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Há um antes e um depois de Ronaldo – no Real e nele próprio

Cristiano Ronaldo renovou o contrato com o Real Madrid até 2021. Terá 36 anos quando o terminar e a ideia é ainda assinar outro, para jogar futebol até aos 41. Florentino Pérez disse que haverá um antes e um depois do português, mas cada vez mais se vê que Ronaldo está a ser apanhado por algo ao qual ninguém foge

Diogo Pombo

A BOLA É DELE. Se cumprir o contrato que acaba de renovar, Ronaldo somará 12 anos no Real Madrid. Em 360 jogos, é o melhor marcador de sempre do clube (371 golos)

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Ele encostava-se à linha, esperava pela bola e levantava os braços, a pedi-la. Quando a recebia, era ele que a levava para a frente, que fintava um, dois ou três, os que lhe aparecessem à frente, para se aproximar da área. Era ele que, para acabar com as jogadas, cruzava a bola para alguém a rematar na área ou ele própria a pontapeava à baliza.

Eram os tempos do craque das fintas, em que ele era o malabarista das pernas a passar por cima da bola, dos toques de artista, dos truques de circo que eram um espetáculo para quem montava vídeos no YouTube. Ele marcava golos, dava-os a marcar, inventava dribles bonitos e era alguém adorado em Inglaterra.

Isto era antes.

Porque ele, um tipo ambicioso, alérgico ao conformismo, que nunca está satisfeito, apercebeu-se que fazer coisas bonitas e espetaculares não chegava para ter o que pretendia. Ele queria ser o melhor. Não apenas na cabeça dele, mas na de todos, especialmente de quem votava no prémio em forma de bola que eleva um jogador acima dos restantes. As opiniões discutem-se e os gostos dividem-se, mas uma Bola de Ouro é entregue e diz quem foi o melhor jogador durante um ano civil. Ele sempre quis isso, ser o número um no que interessava. O problema é que havia um homem entre ele e esse reconhecimento.

Aí veio o depois.

Cristiano Ronaldo jogava e brilhava em Inglaterra, mas o que fazia nunca chegou para convencer as pessoas a votarem nele e não em Lionel Messi, desde que o argentino começou a ganhar o prémio da FIFA. A escala do português passou a ser o argentino. E como o pequeno nasceu com um talento bruto maior do que o grande, Cristiano percebeu que o melhor era especializar-se no que mais contribui para decidir jogos, chegar às vitórias e ter aquilo que podia ter a mais do que Messi - troféus e títulos. Ou seja, nos golos.

E a melhor forma de o compararem e medirem ao único futebolista capaz de o bater era ir para perto dele. E jogar contra ele. Ronaldo saiu do Manchester United para o Real Madrid, em 2009, e deixou de ser o tipo que inventava as jogadas. Quis terminá-las. Tornou-se amigo da área, dos remates de longe, de primeira, de todo o lado e de qualquer forma. Passou a querer receber, e não a dar, o último passe. Reclamou ser o ponto final de todas as jogadas, aos poucos foi sendo o miúdo que amua se não lhe passarem uma bola que pode dar golo. O Cristiano do futebol espetáculo transformou-se no Ronaldo dos golos e do fazer o que precisa de ser feito.

A BOLA E RONALDO. O português vai com sete golos marcados e cinco assistências esta temporada

A BOLA E RONALDO. O português vai com sete golos marcados e cinco assistências esta temporada

O português mudou-se para mudar a forma como jogava. De ágil, esguio e elástico passou a ser mais veloz, mais rápido e mais potente nos esforços de longa distância. Ganhou músculo, deu mais poder de explosão ao corpo, que se tornou menos apto para se desenvencilhar de problemas em espaços curtos. Há dois anos tinha 7% de massa gorda num corpo com 78 quilos assentes em músculo. A mente que mantém ambiciosa e eternamente insatisfeita foi puxando pelo corpo, que, por muito trabalhado que seja, consegue fugir de todas as coisas menos de uma, a idade. E o peso e o músculo que foi ganhando deram-lhe uma lesão quase crónica no joelho, em 2014, que de vez em quando o apoquenta e volta para lhe lembrar que nada dura para sempre.

Mas, e enquanto tudo isto mudava em Cristiano, o Real Madrid foi-se alterando com ele. Venceu duas Ligas dos Campeões (2015 e 2016) em sete temporadas, tantas quanto as que ganhara nos 20 anos anteriores. Continuou, portanto, a mimar ainda mais a competição pela qual nutre um amor peculiar - conquistou mais Champions do que campeonatos (um, em 2011, com José Mourinho) desde que o português lá chegou. A contar com esta temporada, Ronaldo fez 360 jogos e produziu em massa o produto que pediu a ele próprio. Vai com 371 golos, ultrapassou os números de Raúl, tornou-se o melhor marcador do clube e igualou Alfredo di Stéfano como o tipo que mais Bolas de Ouro enquanto jogador do clube. Já foram duas, em 2013 e 2014.

Ganhou-as desde que começou a marcar mais do que 50 golos por época - só não o fez na primeira, em 2009/10, quando se ficou pelos 33. Manteve vivo o duelo com Messi, que foi conseguindo números parecidos, e não deixou morrer este jogo do gato e do rato que os vai distanciando dos restantes humanos que decidiram jogar futebol no planeta.

O que é bom para toda a gente. Para Ronaldo e para Messi, que puxam um pelo outro, e para o Real Madrid, cujo lucros em títulos, em euros, em fama, na exposição mediática aumentam quanto maiores forem os números de Cristiano. Daí ser natural ver o maior clube do mundo a renovar o contrato de um jogador que acreditar sempre que é melhor, mesmo que já tenha 31 anos e esteja a ser apanhado pela idade, da qual ninguém foge. “Não te cansas de ganhar e por isso queremos que continues com esta camisola para sempre. A tua vontade de superação faz parte da nossa identidade. O Di Stéfano estaria orgulhoso do seu herdeiro”, disse Florentino Pérez, presidente do Real Madrid, durante a pompa da cerimónia em que anunciou a renovação do contrato com o português, até 2021.

ATÉ 2021. O contrato que Ronaldo assinou na segunda-feira vai mantê-lo no Real Madrid até aos 36 anos

ATÉ 2021. O contrato que Ronaldo assinou na segunda-feira vai mantê-lo no Real Madrid até aos 36 anos

O “durante” do Real Madrid com Cristiano, portanto, durará 12 anos e, caso as coisas não mudem, vai manter o português por lá até aos 36 anos. Ele disse, como já dissera várias vezes, que a ideia de jogar mais dez anos (até aos 41), cuidar do corpo e prolongar um estado de graça que apenas será vantajoso para o clube se ele continuar a fazer o que faz hoje. Algo que será cada vez mais difícil, como o próprio tem mostrado. Vindo de poucas férias e de uma lesão sofrida na final do Europeu que não o deixou ter pré-época, Ronaldo tem marcado (sete golos) e jogado menos. Está diferente, menos intenso, mais metido na área e virado para esperar por bolas em vez de as ir procurar.

Ele parece estar diferente. No campo, a culpa é dele por, até agora, só ter conseguido números bons aos olhos das pessoas que habituou a estatísticas extraordinárias. Cristiano está mais velho e, por isso, mais lento, menos explosivo, mais poupado e menos exuberante. Fora do campo, até já aparece de óculos de ver postos e vai apostando mais nas marcas que tem, num sinal de quem mostra as coisas que o vão manter ocupado quando já não conseguir ser um dos melhores a jogar futebol. Esse dia ainda vai demorar a chegar, mas o “depois” em Cristiano Ronaldo nunca pareceu ser tão claro.