Tribuna Expresso

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Rogério Casanova

Katastrophale Nacht, rastrejat, perdu le ballon, flop of the season (o irónico e poliglota Rogério Casanova sobre Bruno Fernandes)

Rogério Casanova dedica algumas linhas curiosas e adjetivadas sobre os jogadores do Sporting que derrotaram o Portimonense

Rogério Casanova

FRANCISCO LEONG

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Rui Patrício

Tem sido muito noticiado o interesse do Nápoles na sua contratação, um clube que não é campeão há quase três décadas, um clube que esta mesma noite, durante alguns cruéis minutos, alimentou esperanças de quebrar esse jejum (entretanto dramaticamente abreviadas), um clube que na época 2015/16 passou várias jornadas no primeiro lugar, acabando por perder o título para a Juventus após uma derrota contra a Roma com um golo no último minuto, num jogo em que falhou várias oportunidades de baliza aberta. A confirmar-se a transferência, terei pena de o ver partir, mas acredito que Rui Patrício se vai sentir em casa.

Ristovski

Tem uma capacidade atlética, uma velocidade de reacção e uma auto-estima impressionantes, características que lhe permitem interceptar vários passes na antecipação, mas também arriscar algumas entradas cheias de confiança em que acaba por perder o lance e abrir uma via rápida à rectaguarda. Mas fez mais um jogo globalmente positivo, e tem tudo para ser um lateral de eleição; só lhe falta ganhar algum pessimismo e melancolia.

Coates

Numa noite em que foi o melhor elemento do quarteto defensivo, percebeu a dada altura que se calhar também tinha de ser mais qualquer coisa. Nos últimos minutos, com a equipa à procura da vitória e sem grandes ideias para o fazer, começou a ensaiar arrancadas lá para a frente com a bola no pé. Como acabaria a noite caso tivesse sido Coates, em risco de suspensão, a encarnar mais uma vez o papel de herói dos golos tardios, celebrando o seu remate certeiro nos descontos despindo a camisola e brandindo-a triunfantemente num punho erguido? Graças à lucidez de Bruno Fernandes (que visualizou todo este cenário catastrófico na sua cabeça ao minuto 89) nunca saberemos.

Petrovic

Não fica bem no lance do golo e teve um ou outro deslize na segunda parte. Mas, no geral, mostrou-se bem posicionado, inteligente a usar o físico, rápido a reagir, e sem medo de fazer alívios destrambelhados para as bancadas ou para a linha de fundo. Ao minuto 64, num duelo corpo a corpo com Vítor Oliveira, de 64 anos, caiu ao chão: um momento que, se houver justiça na internet, o deve perseguir até ao final da carreira.

Fábio Coentrão

Foi mais ou menos entre Fevereiro e Março que o subterfúgio (heroicamente mantido durante a primeira metade da época) entrou em colapso e toda a gente começou a perceber a realidade: Fábio Coentrão já não é um organismo humano composto por células, mas sim um amontoado de peças sobressalentes atadas com fio de nylon e operadas pela motherboard de um ZX Spectrum de 1988. Hoje saiu a meio da segunda parte, e só não se auto-destruiu ao festejar no banco o golo da vitória graças à intervenção pronta do Presidente, que lhe segurou carinhosamente o rosto entre as mãos ambas, impedindo que o mesmo se desintegrasse.

Battaglia

Nos seus jogos mais hiperactivos, parece ter a capacidade de estar em vários sítios ao mesmo tempo. Em jogos como o de hoje, pelo contrário, parece apenas estar no mesmo sítio, mas duas vezes: no interior do meu peito, protegido das agruras da realidade, e a palpitar suavemente em estéreo - bat-ta, bat-ta, bat-ta...

Gelson

Desviado mais cedo do que é costume (e com mais frequência do que é costume) para zonas centrais, presumo que na na tentativa de o poupar às piscinas intermináveis que função de lateral-direito honorário normalmente o obriga. Criou inúmeras situações de caos, anarquia e devastação nas costas da linha defensiva do Portimonense, que quase nunca foram bem aproveitadas, por ele ou por outros. O desgaste acumulado (bem visível a meio da segunda parte) é uma excelente indicação de que pode chegar ao Mundial totalmente rebentado e sem oportunidade para impressionar o livro de cheques de qualquer oligarca: óptimas notícias, portanto.

Bruno Fernandes

Uma noite desastrosa. Ou katastrophale Nacht, como diria um olheiro alemão. Andou a arrastar-se (rastrejat, em catalão) pelo campo, sem energia, sem ideias, e fartou-se de perder bolas - "perdu le ballon!", como poderia escrever-se em francês, num bloco de notas com o logotipo do Paris-SG. A jogar como jogou hoje numa liga mais exigente tem tudo para se tornar a desilusão da época ("flop of the season", em inglês), e para ganhar um daqueles prémios sarcásticos, como o "bidone d'oro" italiano. Resta-nos esperar que o Engenheiro Fernando Santos tenha o bom senso de não incluir na convocatória para o Mundial um atleta tãoзавышенный - que é como se escreve "sobrevalorizado" em cirílico.

Bryan Ruiz

Um jogador recebia a bola, olhava à sua volta, e entegava-a a um colega. Tempos houve, quando o futebol era um jogo primitivo, em que esta era a definição de "fazer um passe". Hoje a modalidade modernizou-se. Os clubes são sociedades cotadas em bolsa, há departamentos de marketing e de comunicação, há relatórios semestrais e assembleias de accionistas, e os adeptos nas bancadas são maioritariamente homossexuais comunistas que gostam de ler o Jornal de Letras. É por isso que Bryan Ruiz não se limita a receber a bola, olhar à sua volta e entregá-la a um colega; o que ele faz é receber a bola, olhar à sua volta, emitir um comunicado de imprensa divulgando a trajectória precisa do passe, implementar uma campanha publicitária de forma a sensibilizar todos os adversários para o que vai acontecer - e depois entregá-la a um colega. É um passe, Jim, but not as we know it.

Acuña

Não é o exercício mais dignificante, mas tentemos adivinhar o modo como o plantel do Sporting assaltaria um banco. É fácil imaginar Gelson todo encapuçado e vestido de negro a saltitar acrobaticamente pelos telhados e a entrar por uma clarabóia minúscula. Fábio Coentrão com uma pistola enorme na mão, a berrar muito alto com os caixas. Bryan Ruiz de fato e gravata, a tentar persuadir calmamente o gerente do balcão que entregar-lhe todo o dinheiro seria a posição mais vantajosa para todos. E Acuña a correr desenfreadamente pelas escadas abaixo até à cave, onde tentaria durante meia-hora destruir o cofre-forte à cabeçada, com a roupa já ensopada no próprio sangue, antes de se lembrar que tinha a combinação no bolso.

Bas Dost

Não marcou, mas ganhou quase todos os duelos aéreos que disputou e conseguiu várias vezes deixar outros colegas em posição de o fazer. Numa entrevista concedida esta semana, afirmou que viver em Portugal lhe proporciona "paz interior": é algo que se vai notando cada vez mais. O maior risco nesta altura é que atinja um tal estado de serenidade que ao erguer-se para o próximo duelo aéreo comece a levitar e nunca mais regresse ao chão.

Misic

Pareceu tão perplexo como a maioria dos adeptos ao ser colocado no corredor direito. Tão perplexo, aliás, que ao minuto 76 arrancou por ali fora, passou por Rafa Soares, ganhou um ressalto e fez o remate mais perigoso da segunda parte até aí. Reagiu de sobrolho franzido e quase foi possível escutar o seu monólogo interior: "não sei... não sei bem... creio que esta é uma das coisas... que se pode fazer aqui... neste sítio..."

Montero

Mais alguns minutos para acrescentar a um futuro vídeo-compilação no YouTube, com banda sonora da Enya, intitulada "Fredy Montero 2018 - Porque É Que Está Toda a Gente Tão Ansiosa?