

William Carvalho

Já atingiu um tal patamar de abstracção na maneira como pensa e pratica a modalidade que tem a honra de o acolher que se tornou vulnerável ao tipo de acusações de que são alvo quaisquer expressões artísticas não-figurativas. Não que William se incomode com esse filistinismo, pois continua a inscrever a sua Arte não na analogia da mera reprodução, mas na regularidade improvisada das formas. Se o que faz tem por vezes um aspecto fortuito, é apenas porque qualquer Arte é, na sua essência, uma conquista do acaso. Tal como, de resto, a escolha de vestuário.

Battaglia

A sua incapacidade intelectual para perceber onde e quando uma jogada termina (frequentemente devido às armadilhas preparadas pelas suas próprias limitações) leva-o a patinar na perdição, como uma personagem de banda desenhada que continua a dar às pernas, dois passos para lá do abismo. Tal como as personagens de banda desenhada, no entanto, tem o condão de se safar muitas vezes dessas situações, e de poder voltar atrás com nova oportunidade de, como o Papa-Léguas, se safar a novos produtos infalíveis da Acme Corporation. Não fez propriamente um jogo de encher o campo, mas o certo é que o mesmo pareceu muito mais vazio depois da sua substituição.

Gelson Martins

Logo a abrir, levou com um calcâneo em cheio no cubóide, algo que sinceramente não acontece todos os dias. Reagiu como reagiria qualquer cidadão: identificando o infractor (Marcão), procurando-o alguns minutos mais tarde, com a ocorrência já aparentemente esquecida, e submetendo-o a uma finta que cumpriu o duplo propósito de o estatelar no meio do relvado e permitir a Gelson marcar o golo precisamente com o pé agredido. De certeza que, onde quer que esteja, ao presenciar esta fria vingança, Rúben Semedo despiu a parte superior do seu uniforme prisional em sentida homenagem.

Bruno Fernandes

Atirou um livre directo à barra ao minuto 20. Aos 68, só com o guarda-redes pela frente rematou ao poste. Pelo meio, forçou uma grande defesa de Cássio, depois de girar sobre o próprio eixo e largar uma bomba de fora da área. Não é que a sua (boa) exibição se esgote nestes momentos mais espectaculares: menciono-os apenas porque já se percebeu, pelas reacções de exorbitante frustração aos golos não concretizados, que Bruno Fernandes está a passar outra vez por uma daquelas fases em que, se a bola não entra rapidamente na baliza, corre o risco de assassinar à pancada o primeiro transeunte inocente que lhe dirija uma palavra sobre o assunto.

Rúben Ribeiro

A Terra rodopia sobre o próprio eixo a meio quilómetro por segundo. E orbita o Sol a trinta quilómetros por segundo. A Via Láctea vai viajando para outras paragens a trezentos quilómetros por segundo. Não há nada no Universo, em suma, que saiba as virtudes de estar quietinho e sossegado. No meio de todos estes excessos de velocidade cósmica, é um conforto observar alguém com a paciência necessária para replicar os mesmos macro-movimentos celestes – rotação, translação – a uma velocidade muito mais consentânea com escalas reduzidas, e imensa qualidade técnica.

Bas Dost

Mais do que a assistência perfeita para Gelson no 1-0, ou do que o golo de cabeça a descansar a equipa nos últimos minutos (ou de mais não sei quantos recordes batidos) é isto que importa reter: ao minuto 13, isolado na área após um passe transviado, Dost rematou fraco e à figura de Cássio. Foi uma forma invulgar mas bonita de dignificar o nome de Peyroteo que, tendo em conta o número de épocas que jogou, também deve ter falhado uma carrada de golos fáceis ao longo da sua carreira.

Acuña

Entrou e, na primeira e única ocasião em que conseguiu ganhar as costas à defesa do Rio Ave, tratou logo de catapultar um cruzamento largo para as mãos de Cássio, impedindo assim que mais algum colega seu sofresse a experiência traumática de rematar ao poste ou à barra. É nestes momentos que se vê a solidariedade de um homem.

Bryan Ruiz

Brilhante acção defensiva ao minuto 84, com o resultado ainda em 1-0, cortando uma bola de perigo na área, evitando um possível golo do Rio Ave – e provando assim mais uma vez o seu inestimável talento para evitar que bolas entrem em balizas.

Wendel

Estreou-se hoje a ouvir aplausos da bancada, mas não deve desmoralizar por causa disso. Resta-lhe levantar e cabeça e mostrar trabalho e qualidade suficientes para que um dia possa também ouvir os assobios de impaciência tradicionalmente dedicados aos jogadores mais promissores.

  • Não temas a depressão de domingo à noite

    Sporting

    Jorge Jesus preferia jogar na segunda-feira, mas o Sporting soube tornar a receção ao Rio Ave num tranquilo serão de domingo. Vitória por 2-0, com golos de Gelson Martins e Bas Dost, e quatro bolas aos ferros, num encontro que esteve quase sempre controlado pelos leões