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Rogério Casanova

Um soneto para Battaglia: “Já vi trincos brancos, rubros, cor-de-rosa; a cor deste é verde, curto bué contemplá-la” (por Rogério Casanova)

Rogério Casanova dedicou um poema ao médio argentino, o jogador que corre "à doida" e que nem "sempre está na melhor posição", mas que sempre que é preciso, manda "um gajo ao chão"

Rogério Casanova

Pedro Fiuza

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Rui Patrício

Começou o jogo com um handicap ominoso, na medida em que Marega, o único futebolista do Porto garantidamente incapaz de lhe voltar a marcar golos na vida inteira, não fazia parte do onze inicial (com todos os outros, nunca se sabe à partida). A verdade é que teve pouquíssimo trabalho, limitando-se a supervisionar atentamente a trajectória de algumas bolas inofensivas, encaminhando-as na direcção da barra, se necessário algumas vezes seguidas, ou então do poste, como optou por fazer, e muito bem, no penálti de Marcano.

Piccini

Reencontrou Brahimi, o cidadão que aconchegara na sua algibeira no saudoso encontro da Taça da Liga que abriu caminho para a equipa se sagrar Campeã de Inverno. Hoje, com aquela generosidade destemperada que por vezes o assalta, decidiu dar-lhe alguma autonomia, da qual Brahimi, com repugnante falta de educação, tratou logo de abusar, ultrapassando-em velocidade no primeiro lance de um para um. (Piccini vingou-se fazendo-lhe o mesmo alguns minutos depois). Muito faltoso na primeira parte, e com uma perda de bola perigosa ao minuto 18, não se pode dizer que tenha feito, como tantas vezes esta época, chacota de todos os princípios básicos da economia de mercado.

Coates

No dia em que se cumpriu o décimo primeiro aniversário do célebre golo de Messi ao Getafe que pareceu uma réplica perfeita do célebre golo de Maradona à Inglaterra, Coates decidiu marcar um célebre golo ao Porto que pareceu uma réplica imperfeita do célebre golo ao Tondela. Uma coincidência arrepiante, como decerto todos concordarão. A bola bateu no poste direito e entrou. O penálti de Marcano, curiosamente, bateu no mesmo poste e não entrou. O que prova uma coisa, pelo menos: no futebol profissional não há estratégia de comunicação mais eficaz, nem gestão de recursos humanos mais inspirada, do que a nossa bola bater no poste e ir lá para dentro e a boladeles bater no poste e voltar para trás. Há que continuar a apostar nisto sempre que houver uma crise para ultrapassar.

Mathieu

Ao minuto 20, numa altura em que a pressão alta do Porto obrigava o Sporting a uma saída de bola sinistramente andebolizada e cada vez mais nervosa, Mathieu fez um passe vertical de 15 metros que trespassou o nevoeiro e esclareceu todo aquele imbróglio. E esclarecer imbróglios é cada vez mais uma das tarefas de Mathieu: talvez tenha julgado vir gozar uma reforma pacífica para o litoral europeu, mas aqui anda ele hoje, a acumular as funções de defesa-central com as de sacerdote, relações públicas, psicoterapeuta e consultor de serenidade. Abençoado.

Fábio Coentrão

Substituído aos 75 minutos para se ir sentar no banco, onde ficou na companhia da restante estrutura unida, colectivamente imbuídos do magnífico espírito de harmonia e cordial serenidade que permeia todo clube neste momento.

Battaglia

O meu Battaglia nos olhos sol não tem
Seus beiços são menos rubros que o coral
se a relva é verde, a chuteira suja-a bem,
e sob a pele há um esqueleto de metal.
Já vi trincos brancos, rubros, cor-de-rosa;
a cor deste é verde, curto bué contemplá-la,
não existe fragrância mais deleitosa
do que o bafo que o meu Rodrigo exala.
osto de
o ver correr à doida, contudo sei
que nem sempre está na melhor posição,
de vez em quando um gajo passa, eu reparei
mas o Battaglia a seguir manda-o ao
chão.
Creio no entanto o meu amor tão raro
quão falsas ilusões a que o comparo.

- Shakespeare, Soneto 130 (Tradução de Vasco Graça Moura)

Gelson Martins

Na primeira parte foi obrigado a defender mais do que atacou, e fê-lo com a disponibilidade e competência habituais, arranjando ainda tempo para dar um saltinho ocasional lá à frente, por exemplo para escavacar Alex Teles e cruzar para a boca da baliza. A partir do intervalo foi consistentemente o jogador do Sporting que mais procurou desequilibrar as coisas para o lado certo, e que mais vezes encontrou uma forma de tirar vantagem do caos que cria à sua passagem.

Bruno Fernandes

Tem todo o direito a fazer jogos assim de vez em quando, e este, valha a verdade, já se adivinhava há algum tempo. Mas, pelo sim pelo não, apanhem-no distraído e construam rapidamente uma sauna à volta do homem.

Bryan Ruiz

Tal como o som da gaita de um amolador, tal como os clubes de vídeo, tal como um museu de alfaias agrícolas, o talento de Bryan Ruiz que ainda existe (e não é pouco) não devia ser uma coisa para andar por aí a ser forçada a uma utilidade artificial no dia a dia das pessoas, mas sim para ser recordada com carinho e nostalgia. A questão é mesmo só esta.

Acuña

Enquanto jogou a médio-ala, submeteu a organização defensiva do Porto ao seu vasto naipe de recursos criativos: receber a bola, dar o traseiro ao marcador directo, curvar-se, proteger, perder a bola, protestar com o árbitro, correr para trás, recuperar posição em corrida, por vezes tudo isto em simultâneo, como se estivesse numa série do Aaron Sorkin. Soltou-se quando recuou para lateral e foi talvez o melhor (ou pelo menos o mais fresco) jogador da equipa no prolongamento, voltando a demonstrar essa peculiaridade da sua condição física, que é ir ficando menos cansado à medida que eu vou ficando mais velho.

Bas Dost

Um autêntico pesadelo para a dupla de centrais do Porto, obrigados a levar com três dias de sessões de treino, visionamento de vídeos, análise de diagramas com as suas movimentações típicas, etc, quando afinal nada disso era necessário. Suckers!

Ristovski

A subida de rendimento da equipa coincidiu com a injecção de adrenalina, intransigência e capacidade atlética que foi a sua entrada em campo, onde se comportou como um post sarcástico no facebook em forma humana.

Montero

Há um tipo específico de pessoa que possui o condão de enervar qualquer outra pessoa até aí não enervada simplesmente perguntando "porque é que estás tão nervosa?" Fazer disto o princípio operativo de um estilo de jogo nunca seria consensual entre adeptos com as unhas permanentemente enfiadas na boca, mas há dias em que aquela descontração sobrenatural é um descanso para a alma. Hoje foi.

Doumbia

Já no prolongamento, confrontado com as alternativas mutuamente exclusivas de cabecear a bola na direcção da baliza ou de rachar o crânio a Maxi Pereira, optou por rachar o crânio a Maxi Pereira. Não foi certamente uma decisão fácil, mas Doumbia terá pesado os prós e os contras e agido de acordo com o que entendeu melhor servir as necessidades da equipa naquele momento em particular, até porque ainda não é um dado adquirido que lhe volte a ser validado um golo no resto da sua carreira.

  • Jogo, joguinho, jogão

    Futebol nacional

    Não foi exatamente bem jogado, mas foi um clássico com drama, muita emoção (porque o bom do futebol também é isso) e em que as decisões só apareceram mais de duas horas após o apito inicial. E aí, nas grandes penalidades, o Sporting foi melhor que o FC Porto. Está na final da Taça de Portugal, troféu que pode juntar à Taça da Liga, que já venceu esta época