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Ronaldo, o homem intocável

O evento que a Nike organizou na Cidade do Futebol, da FPF, em Oeiras, para apresentar as novas chuteiras do seu bem mais valioso, mostra como funciona a vida de Cristiano Ronaldo que nós conhecemos - é planeada ao milímetro, com pompa, a elevá-lo acima de quase tudo e a fazer-nos ver como é impossível saber o que eles queiram que nós saibamos

Diogo Pombo

D.R.

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O hall de entrada, que é grande e espaçoso, não está cheio. Mas não é magro em pessoas. Faltam uns dez minutos para a hora marcada, nota-se que ali vai acontecer alguma coisa.

Ouve-se português, muito, embora a língua que a maioria fala se misture com o inglês, o espanhol e o francês que também se ouvem. Há jornalistas que vieram de todo o lado. Hoje, este pedaço do edifício que a Federação Portuguesa de Futebol construiu, e a que chamou de Cidade, não pertence ao seu dono. É uma marca que ali manda. A marca que tem como logotipo o tipo de risco que os professores, na escola, faziam no papel de teste, para nos dizerem quais as respostas em que tínhamos acertado.

Quem manda aqui é a Nike. E, à primeira vista, tudo parece estar certo.

Os jornalistas, a Cidade do Futebol, as câmaras, os convidados, todos estamos ali por causa dele, o tipo que já não é um tipo. É um nome que gera dinheiro e que o faz gravitar à sua volta. O mesmo que, no dia anterior, assina um contrato vitalício com a marca que nos convida a estar ali, que lhe vai render qualquer coisa à volta dos €20 milhões ao ano. É o jogador que, dois dias antes, já tinha assinado noutro papel, que lhe dará quase outros tantos milhões por continuar vinculado ao maior clube do mundo durante mais uns anos.

Ao terceiro dia, novo evento. Vai apresentar as enésimas chuteiras que marca americana vai publicitar em nome do português, com tudo o que tem. A Nike sabe que, quanto mais der no esforço para comercializar Ronaldo, mais receberá em troca. Há miúdos, jogadores da bola amadores, frustrados sonhadores que vão querer ter tudo igual ao Cristiano que veem jogar e adoram e têm na maior estima.

O português é valioso para a Nike e faz sentido que haja pompa na circunstância que nos recebe ali.

As paredes do hall, protegidas por troféus das competições da federação, que são expostos em linha, têm ecrãs com a imagem da marca. São grandes, negros na cor, adornados por frases como “explosive speed”, onde o nome da Nike é tão grande quanto o tamanho que três iniciais têm. CR7.

Isto bate certo, é normal que uma das duas maiores marcas desportivas no mundo do futebol mime e amplifique o seu jogador mais conhecido. O nome de Cristiano confunde-se com o da Nike e se esta relação nos faz parar para pensar qual deles é maior, é porque ambos já viveram mais tempo juntos do que separados (a relação começa em 2003, já agora).

O bem precioso

Ronaldo, dois dias antes do evento, durante a apresentação da renovação de contrato com o Real Madrid.

Ronaldo, dois dias antes do evento, durante a apresentação da renovação de contrato com o Real Madrid.

Denis Doyle

A marca já patrocina a seleção nacional, faz-lhe os equipamentos e tem uma relação de anos com a federação. O bem mais precioso que a Nike tem é Cristiano Ronaldo, que é português e capitão da seleção que há pouco tempo se tornou na melhor da Europa. E como tem a agradável coincidência de ter contrato com Rio Ferdinand, que jogou com Ronaldo no Manchester United, e com Ricardo Quaresma, velho amigo de Cristiano, fá-los aparecer para uma conversa de 15 minutos com o homem do momento.

É muito fácil entender o como e o porquê de, à hora de almoço de uma quarta-feira, a Nike tomar a Cidade do Futebol, em Oeiras, e fazer dela o palco de um evento de apresentação das novas chuteiras do Ronaldo.

O que já não se percebe é que, sendo ele português e o mais conhecido de todos, nem todos os jornalistas e jornais portugueses tenham o que espanhóis, ingleses ou franceses voaram até ali para ter.

[O Expresso, e outros quantos, apenas podem entrar na sala de imprensa]

Durante um quarto de hora, Ferdinand é o moderador de uma conversa – não é uma conferência, não há perguntas – que serve para falar, elogiar, dizer bem e contar histórias de Cristiano Ronaldo. Que é um momento engraçado, pois Aurélio Pereira, o homem que o descobriu na Madeira, Fernando Santos, o selecionador que ganhou com ele, Quaresma, o amigo e Miguel Paixão, o melhor amigo que vem dos tempos do Sporting, contam coisas giras sobre ele.

Chegam à sala, onde cabem perto de cem pessoas, mais de trinta minutos para lá da hora combinada. O primeiro é Ferdinand, o último é Ronaldo, e no meio há um Quaresma que pergunta “‘tás bacano?” ao inglês e provoca o primeiro de vários momentos de riso. Todos os que sobem ao palco estão bem-dispostos e vestidos à Nike (menos Miguel Paixão), com ténis, calças de fato de treino e camisolas da marca.

As novas chuteiras estão em cima de uma mesa, à frente deles. Só Cristiano fala nas botas, ao início, depois de sentar no chão, para se pôr de frente para os ecrãs gigantes, onde se mostrou um vídeo da história entre ele e a Nike. Depois é só histórias, das boas.

Cristiano, com algumas crianças e a segurar a nova chuteira, num dos relvados da Cidade do Futebol, após o evento

Cristiano, com algumas crianças e a segurar a nova chuteira, num dos relvados da Cidade do Futebol, após o evento

D.R.

O grandalhão Ferdinand foi o primeiro a lembrar o jogo, o de 2003, em que Alex Ferguson o descansou no amigável contra o Sporting e, ao intervalo, viu um John O’Shea de rastos, por ter levado com um miúdo que ninguém conhecia. “Marca-o tu, então”, disse-lhe o defesa, antes dele dizer ao treinador que, falhada a contratação de Ronaldinho, tinham de ter aquele Ronaldo. O amigo Miguel Paixão conta como iam “ter com as namoradas, ao cinema ou ao teatro”, após os treinos no Sporting. O selecionador Fernando Santos, entre sorrisos, fala com a sua língua sem papas das coisas que lhe disse quando o conheceu:

“Oh miúdo, tu comigo vais jogar sempre, mas vais ter que te libertar desses truques de circo e tal.”

"Nessa altura disse-lhe também que ele tinha uma impulsão muito boa, mas que não acertava uma de cabeça. No dia seguinte chego ao treino e ele tinha metido alguns colegas a cruzar para ele".

Todos, até o “senhor Aurélio”, como Ronaldo o trata com respeito, têm uma história boa, engraçada e que nos dá gosto em ouvir. E que, no fundo, são elogiosas para com o colecionador de Bolas de Ouro, Ligas dos Campeões e golos.

Nota-se que cada um deles não pensa muito para contar a sua, dá a impressão que todos tinham os ponteiros alinhados sobre o que iam dizer e o que nós íamos ouvir. Como não havia perguntas, os presentes só escutariam o que quisessem.

É assim com tudo quanto é evento que envolva Ronaldo.

Planeia-se ao milímetro, controla-se tudo, mostra-se o jogador e deixa-se que ele mostre a marca em questão. Mesmo que não esteja escrito, há um guião segundo o qual as coisas acontecem e que, por exemplo, fecha a porta a uns e abre a outros, que por sua vez vão abrir muitas outras – são os jornais que são lidos, vistos ou ouvidos por mais gente, porque essa é lei do mercado e da marca que só ganha se as coisas (e pessoas) que tem aparecerem onde mais olhos estiverem focados.

É a vida.

Por isso, finda a conversa na sala, uma das senhoras que trata da logística do evento pede a todos que saiam. Os jornalistas e os convidados passam da porta enquanto Ronaldo bate um papo com quem partilhava o palco com ele. Só que há uns – muitos estrangeiros – que voltam a entrar, para terem uns minutos a solo com ele, e outros – poucos portugueses –, que também o fazem para lhe colocarem apenas uma pergunta que não pode tocar em certos assuntos previamente combinados.

Com Cristiano é assim, só alguns poucos lhe podem chegar.

Os outros, que “arranquem”, como ele diz, a rir-se, assim que a tal senhora anuncia o fim daquilo tudo e nos pede para irmos embora.