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Rogério Casanova

Como é que um cadáver embalsamado consegue ser o melhor lateral do Sporting na última década? (por Rogério Casanova)

Se não sabem quem é, Rogério Casanova diz: Fábio Coentrão. Neste texto também se fala do cotovelo de Ruben Dias, da inteligência de Piccini e as repetições de Bryan Ruiz

Rogério Casanova

Pedro Fiuza

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Rui Patrício

Ao minuto 8, frente a frente com Rafa, evitou o golo com o auxílio do poste esquerdo. Ao minuto 38, após novo remate de Rafa, desviou para canto com o auxílio do poste direito. Ainda viu um remate de Samaris sair ao lado, com o auxílio da relva e do oxigénio. É possível que tenha sido o último dérbi de Patrício; já os postes, a relva e o oxigénio devem continuar (têm potencial, mas ainda podem crescer). Vamos ver como se safam no futuro, uns sem os outros.

Piccini

Muito inteligente na maneira como deixou fugir Rafa nas suas costas ao oitavo minuto, partindo do pressuposto correcto que o extremo português é menos preocupante quanto mais perto estiver de uma baliza. Depois de meia-hora inicial complicada, estabilizou e fez uma segunda parte segura. Não sei porque é que parece sempre o jogador mais calmo da equipa quando tem a bola nos pés perto da sua área, pressionado por adversários; só sei que é o que me deixa menos nervoso.

Coates

Tirando uma falha posicional perto da meia-hora (que deixou Jiménez em jogo) e as suas habituais tentativas para contornar as dificuldades colectivas na saída de bola com imitações de quarterback, até esteve bem. Destaque para o mergulho desesperado aos pés de Douglas ao minuto 36, que possivelmente evitou um golo. Quer dizer, até se podia perder o jogo - mas, quando se trata de decidir quem marca o golo que nos derrota, há princípios e valores dos quais não podemos abdicar.

Mathieu

Uma intercepção crucial ao minuto 13, foi uma das coisas que hoje fez Mathieu. Terá feito outras? Certamente que sim, e falaremos delas em sede própria, num momento mais oportuno. Estas coisas têm os seus timings, não podemos apressá-las.

Fábio Coentrão

Bom lance individual ao minuto 39, quando desviou a bola de vários adversarios, soltou para o flanco direito e apareceu a responder de cabeça ao cruzamento de Piccini com o único remate vagamente perigoso da equipa em toda a primeira parte. Depois caiu ao chão. Que estranho esgar foi aquele que se vislumbrou no seu rosto nesse momento? Terá sido aquilo a que nós humanos, com os nossos costumes pitorescos, chamamos “desconforto”? Terá sido uma manifestação daquilo que designamos por “dor”, quando nos referimos a pessoas ainda vivas? É um mistério que fica, a juntar ao mistério maior: o de como é que alguém que é essencialmente um cadáver embalsamado cuja circulação sanguínea e função circulatória já só funcionam à custa de pura vontade conseguiu ser o melhor lateral-esquerdo do Sporting na última década.

Battaglia

Não lhe correu muito bem o jogo, o que até seria de esperar numa noite em que a Lua se encontrava em quarto minguante, reduzindo logo à partida aquela fracção da qualidade de Battaglia que advém do facto de ele ser secretamente um lobisomem. Depois de uma primeira parte onde nunca compreendeu bem onde é que estava e porque é que aconteciam as coisas que via acontecer, teve ao minuto 52 a primeira ocasião com espaço livre à sua frente: reagiu galgando uns metros e fazendo aquilo que apenas posso descrever como uma finta. Ou pelo menos algo que um dia poderá ser uma finta, se entretanto crescer, amadurecer, cortar o cabelo, arranjar um emprego, etc.

William Carvalho

Beneficiando de total autonomia criativa e não sendo agrilhoado por qualquer espécie de indicação superior para cumprir à risca determinadas tarefas, conseguiu aproveitar essa liberdade para ser imprevisível e procurar soluções inesperadas de forma a não magoar ninguém. Refiro-me, como é evidente, não a William Carvalho, mas sim a este parágrafo, que está por conseguinte de parabéns.

Gelson Martins

A manobra atacante da equipa mostrou-se hoje tão oleada que este desgraçado concluiu em duas ocasiões diferentes que a melhor opção era solicitar uma desmarcação de Bas Dost em velocidade. Contra uma equipa que, só na primeira meia-hora, conseguiu criar 4 ou 5 situações para deixar Rafa no 1x1 com o lateral perto da área, Gelson passou grande parte do tempo sozinho ou tapado por três muros, pacientemente à espera que o jogo partisse o suficiente para fazer aquilo que é sempre obrigado a fazer: começar a ultrapassar adversários em velocidade ainda antes da linha de meio-campo, galgar metros, sacar faltas, tentar milagres. Ao minuto 81, perdeu um lance contra uma das grandes figuras do campeonato: o cotovelo direito de Rúben Dias.

Bruno Fernandes

Já nos descontos mostrou toda a sua lucidez e clarividência com aquela entrada sobre Cervi: só um jogador descompensado é que não tentaria fazer tudo ao seu alcance para ser expulso e evitar a experiência de aterrar no aeroporto do Funchal na próxima jornada. Foi atraiçoado pelo árbitro que, com o sadismo que os membros dessa classe profissional costumam exibir perante o Sporting, se limitou a mostrar-lhe um amarelo.

Bryan Ruiz

Mal foram anunciados os onzes iniciais, todo o mundo do futebol reagiu com trepidação perante o empolgante duelo que se adivinhava. De um lado Bryan Ruiz, um jogador normalmente incapaz de acertar na baliza quando está isolado; do outro Douglas, um jogador normalmente incapaz de impedir que o jogador que está a marcar se isole frente à baliza. A ocasião prometia. Estariam os servidores do YouTube à altura de aguentar o tráfego adicional? Na verdade não foi preciso, pois Douglas e Ruiz tiveram o cuidado de se ultrapassar um ao outro um (inúmeras vezes), mas sempre em câmara lenta, como se as jogadas já fossem as suas próprias repetições. E nada nos garante que não o sejam. Se calhar já todos vimos estas jogadas milhões de vezes, no simulacro de Inferno que habitamos sem saber, e em que somos obrigados a ver os mesmos duelos entre Bryan Ruiz e Douglas todos os dias, para sempre.

Bas Dost

No último lance antes do intervalo fez a melhor finta da sua carreira, um gesto tão inesperado que apanhou de surpresa toda a gente que percebe de futebol: os defesas do Benfica que o marcavam, os colegas de equipa que o observavam, os comentadores no estúdio, os espectadores nas bancadas. Toda a gente menos Douglas, um defesa tão inconsciente e tão pouco conhecedor do futebol português que deve ter achado perfeitamente normal Dost fazer uma coisa daquelas, e portanto se colocou no sítio certo para interceptar o cruzamento posterior. Já agora, porquê um cruzamento e não um remate? Uma excelente questão e falaremos dela em sede própria, num momento mais oportuno. Estas coisas têm os seus timings, não podemos apressá-las.

Acuña

Dizia-se de Garrincha que entrava em campo sem sequer saber o nome do lateral que o ia marcar: era apenas mais um para deixar estendido no chão. Também para Acunã todos os laterais são iguais: tanto é incapaz de desequilibrar no 1x1 contra o melhor defesa-direito do mundo como contra Douglas. De resto destacou-se o toque brilhante a lançar um contra-ataque rápido de Salvio e Jiménez que o mexicano não conseguiu concretizar, naquela que foi uma bela jogada de envolvimento do trio sul-americano.

Misic e Lumor

As duas armas secretas lançadas nos últimos minutos para, com o seu carisma e qualidade, impulsionarem o derradeiro esforço da equipa na luta pela vitória. Foi o tudo por tudo, mas não funcionou. Bom, fica pelo menos a sensação do dever cumprido: sem nem mesmo lançando Misic e Lumor para dentro de campo nos últimos minutos foi possível ganhar o jogo, então nada mais resultaria.