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Rogério Casanova

Coates, André Pinto e o nimbostratus cinzento que flutua permanentemente por cima da cabeça de André Pinto (por Rogério Casanova)

Hoje temos imagens e recados. “Bas Dost sorri menos? Claro que sorri menos, eu não sorrio desde maio de 2005, diz Rogério Casanova sobre a aculturação do holandês

Rogério Casanova

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Rui Patrício

Abriu as hostilidades com uma bofetada de luva branca, deixando tudo bem encaminhado para que todos os jornalistas desportivos do país começassem a ponderar maneiras de usar a frase “BOFETADA DE LUVA BRANCA” em títulos sobre o jogo. Mas entretanto aconteceram demasiadas coisas para isso fazer sentido. Os meus parabéns, portanto, a todas as coisas que aconteceram: foram elas as verdadeiras heroínas da noite.

Mr. Stovski

Depois da pujante exibição de Dr. Risto frente ao Atlético Madrid, foi uma surpresa vê-lo hoje ausente do onze titular, e ninguém ficou mais surpreendido do que o seu substituto, Mr. Stovski, que nunca assimilou devidamente a noção de que havia onze indivíduos em campo com intenções contrárias às suas e cujos planos era necessário contrariar.

Coates, André Pinto e o nimbostratus cinzento que flutua permanentemente por cima da cabeça de André Pinto

O trio de defesas-centrais constituído por Coates, André Pinto e o nimboestratus que flutua permanentemente por cima da cabeça de André Pinto participou num fenómeno raro, que foi possível observar várias vezes ao longo da partida (em especial na primeira parte): sempre que a bola era bombeada para Yazalde, os três apartavam-se de forma nervosamente espontânea, como costuma fazer o trânsito urbano à passagem de uma ambulância ou de uma caravana do Chefe de Estado. Dos três, Coates foi tendo altos e baixos. Só André Pinto e o nimboestratus que flutua permanentemente por cima da cabeça de André Pinto procuraram manter uma postura coerente do princípio ao fim: ao minuto 86 ainda era possível vê-los a tentar interceptar cruzamentos dentro da área, e falhar.

Fábio Coentrão

Regresso à titularidade após uma semana desgastante em que regressou de Madrid, foi dispensado e reenviado para Madrid, foi reintegrado e obrigado a regressar outra vez de Madrid, enviou SMS, recebeu SMS, liderou uma revolução, foi vítima de opressão, visitou um casino, etc. Não admira que tenha sido substituído ao intervalo, para ir dormir a sua primeira sesta desde o fim-de-semana de Páscoa.

Battaglia

Neste espaço, como efeito imediato e até ao fim da época, vai deixar de se avaliar Rodrigo Battaglia segundo qualquer critério (objectivo ou subjectivo) aplicável aos restantes elementos do plantel ou até a qualquer outro futebolista no activo. As coisas que Battaglia faz em campo, e o próprio facto de ele existir para as fazer, são demasiado adoráveis e amorosas para as estragarmos com adjectivos tão grosseiros como “boas” ou “más”.

Gelson Martins

Seria fácil apontar várias falhas a Gelson, acumuladas ao longo de um jogo em que foi mais uma vez decisivo. Apontar falhas a Gelson em jogos nos quais acaba por ser decisivo tornou-se um ritual recursivo, bizantino, que já ninguém se lembra muito bem como e quando começou, ou que propósito é suposto servir, mas que se vai perpetuando em nome da tradição. Está na altura, portanto, de tentar algo diferente, e fazer o mesmo, por exemplo, com Bruno Fernandes.

Bruno Fernandes

Alguns bons pormenores na primeira parte, mas a segunda foi muito fraca, com várias execuções erradas quando tentou definir ao primeiro toque, algumas bolas perdidas por excesso de temporização, e pouco influente no ataque. Conseguiu não falhar a grande penalidade, permitindo assim que a equipa continue a depender apenas de si própria para ser eliminada tragicamente no playoff de acesso à Liga dos Campeões. Terá de mostrar muito mais para justificar que merece lugar no plantel da próxima época.

Bryan Ruiz

Mais um bom jogo (enquanto ocupou zonas centrais) fazendo parecer a lentidão de processos uma arte ruminativa e não uma consequência de limitações biomecânicas. E não será essa aparente lentidão, agora que falamos nisso, uma revolta filosófica contra a lógica económica do capitalismo, contra o imperativo tácito que nos governa desde o séc. XVIII, separando progressivamente a humanidade dos morosos processos naturais que nos rodeiam e que agora encaramos com impaciência? Talvez a lentidão de Ruiz seja na verdade uma velocidade disfarçada que, ao não admitir distrações, procura assimilar todas as variáveis ao mesmo tempo e assim produzir um tempo vertical e instantâneo, que lhe permita cobrar faltas com estonteante rapidez sem que ninguém o chateie, como fez no lance do segundo golo.

Acuña

Correu pela internet nos últimos dias um vídeo absolutamente vergonhoso filmado no túnel de acesso ao relvado, antes do jogo com o Atlético, em que se pode ver Acuña a despir o casaco para aconchegar uma mascote friorenta, antes da entrada em campo. Como é que um profissional de futebol pode ter um gesto tão descompensado? Um gesto que, ao expô-lo a uma súbita diferença de temperatura, pode ter colocado em risco a sua condição física e, por extensão, as aspirações competitivas da equipa? Valeu a pena tudo aquilo, apenas para salvar uma qualquer criança supérflua de contrair pneumonia? Ainda para mais quando as mascotes de Alvalade são especificamente treinadas para enfrentar as condições mais agrestes, e sabem muito bem ao que vão quando se alistam: todas sobem ao relvado preparadas para morrer a qualquer momento, seja de frio, calor, sede ou fome, atingidas no crânio com remates de Bruno Fernandes, ou fuziladas por ordem da Direcção. Onde é que eu ia? Exacto: jogo razoável de Acuña, que marcou um golo e cometeu um penalty, ou seja, isso mesmo.

Bas Dost

Uma noite em cheio para a sub-disciplina da Psicologia conhecida como “Análise de Estados de Espírito de Futebolistas a Partir das Expressões Faciais Descontextualizadas Que Vão Sendo Apanhadas Fugazmente Pelas Câmaras de Televisão Cinco ou Seis Vezes Ao Longo Dos Noventa Minutos”. De acordo com alguns peritos consultados, Dost anda a sorrir menos do que é habitual. Que conclusões retirar deste fenómeno? É inteiramente possível que seja apenas uma consequência da sua aculturação completa ao clube que representa. Claro que Dost sorri menos. O que raio é que havia de fazer? Sorrir mais? Eu não sorrio desde maio de 2005. Conheço pessoalmente sportinguistas que não esboçam um sorriso há mais de quarenta anos. Mas queriam o quê? Não basta tudo o que nos acontece ainda era suposto aturarmos futebolistas sorridentes? Era o que faltava. Muito bem, Bas Dost. Que continue a marcar golos melancólicos e a brindar-nos com aquelas esplêndidas trombas.

Wendel

Um jogo seguro, sem comprometer, mais preocupado em certificar-se de que não aconteciam coisas más ao Sporting, e com um ou outro sinal deixando a esperança de que pode duplicar o seu rendimento quando (devidamente fortalecido pela aprendizagem de mandarim e cantonês) for autorizado a fazer com que aconteçam coisas más ao adversário.

Lumor e Petrovic

A partir do momento em que entraram em campo a equipa deixou de sofrer golos. São estes os factos sobre Lumor e Petrovic.