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Rogério Casanova

Rogério Casanova tem uma pergunta para Gelson Martins: Porque é que não fazes TUDO bem, em vez de fazeres apenas a maioria das coisas bem?

Esta é uma de três questões que este cronista, sendo o mais sportinguista possível, decidiu colocar ao extremo do Sporting que já leva mais de 4.000 minutos nas pernas, enquanto se sentia obrigado a desviar o olhar sempre que a televisão mostrava Battaglia, o trinco que continua a "regular o trânsito segundo o princípio da intimidação"

Rogério Casanova

NurPhoto

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Rui Patrício

Pela sexta vez esta época, passou noventa minutos em Alvalade sem defender qualquer remate ou fazer qualquer outro tipo de intervenção relevante. Está na altura de fazermos uma reflexão profunda sobre o tipo de modalidade desportiva que queremos deixar aos nossos produtores de conteúdos digitais.

Ristovski

Ao minuto 11 deixou-se fintar perto da linha do meio-campo e ficou estatelado no meio do chão enquanto Mateus arrancou com a bola por ali fora. A medida mais rigorosa da exibição de Ristovski esta noite é que foi ele próprio a ir fazer a dobra, aparecendo alguns segundos depois a desarmar Mateus já dentro da área. Sempre agressivo, muito bem na antecipação, e despachado no ataque, está a criar as condições para o que o Sporting se veja eticamente obrigado a entregar setecentos e cinquenta mil euros adicionais ao Rijeka.

Coates

Aos dez minutos da segunda parte, no sítio exacto onde costuma marcar golos decisivos ao Tondela e ao Porto, teve a bola ao alcance do seu pé direito. Experiente, maduro, conhecedor exímio tanto do resultado como do tempo de jogo, percebeu que hoje não era preciso um milagre e decidiu guardá-lo para melhor oportunidade.

Mathieu/Petrovic

Mathieu saiu ao intervalo; para o seu lugar entrou Petrovic: não se notou qualquer diferença. Não sei se o Boavista foi, em toda a sua história, vítima de uma frase mais pejorativa do que a anterior.

Fábio Coentrão

Na linha do que tem feito nas últimas semanas, pouca pujança a apoiar o ataque, mas doses monumentais de esperteza e experiência a defender. Antes de sair, ainda teve tempo para sofrer uma entrada dura de um marroquino chamado Tahar, a primeira vez que um futebolista do Sporting sofreu uma entrada dura de um marroquino chamado Tahar desde 1999. Pode até dizer-se que, em matéria de entradas duras cometidas por marroquinos chamados Tahar, acabou hoje um longo jejum.

Battaglia

Regulou o trânsito segundo o princípio da intimidação: torna a sua área tão desconfortável que, de forma gradual, toda a gente vai perdendo a vontade de lá passar. Primeiro é o meio-campo adversário a deixar de aparecer perto de Battaglia; depois todos os outros sectores; depois os colegas; e por fim a bola. Hoje, a partir da segunda parte eu próprio comecei a desviar os olhos sempre que as câmaras o mostravam. Mas afinal Battaglia jogou bem ou mal?, perguntam vocês, nesse vosso jeito bruto. Lamento imenso, mas é uma pergunta desinteressante.

Bryan Ruiz

Eis a questão sobre Bryan Ruiz, e sobre aqueles momentos em que alguma coisa não corre como nós, adeptos, desejamos, e portanto pensamos (ou gritamos em voz alta) coisas como “molengão de m&[email protected], burro do [email protected]@{#0, porque é que demoras tanto tempo a desfazer-te da p[][email protected] da bola?”, etc. A questão é que Bryan Ruiz discorda da nossa opinião. Bryan Ruiz acha que nós estamos errados. Mas Bryan Ruiz não nos odeia por causa das nossas opiniões erradas. Pelo contrário: o que sente por nós é amor, um amor temperado por pena e por um carinhoso sentimento de superioridade. A mesma troika de emoções, aliás, que sente pelos colegas. Pegou numa condição universal – acreditar na supremacia da nossa subjectividade sobre todas as outras – e transformou-a numa maneira benigna de jogar futebol e de organizar lenta e lucidamente um meio-campo. O que torna o efeito tão dissonante é o facto de este despotismo iluminado não ser implementado por um Prussiano com um exército, mas por alguém que mais parece um artista parisiense acabado de chegar do Quartier Latin com um manifesto e dois pincéis. Mas é o que temos e, pelo menos até William regressar, precisamos todos uns dos outros.

Gelson Martins

O que fazer perante um jogador que, mais uma vez, se fartou de improvisar desequilíbrios individuais, transformar bolas perdidas em lances de perigo com um ou dois toques, rematar à baliza, assistir colegas, e auxiliar incansavelmente o lateral no seu corredor? Perante um jogador que vai mostrando uma disponibilidade física e mental quase sobrenaturais? Que se revela o único com frescura suficiente nos últimos minutos de uma vantagem mínima para decidir, sempre com acerto, quando temporizar e recuar, ou quando acelerar e esticar o jogo? E tudo isto na fase final de uma época em que já leva mais de 4000 minutos nas pernas (além de treze golos e dez assistências)? Creio que a reacção mais apropriada e mais sportinguista é colocar de imediato três questões: “Porque é que não és melhor?” “Porque é que não fazes TUDO bem, em vez de fazeres apenas a maioria das coisas bem?” “Porque é que de vez em quando nos irritas?”

Bruno Fernandes

Primeira parte soberba ao nível da produção de conteúdos para uma variedade de plataformas multimédia. Gifs de cuecas, memes com mãos na bola, youtubes com cruzamentos de trivela: Bruno Fernandes produziu de tudo um pouco, e contribuiu, como tantas vezes desde que chegou, para melhorar exponencialmente o futebol da equipa e também a economia digital. Manteve-se em campo até ao final do jogo, como parte do plano secreto do Sporting para o manter mais uma época, e que consiste em fazê-lo chegar ao Mundial numa cadeira de rodas, a arrastar um saco de soro e um cilindro de oxigénio.

Acuña

Quando algo é feito com tanta insistência, e reiterado de forma tão constante, é legítimo supor que se trate de algo deliberado: fruto de uma crença enraizada e não de uma mera resposta pragmática às circunstâncias. Acuña repete tantas vezes os mesmos dois movimentos – (1) receber a bola e virar as costas ao marcador directo; e (2) cruzar às cegas na direcção geral da área – não porque julga serem essas as melhores alternativas em determinados momentos do jogo, mas porque acredita nas ideias enquanto ideias: na ideia de receber a bola e virar as costas ao marcador directo; na ideia de cruzar às cegas na direcção geral da área. Acuña é um ideólogo e vai lutar por isto da mesma maneira que algumas pessoas lutam por um Estado Mínimo, e outras por um Rendimento Básico Incondicional: até ao limite das suas forças, ou até integrar um elenco governativo.

Bas Dost

Digo isto com carinho, total reconhecimento da sua qualidade, e uma gratidão que ficará para sempre: Bas Dost é o representante mais característico e ao mesmo tempo mais esquisito da categoria platónica “ponta-de-lança” que vi jogar no meu tempo de vida.

Misic

Não foi uma surpresa a sua entrada, até porque me lembrava perfeitamente que Misic existia e fazia parte do plantel. Quem disser o contrário está a incorrer numa calúnia, e desafio-o a apresentar provas.

Lumor

Mais cento e dezassete segundos de grande nível, em que manteve o ataque do Boavista completamente inoperante quase sem ser preciso esforçar-se. Está a tornar-se um verdadeiro talismã!