Tribuna Expresso

Perfil

Ronaldo

Ronaldo leva a bola para casa, outra vez

Cristiano Ronaldo é o melhor jogador do mundo para a revista que inventou a Bola de Ouro. É a quarta (2008, 2013, 2014 e 2016) que ele conquista. Seis primaveras volvidas, o português volta a vencer o troféu da “France Football” e pode, de novo, ganhar dois prémios de melhor jogador do mundo no mesmo ano

Diogo Pombo

Comentários

David Ramos

Partilhar

Em tempos houve um tempo em que uns jornalistas franceses arranjaram a necessidade de dizer quem era o melhor. Revestiram uma bola com ouro, inventaram um troféu bonito. Mas, durante um tempo, não levantaram o pescoço nem desviaram o olhar do próprio umbigo, que apenas os deixava chutar essa bola com a barriga para quem tinha nascido na Europa.

Esse tempo durou 42 anos, demasiado tempo até chegar o tempo em que qualquer um o pôde passar a ganhar. Tirando as palas dos olhos, o prémio, que já era popular e tido em conta, adquiriu ainda mais prestígio e tornou-se (de vez) aquele que todos os jogadores queriam ganhar e todos os adeptos queriam saber quem ganhava. Foi durante esse tempo que toda a gente quis saber, e viu, Cristiano Ronaldo a sorrir.

O ano era 2008 e ele, engatado numa forma física invulgar, começou a ser o que muito poucos eram. Misturou o que tinha de extremo com as coisas de avançado que queria ter e, partindo perto de uma das linhas do campo, acabou uma época com 42 golos marcados, ganhando um campeonato e uma Liga dos Campeões. Vimo-lo a sorrir com a Bola de Ouro na mão e a agradecer à France Football e aos jornalistas a quem a revista pedira para votar no melhor jogador do mundo.

Antes de o vermos assim, havia muita outra gente a invejar a atenção que ele, o prémio e a revista recebiam. A FIFA inveja o prestígio que a Bola de Ouro acumula com os anos, ainda mais a partir de 1991, quando cria o seu próprio prémio e vê como ninguém lhe liga tanto, ou como é uma mera consolação nos raros anos em que o entrega a alguém diferente. Por isso, em 2010, arranjam maneira de se colar à France Football. Durante seis anos há uma Bola de Ouro da FIFA.

Denis Doyle

Esta história, que tem meia dúzia de episódios, tem de ser contada para explicar o que Ronaldo era e o que é hoje. Um ano antes dos prémios se fundirem, vê um pequenote a ganhar a bola da revista francesa sendo muito, mas muito, melhor do que ele. Fá-lo fintando, ziguezagueando e parecendo que é batota a forma como a bola não lhe descola do pé, e que não é humano o ar de menor esforço com que aparenta lograr tudo.

Cristiano percebe entre ele e o prémio que o faz ser o melhor fora da cabeça dele, está Lionel Messi. E para o bater e se manter perto do nível do argentino, vai para perto do obstáculo que se livre de adversários como se fossem cones. Força a ida para Madrid e, a meias com os jornais que querem vender e as marcas que pretendem lucrar, rivaliza ainda mais dois clubes e duas fações de adeptos que já são rivais há décadas.

Ronaldo, que é mais alto, mais forte, mais atlético e mais pesado que Messi, entende que a agilidade e a física jogam contra ele. Percebe que o tempo, mais cedo do que tarde, o faria perder nos dribles, nas fintas, nos raides com bola e nas missões contra o mundo que vão parar a vídeos do YouTube. Esforça-se a velocidade, a explosão, a força de remate, a impulsão e as horas no ginásio lhe darem o troco em golos. Em algo que se quantifique no papel e não seja só qualitativo para quem vê.

Arranca a era dos mais de 50 golos por época, das dezenas de assistências, dos golos em finais e jogos grandes, de Cristiano a distanciar-se de toda a gente menos de quem interessa. Ele puxa por Messi e o argentino, vendo Ronaldo a esforçar-se para lhe bater o pé, também vai batendo os seus próprios números, como os 91 golos que marca em 2012. E o talento que lhe é mais natural e não tão trabalhado, como do português, vale-lhe quatro Bolas de Ouro - três delas seguidas, 2010, 2011 e 2012. Pelo meio, duas (2013, 2014) vão para o português.

QUIQUE GARCIA/Getty Images

Eles são como duas luas à volta das quais gravita um planeta onde está o resto das pessoas. Por cada Neuer, Ribéry, Neymar, Bale, Griezmann ou Suárez que se enfia num foguetão e desafia a gravidade, há um dos extraterrestres, ou ambos, que carrega nos golos e nas assistências. Nos números que hoje parecem valer mais que o talento de quem se supera e tem mérito por isso.

O problema está no difícil que é atribuí-lo a alguém que fique aquém do que Cristiano e Lionel conseguem - como os 51 golos e 17 assistências que o português com que o português vai, em 2016, mais os 58 remates e os 32 passes que interessam na conta do argentino.

Fica difícil alguém merecer tanto o prémio como eles.

Como também a “France Football” achou difícil continuar associada a uma organização em que os líderes trocavam subornos, favores e leviandade para com a corrupção. Há uns meses, a revista anunciou o corte com a FIFA e a restituição da Ballon d’Or, dita e pronunciada em francês. E porque ganhou a Liga dos Campeões, do qual foi melhor marcador, e conquistou o Campeonato da Europa que terminou magoado e a chorar, Cristiano Ronaldo pode voltar a levar essa bola para casa - ou para o museu que tem na Madeira - e colocá-la ao lado da que venceu em 2008.

As contas entre os dois que parecem interessar a toda a gente estão, agora, num cinco a quatro. Ronaldo já pode levar a bola para casa.

A classificação final para a Bola de Ouro da “France Football”:

1.º Cristiano Ronaldo (Portugal/Real Madrid)

6.º Gareth Bale (País de Gales/Real Madrid)

7.º Riyad Mahrez (Argélia/Leicester)

8.º Jamie Vardy (Inglaterra/Leicester)

9.º Gianluigi Buffon (Itália/Juventus) e Pepe (Portugal/Real Madrid)

11.º Pierre-Emerick Aubameyang (Gabão/Borussia Dortmund)

12.º Rui Patrício (Portugal/Sporting)

13.º Zlatan Ibrahimovic (Suécia/Manchester United)

14.º Arturo Vidal (Chile/Bayern de Munique) e Paul Pogba (França/Manchester United)

16.º Robert Lewandowski (Polónia/Bayern de Munique)

17.º Toni Kroos (Alemanha/Real Madrid), Luka Modric (Croácia/Real Madrid e Dimitri Payet (França/Real Madrid)

(A revista francesa informou que 11 jogadores não receberam qualquer voto. À hora a que Cristiano Ronaldo foi confirmado como o vencedor, a “France Football” ainda não tinha revelado quem ficou entre o 2.º e o 5.º lugar.)