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Rogério Casanova

Dez perguntas inocentes sobre o dérbi

Rogério Casanova não contém a excitação por assistir ao 302º dérbi da história, cujas memórias assentam "em fundações tão precárias como esferas que por acaso não bateram num pau"

Rogério Casanova

Jorge Jesus vai estar no banco em Alvalade, Bruno de Carvalho... talvez sim, talvez não Foto Luís Forra/Lusa

Foto Luís Forra/Lusa

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Afinal o que é que vai acontecer e porque é que devemos ficar excitados?
Vai acontecer um jogo de futebol entre o Sporting e o Benfica, algo que acontece pelo menos duas vezes por ano e que já aconteceu trezentas e uma vezes desde 1907. Mas agora vai acontecer pela tricentésima segunda vez! Daí a óbvia excitação de todos os envolvidos.

Alguma situação importantíssima vai ser decidida neste jogo?
Pouca coisa. Os dois títulos mais prestigiantes da época em nada vão ser afectados pelo resultado de amanhã. O Campeonato de inverno foi justa e gloriosamente conquistado pelo Sporting em Janeiro, e o Campeonato de primavera só se joga a 20 de maio no Jamor. (Existe um terceiro e sazonalmente indefinido campeonato, nesta altura liderado pelo Porto, mas trata-se de uma prova demasiado longa e confusa para gerar verdadeiro interesse entre os apreciadores da modalidade). A principal recompensa ao alcance do clube que sair triunfante do dérbi é a oportunidade de reencontrar o Basileia ou o CSKA de Moscovo numa das pré-eliminatórias de acesso à Liga dos Campeões.

Bom, trezentos e um jogos são, por assim dizer, imensos jogos. Que memórias interessantíssimas ficaram de jogos passados?
Depende do que entendemos por "interessantíssimas" e depende do que entendemos por "memórias". Pessoalmente, a minha memória mais antiga sobre dérbis não é de um jogo específico, mas de uma ideia genérica sobre a categoria dérbi absorvida por osmose quase antes de compreender sequer o que era um dérbi: a ideia de que a equipa que chega ao jogo em pior forma tem mais hipóteses de o ganhar. Durante alguns anos, recusei acreditar nesta ideia (por ser absurda), até que a ideia foi demonstrada na prática tantas vezes seguidas que comecei, com relutância, a acreditar nela - altura em que deixou prontamente de funcionar, levando-me a recuperar o ceticismo prévio que compreendi, com o benefício da maturidade, ser de facto a posição correta - altura em que começou outra vez a verificar-se na prática. E assim sucessivamente.

A primeira frase do parágrafo anterior prometia uma empolgante redefinição de conceitos, dando posteriormente lugar a uma meditação sobre a forma como a vívida contingência de algumas recordações reforça a suspeita da sua inautenticidade, levando-nos a crer que se referem a eventos tão embrulhados em significado póstumo que a memória se foi acomodando retrospetivamente à pegada cultural dos mesmos! Mas acabou por não ser nada disso, pois não?
Bem observado. Mas por exemplo: há anos que me convenci a mim próprio de que tenho uma memória extremamente vívida de algo que aconteceu em maio de 1994. No fim-de-semana que antecedeu o fatídico 3-6, o Benfica recebeu em casa o Estrela da Amadora, e foi o empate nesse jogo a regenerar as condições para o dérbi ser decisivo. A memória é a seguinte: a dada altura no jogo, João Pinto fez uma jogada igual à do seu primeiro golo em Alvalade, uma semana mais tarde. Exactamente igual. Recebeu a bola no centro do terreno descaído sobre a esquerda, rodopiou sobre um jogador do Estrela, e rematou de longe, com a bola a voar direitinha ao que parecia o ângulo superior direito da baliza - mas bateu na trave. E não entrou. Isto aconteceu mesmo? A verdade é que não faço a menor ideia. Mesmo numa era em que qualquer memória pode ser instantaneamente validada ou invalidada com recurso à tecnologia, esta tem-se revelado impossível de confirmar.

Na 1ª volta, na Luz,Gelson marcou pelo Sporting (1-1)

Na 1ª volta, na Luz,Gelson marcou pelo Sporting (1-1)

Foto Bruno Barros/Getty

Seria extraordinário se essa memória correspondesse à realidade. Duas jogadas tão semelhantes em semanas consecutivas, e com uma diferença de meros centímetros a ter consequências tão dramáticas... Ensinar-nos-ia uma lição valiosa sobre... sobre o quê, exactamente?
Ensinar-nos-ia, para começar, que a felicidade é impossível, que o universo é um lugar inóspito, e que só o sofrimento produz significado. Também poderia ensinar-nos que muitas das histórias mais potentes que contamos a nós próprios - narrativas sobre qualidade e justiça, explicações causais sobre identidades e destinos colectivos - assentam em fundações tão precárias como esferas que por acaso não bateram num pau, ou então sobre memórias que por acaso são falsas. Mas lição principal teria de ser sobre sofrimento.

Por falar em sofrimento, como é que estamos de boletim clínico e assim?
Além de Mathieu e Piccini, há esperanças legítimas de que William recupere a tempo, o que implicaria a saída de Bryan Ruiz do onze titular. A confirmar-se, será estranho assistir a um Sporting-Benfica em Alvalade sem Bryan Ruiz em campo: estranho acima de tudo para uma das balizas, que vai obrigatoriamente sentir-se mais nervosa e desprotegida. Do outro lado, Jonas continua a debater-se com uma rotura parcial dos ligamentos cruzados da especulação, mas é provável que também jogue de início.

E duelos individuais? Certamente "perspctivam-se alguns duelos individuais", como costuma dizer-se?
Qualquer dérbi pode ser visto como uma coleção de duelos individuais e este não foge à regra. De um lado as chuteiras de Fejsa; do outro frágeis acumulações de tecido, osso e cartilagem. De um lado os cruzamentos de Acuña; do outro painéis publicitários. Para não falar do potencial concurso de patologias numa das áreas, entre um Bas Dost cuja tendência para a narcolepsia se acentua nestes jogos, e um Rúben Dias que é possivelmente o defesa central mais daltónico do futebol português, incapaz de ver qualquer objecto de cor amarela.

Então e o Bruno Fernandes?
Não parece mau jogador.

Qual seria a manchete de jornal mais surpreendente possível no dia seguinte?
Algo como "Hat-tricks de Rafa e Ruiz decidem o dérbi". Ou então "Presidente do Sporting regressa ao Facebook com um post onde revela o top 5 dos bebés mais feios vistos nas contas de Instagram de futebolistas do clube". São manchetes que quase de certeza não vão acontecer. Mas por outro lado, quantas vezes pensámos ingenuamente que quase de certeza não iam acontecer coisas que depois aconteceram?

Um prognóstico? Uma previsão? Uma profecia?
Há cerca de dois mil e oitocentos anos era relativamente fácil fazer profecias. Bastava uma peregrinação até à Grécia, desembarcar no porto de Kirrha, fazer abluções na fonte de Castalla e percorrer a via sacra até ao templo de Apolo, onde o Oráculo podia ser consultado entregando uma tábua inscrita com a nossa pergunta a uma das pitonisas locais, que depois se sentava num trípode equilibrado sobre uma fenda na montanha e se punha a inalar emissões de hidrocarbonetos até ficar suficientemente inebriada para declamar a resposta em hexâmetros dactílicos - uma técnica ainda hoje utilizada por Nuno Luz sempre que faz um directo. O Oráculo de Delfos manteve a sua reputação até ao séc. IV altura em que todo o processo foi corrompido (provavelmente pelo Benfica) e entrou em declínio; a qualidade das profecias nunca mais foi a mesma. Se tivesse de arriscar uma, seria esta: a Avenida dos Aliados vai estar muito mais cheia no domingo do que no sábado.