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Citius, Altius, Fortius. Até quando?

Os 31 anos rápidos, altos e fortes de Cristiano Ronaldo ainda não lhe chegam. O capitão português quer jogar até aos 41 anos. É possível? É, explica quem o conhece

Diogo Pombo e Mariana Cabral

Gonzalo Arroyo Moreno/Getty

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Para perceber Cristiano Ronaldo, é preciso perceber o lema dos Jogos Olímpicos. “Citius, Altius, Fortius: mais rápido, mais alto, mais forte. Juntos, formam um programa de beleza moral. A estética do desporto é imaterial”, explicou o pai dos Jogos, Pierre de Coubertin. Tão imaterial quanto a impressionante longevidade de um miúdo madeirense de dentes tortos e cabelo mal pintado, que chorou baba e ranho depois de sair da ilha para jogar à bola. E nunca mais parar.

Desde que começou a carreira de futebolista, a vida de Cristiano Ronaldo tem sido mais rápida, mais alta, mais forte. São 14 anos de jogos constantemente ao mais alto nível: em Lisboa foram 31, em Manchester 40, 50, 47, 53, 49 e 53, e em Madrid 35, 54, 55, 55, 47, 54 e 48.

A calculadora diz-nos que isto são 671 jogos em duas pernas e ainda nem somámos os 12 desta época e as 135 internacionalizações pela seleção portuguesa (amanhã há mais uma, frente à Letónia, às 19h45), que completam o incrível número de 818 jogos. Tempo de parar? De continuar, esclarece Ronaldo. “Não foi o meu último contrato, que fique claro”, disse o extremo/avançado do Real Madrid depois de renovar esta semana até 2021 com o clube espanhol, aos 31 anos.

Daqui a cinco anos, Ronaldo terá 36, mas ainda tem planos para completar muito mais jogos. No Real, nos EUA, na China? Logo se vê. “Talvez depois dos 41 venha fazer uma perninha no Sporting”, disse. Pondo isto por miúdos: Ronaldo começou a sério em 2002 e quando chegarmos a 2026 ainda quer estar a jogar. Sim, 24 anos depois. “Acho que sim, ele tem todas as condições. Para já, é um grande profissional, e o rendimento que tem só é possível num profissional mesmo de elite”, diz ao Expresso Silas, o mais velho dos jogadores que atuam nas ligas profissionais portuguesas, com 40 anos. “Só com muito cuidado com o corpo é que é possível”, acrescenta o jogador do Cova da Piedade, equipa da 2ª Liga. “Também é certo que ele, e outros que jogam ao nível dele, estão acompanhados pelos melhores.

Um desses homens que acompanhou o percurso de Ronaldo desde o início foi João Aroso, ex-adjunto da seleção entre 2011 e 2015, e do Sporting entre 2002 e 2010, com uma passagem pelo AEK da Grécia (com Fernando Santos), em 2004. “Não digo que ele seja diferente, mas tem uma série de características especiais que fazem com que todas as épocas jogue mais de 50 jogos, quase sempre sem gestão de esforço, porque ele quer jogar sempre”, explica ao Expresso. “Se ele não tiver problemas com lesões, pode perfeitamente jogar até aos 41.”
É que Ronaldo não é apenas um futebolista dedicado — é um futebolista obcecado. “Ele sempre foi um jogador muito preocupado com as questões que o ajudariam a recuperar do esforço físico. Era o primeiro a querer fazer crioterapia, a cuidar da alimentação, a cumprir todas as horas de sono indicadas... Ele estava sempre consciente e é um exemplo neste tipo de questões que potenciam o rendimento”, conta João Aroso.

O velho novo Ronaldo à semelhança do velho novo Figo

O Ronaldo franzino de pernas bamboleantes que fintava toda a gente nos corredores laterais de Alvalade e Manchester foi sendo substituído por uma espécie de culturista com uma potência inigualável e uma enorme apetência pela finalização. E a metamorfose não ficará por aqui. “Não vai ser o mesmo Ronaldo. Vai chegar a uma altura em que começará a perder algumas qualidades físicas, o que é normal, como a velocidade e a potência. Vai ter que se adaptar e adaptar o jogo dele. Acontece a toda a gente”, diz Silas, que também teve de se adaptar e que recorda bem a mudança num outro ídolo português: Luís Figo. “Houve ali uma altura em que ele já não estava a perceber o porquê de já não conseguir fazer certas coisas que fazia. O Figo era muito forte nos duelos, no um contra um. Depois adaptou-se, porque é muito inteligente e manteve-se a um nível elevado, teve de começar a ir menos para o drible. E o Ronaldo vai passar por uma fase dessas também. Ele apanha a bola na área dele e ainda consegue fazer um pique de 70 metros, da mesma maneira. Com o tempo isso vai acabar, ou em vez de fazer 40 metros, faz só quatro ou cinco”, acrescenta.

João Aroso concorda. “Em termos de características físicas ele é muito rápido, portanto nunca vai ser um jogador lento, apesar de ir perdendo velocidade ao longo dos anos, o que é perfeitamente humano. A tendência será jogar cada vez mais perto da área adversária, ficando em zonas de finalização. Aí, mesmo com idade mais avançada, vai continuar a enganar os defesas, fruto da sua capacidade de finalização e da sua experiência”, explica o treinador.
Cristiano Ronaldo está no Real desde 2009 e já é o melhor marcador de sempre do clube, com 371 golos em todas em competições, e é o melhor marcador da seleção, com 66 golos. É por isso — pelos golos — que poderá continuar a ser o avançado indiscutível de Portugal: no Mundial 2018, no Euro 2020, no Mundial 2022, no Euro 2024... e no Mundial 2026.

Impossível? Com Ronaldo nunca se sabe. É que o miúdo que começou a jogar com Figo, Rui Costa, Fernando Couto e Pauleta (e Ricardo Carvalho, o mais velho da seleção, com 38 anos) já é o capitão que integra André Silva, Gelson, Renato e Cancelo. “A grande questão serão as lesões, mas ele não tem tendência para isso. É raro manter um rendimento ótimo sem descansar, com a densidade competitiva que existe atualmente. Mas Ronaldo é tão focado em bater recordes que essa pode também ser um razão para continuar a jogar por tanto tempo.” Voltando a Coubertin: “Este é um lema para quem se atreve a querer quebrar recordes”. Citius, Altius, Fortius. Ronaldus.