Tribuna Expresso

Perfil

Rogério Casanova

O futebol vagamente jurássico de Bryan e a essência platónica da irritação provocada por Coentrão (por Rogério Casanova)

Rogério Casanova escreve sobre o seu Sporting após a derrota em Braga, que deixou os leões ainda mais longe do título

Rogério Casanova

JOSE COELHO/LUSA

Partilhar

Rui Patrício

Fernando Torres foi campeão europeu e mundial sem nunca ganhar um único campeonato em qualquer das Ligas em que jogou. Cabe ao Engenheiro Fernando Santos permitir a Rui Patrício aproximar-se deste magnífico recorde. As probabilidades de Portugal ganhar o Mundial na Rússia são reduzidas? São, mas existem. Quanto ao resto, as coisas estão extremamente bem encaminhadas.

Piccini

Jogo discreto, pontuado por uma única grande incursão ofensiva, no início da segunda parte, em que galgou vários metros em posse mas, no momento crucial, optou por servir Acuña. Ou seja, decidiu que era boa ideia que aquela jogada promissora terminasse num cruzamento cego e automático. Sentindo que tinha agido mal, decidiu pouco depois auto-disciplinar-se com uma falta para cartão amarelo. O segundo já terá sido um excesso de auto-crítica, mas os italianos são muito exigentes nestas questões de honra.

Coates

Excepcional jogo defensivo, sempre no sítio certo para cortes, intercepções ou desarmes, alguns deles (o melhor dos quais ao minuto 60) naquele estilo popularizado no clube por Marco Aurélio: deixando-se ultrapassar para executar o roubo de bola por trás, num movimento de quebra-noz. Tendo sido dos melhores jogadores da equipa, e feito uma exibição quase sem mácula, era óbvio que estaria no sítio certo para ficar associado ao golo da derrota. Ainda tentou provocar o 2-0 com uma perda de bola no meio-campo, mas não resultou.

Mathieu

Descobriu hoje que tem um talento para o azar burlesco, e nunca se deve desperdiçar um talento, por menos útil que seja. Ao minuto 28 desentendeu-se com Rui Patrício e quase permitiu o golo da praxe a esse spoiler ambulante em jogos contra o Sporting chamado Wilson Eduardo. Depois viu um remate de Ricardo Horta ressaltar perigosamente na sua cabeça. Ao consumar o hat-trick de azares lá conseguiu finalmente enfiar atabalhoadamente a bola na baliza, num lance que viria a ser invalidado pela equipa de arbitragem, que considerou ter havido demasiado Sporting em toda a situação.

Fábio Coentrão

Uma raça e uma entrega totais à tarefa a que decidiu dedicar esta tardia Renascença de carreira: irritar o máximo número possível de pessoas dentro e fora de campo. Fá-lo com uma eficácia tão descontraída e natural que essa capacidade se torna menos uma vulgar excentricidade e mais um atribudo episódico de uma substância eterna. Reconhecer no que Coentrão faz a faculdade de “irritar” é no fundo reconhecer uma essência platónica de “Irritação”, sujeita a variações locais, mas mantendo um âmago de propriedades imutáveis. Não é uma perturbação da ordem, mas sim uma segurança, que nos deixa a todos mais descansados. (Excepto, suponho, os que se irritam, que parecem ser imensos).

Battaglia

Arriscou o primeiro passe a mais de três metros ao minuto 17, tentando variar o flanco para Piccini: a bola saiu pela linha lateral. Ao minuto 31 elevou-se de forma surpreendente e conseguiu ganhar uma bola aérea ao adversário que a disputava: o adversário era Mathieu. Lá vai exibindo os rudimentos de uma arte folclórica, que procura, com todos os defeitos inerentes ao kitsch, ao excesso e ao sentimentalismo, a síntese possível entre o pessoal e o colectivo, entre a magia pré-histórica e a realidade capitalista, entre a forma esférica e o par de tábuas que tem ao fundo das pernas.

Bryan Ruiz

Bem a receber, parar e micro-acelerar; ganhou algumas faltas assim. Por uma ou outra vez foram as suas calmas paragens de peito no meio-campo que abreviaram períodos de confusão. Tentou organizar as coisas, com a lucidez possível. E no entanto, há em tudo o que faz – bem, mal ou assim-assim – algo vagamente jurássico, como se tudo aquilo fosse uma relíquia de algo que já não devia existir a não ser em parques de diversões e condições controladas.

Gelson Martins

Em cima do intervalo tornou-se o primeiro futebolista profissional a sofrer uma lesão no interstício, após entrada duríssima de um jogador do Braga. Foi uma falta tão bem sofrida que o mais surpreendente não foi o VAR – sempre atento às mais recentes descoberta da ciência médica – a ter detectado, mas sim Gelson não ter celebrado a mesma despindo a camisola para homenagear um cientista qualquer.

Bruno Fernandes

Rodeado por tanta gente que faz questão de exibir um estilo de jogo futebolisticamente correcto (acossados por múltiplas razões para não tomarem os riscos que o instinto sussurra, e encarando o estabelecer de qualquer hierarquia de talento ou velocidade como um inaceitável acto hostil), Bruno Fernandes destoa, e destoa tanto pela positiva como pela negativa, dependendo do resultado prático de todos os riscos que corre, muitas vezes sozinho. Perdeu várias bolas assim, e (ao contrário do que costuma acontecer) perdeu discernimento nos últimos minutos. Mas também lhe pertenceram a maioria dos momentos de qualidade, quase sempre sinónimos de fazer algo ligeiramente diferente do que toda a gente estava à espera.

Acuña

Roy Hodgson disse um dia que Futre conseguia fintar dez defesas italianos numa cabine telefónica mas depois não encontrar a porta de saída. Acuña provavelmente não seria capaz de fintar um único defesa italiano numa cabine telefónica, ou sequer um hamster italiano numa central de telecomunicações. Mas a porta da saída, essa Acuña sabe sempre onde fica: lá ao fundo, lá ao longe, no ponto terminal das suas centenas de cruzamentos.

Bas Dost

Insistem em tratá-lo como o herói de um mito grego: o que tem de ingressar num labirinto, derrotar o monstro, recuperar o amuleto e salvar a aldeia. Mas a verdade é que Dost é apenas um corta-fitas: está lá para inaugurar o monumento, depois de o trabalho estar todo feito; e cortar fitas é algo que, honra lhe seja feita, faz melhor do que muitos. A culpa da sua periódica inoperância num certo tipo de jogos não será sua, mas de um modelo de jogo que olha para o Almirante Américo Tomás e lhe pede que vá sozinho matar a Hidra e limpar os Estábulos de Áugias.

Rúben Ribeiro

Esta frase começou agora e tem uma ideia a desenvolver, mas entretanto mudou de ideias e afinal vai acabar já a seguir, neste ponto final.

Montero

Fez o passe demasiado curto que levou Piccini a ver o segundo amarelo, cometeu a falta que deu origem ao 1-0, e na única semi-oportunidade que teve na área, já nos descontos, perdeu tempo de remate: pode dizer-se que encontrou uma maneira original de manter a tradição para ser decisivo nos jogos com o Braga.

Wendel

Deve finalmente ter percebido, ao entrar ao minuto 90 para substituir um colega que já tinha substituido outro colega ao minuto 60, que o futebol português tem de facto um nível estratosférico de complexidade táctica e estratégica