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Rogério Casanova

Rogério Casanova aconselha Mathieu a apanhar um barco e a salvar-se, enquanto é tempo

O autor também se dedicou à desmontagem do que poderá significar um cruzamento de Acuña: "Não tem causa nem propósito, pois existe privado de qualquer sanção. Propõe-se ao mundo sem que nenhuma praxis o justifique: é um acto intransitivo, que nada inicia, que nada conclui, que nada modifica, que se limita a existir na sua brilhante auto-suficiência"

Rogério Casanova

HOMEM DE GOUVEIA/LUSA

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Rui Patrício

Regressou ao estádio onde fez a sua memorável estreia, em Novembro de 2006, num jogo em que manteve a baliza inviolável e defendeu uma grande penalidade. Doze anos e meio depois, no que até pode ter sido o seu último jogo em Portugal, aconteceu-lhe isto, a ele e a nós.

O futebol é - demasiadas vezes - superficialmente analisado com recurso a intuições, superstições e heurísticas dúbias que em nada avançam o conhecimento do jogo. Portanto vou tentar ser tão rigoroso quanto possível e limitar-me a apresentar dados científicos: em tempos imemoriais, milhares de anos antes dos cultos de Endovélico e Atégina florescerem entre as tribos da antiga Lusitânia, uma divindade assentou arraiais no território hoje conhecido como Alvalade. Chamemos-lhe, para efeitos práticos, o “Deus De Toda A Merda Que Acontece”.

Sucede que o Deus De Toda A Merda Que Acontece, por natureza malévolo, movia-se com um único propósito: fazer com que a merda acontecesse, de preferência toda, e toda no mesmo sítio. Falhou frequentemente, como é próprio das divindades pagãs, pelo que alguma merda foi acontecendo também noutros sítios, e quando acontecia naquele sítio, não acontecia toda de uma vez. Mas o Deus De Toda a Merda Que Acontece, com a eternidade do seu lado, não se deixou desanimar. Aprendeu a levantar a cabeça, e a acreditar que mesmo que a merda não aconteça toda hoje, amanhã é outro dia! E quando os totais forem somados no ábaco celeste, terá acontecido merda suficiente para o deixar com a sensação do dever cumprido. Agora, porque é que se decidiu fundar um clube desportivo naquele sítio? Isso é outro mistério, que só os responsáveis podem elucidar.

Piccini

Timing perfeito na maneira como escolheu o dia para elaborar uma antologia de todos os sobressaltos a que já tínhamos deixado de associar a posição de lateral-direito. Cruzamentos para trás da baliza? Check. Recepções defeituosas? Check. Inoperância ofensiva? Check. Maus atrasos de cabeça? Check. Deixar fugir adversários nas costas? Check. Foi substituído perto do fim, antes que lhe crescesse espontaneamente um rabo-de-cavalo.

Coates

Ultrapassado em velocidade por Joel ao minuto 27, nunca entrou em pânico, e aguardou com tranquilidade que Mathieu chegasse a tempo de fazer a dobra. Fortalecido pelo lance, tratou depois de supervisionar atentamente as movimentações dentro da área que levaram aos dois golos do Marítimo. Na construção de jogo, voltou a demonstrar uma ligação quase telepática com os painéis publicitários.

Mathieu

Salva-te. Foge e apanha um barco. Salva-te enquanto é tempo.

Fábio Coentrão

Deu-se mal com um dos seus encostos patenteáveis: “matreiros” e “experientes” quando correm bem, disparatados quando correm como este: falta e golo do Marítimo. Na periferia da sua inteligência avistaram-se alguns fósseis de antigos momentos de forma, cuja própria irrelevância os torna leves, rápidos, surpreendentes (um roubo de bola na antecipação aqui, uma desmarcação exemplar ali). Saiu aos 53 minutos, e pode agora regressar ao lugar que lhe pertence por direito: não num qualquer centro de estágios, mas no Museu de História Natural.

Battaglia e William Carvalho

Repetiram a dupla do jogo anterior, numa solução táctica que procura juntar o inútil ao desagradável. Battaglia e William foram uma situação de inferioridade numérica em forma humana e com quatro pernas, atrapalhada pela dificuldade adicional de, quando por fim conquistava a bola, ser obrigada a sair da frente de si própria antes de poder mudar de assunto. Não há conversa que sobreviva a isto, quanto mais um meio-campo.

Gelson Martins

É muito simples: a sua consciência futebolística não é introduzida no Mundo, ou seja, no campo, em dois tempos sucessivos, permitindo-lhe primeiro absorver a experiência do jogo e depois a hipótese de a usar. Pelo contrário: tanto a sua liberdade como a sua cumplicidade com as desgraças que acontecem ao seu redor fazem-se do mesmo movimento narrativo – sempre tragicamente constrangido: pelo tempo, pelo espaço, por uma matriz à qual é alheio, e pelos filhos de uma carroça de éguas que ali andam a atrapalhá-lo. Esclarecido este assunto, cabe-me ainda informar que não existem cigarros suficientes no planeta.

Bruno Fernandes

Tentou, da melhor maneira que sabe e pode, servir de ligação entre os vários sectores da equipa na diáspora: aquela colecção de exilados e emigrés, cada um com os seus usos, costumes e dialectos exóticos que ao longo da época foi comicamente apelidada de “equipa do Sporting”.

Acuña

Início de jogo em grande estilo, na primeira saída de bola após o apito inicial: recebeu uma bola larga de William, dominou, encarou adversário de frente, percebeu que estava muito longe para cruzar, voltou para trás, e atrasou para Coentrão. Perfeito. Porque cruza Acuña? Mais vale perguntar porque rima o poeta ou porque canta a minha vizinha de baixo. Podemos propôr o desejo de sucesso ou a procura da felicidade, mas esses serão alibis empíricos mais do que causas verdadeiras. O “Cruzamento de Acuña” não tem causa nem propósito, pois existe privado de qualquer sanção. Propõe-se ao mundo sem que nenhuma praxis o justifique: é um acto intransitivo, que nada inicia, que nada conclui, que nada modifica, que se limita a existir na sua brilhante auto-suficiência.

Bas Dost

Duas épocas que foram uma proeza de concisão. Bas Dost parece menos um avançado do que uma personagem de Hemingway, vertido à nossa frente em frases minimalistas, purgado de adjectivos e advérbios, traduzindo a sua eficiência num triste estoicismo, em parte pela estranha aura de diminuição que paira sobre os seus números estratosféricos, em parte porque, tal como as personagens de Hemingway, existe num permanente semi-círculo de realidade visível onde está sempre a chover e o seu melhor amigo acabou de morrer na guerra. Hoje apareceu, como tantas outras vezes, para meter um ponto final. O problema é que ainda havia páginas em branco.

Bryan Ruiz

Ao minuto 61 foi ao flanco direito para cobrar um livre indirecto. Recebeu um toque curto de Bruno Fernandes, tropeçou no próprio corpo ao ensaiar uma finta, depois reequilibrou-se a custo e conseguiu esbardajar de forma triunfante pela linha de fundo aquilo que se supõe ser um passe. Se alguém tinha isto na sua lista de “Coisas Que Podem Perfeitamente Acontecer Num Jogo do Sporting”, é altura de beber um shot.

Montero

Tal como fazem os mártires, Montero tem calma para que nós não precisemos de a ter. E ainda bem.

Doumbia

Ou, por outras palavas, uma raspadinha!