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O senhor Aurélio Pereira e o miúdo que não se ficou

Alguém foi considerado o melhor jogador do mundo - pela segunda vez em menos de um mês. Achamos nós, e acha ele, o homem a quem esse alguém ainda chama de "senhor". Aurélio Pereira contou-nos a história do primeiro treino que viu um rapaz de 12 anos fazer no Sporting. Nem o viu até ao fim, porque esse alguém era Cristiano Ronaldo e deixámo-lo falar sobre ele

Diogo Pombo

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"Quando o Cristiano foi ao Sporting, eu era o responsável por todo o futebol juvenil. Tinha sido treinador durante muitos anos e, na altura, recebíamos muitos miúdos da Madeira e dos Açores, para treinarem connosco e serem observados. Tínhamos uma pessoa na Madeira, um homem muito dedicado, que nos indicava nomes. Vinham muitos prestar provas e, praticamente todos eles, mais de 90%, tinham à volta de 16 anos.

Na altura, não tinhamos academia. Tínhamos um centro de estágio, com algumas limitações. Os miúdos vinham com essa idade porque, mais novos, não podiam estar lá.

Para trás de 2002, quando a Academia foi inaugurada e a entrada de miúdos passou a ser aos sub-14, nunca tivemos, à nossa responsabilidade, uma criança com 11 ou 12 anos. Mas aconteceu uma exceção, mais única do que rara.

Eu tinha em meu poder um dossier do gabinete jurídico, que estava pendente. Era a questão de uma dívida de cinco mil contos, o que, na altura, era muito dinheiro, que o Nacional da Madeira tinha para connosco. E veio cá um miúdo com uma intenção - ou ele ficava, ou o Nacional nos pagava o dinheiro. Esse miúdo chegou sem saber ao que vinha, coitado, e numa missão quase impossível.

Quando o presidente do núcleo da Madeira, que ao mesmo tempo era sócio do Nacional, me colocou essa situação, só aceitei por uma questão de respeito ao homem. Porque chegavam cá miúdos com 15 ou 16 anos que, no dia seguinte, já tinham a mala feita para irem embora.

Mas, à vista desarmada, ter um miúdo que, antes, fez uma série de coisas para deixar algumas pessoas impressionadas, é uma coisa; perceber o que está dentro do ser humano, é outra. Hoje há uma certeza que tenho - é a que tenho dúvidas. Há muitos aspetos que influenciam a carreira de um miúdo para o bem, ou para o mal. O sucesso, às vezes, está por um cabelo. Portanto, tendo eu essa responsabilidade, com o miúdo já em Lisboa, tive o bom-senso de ir ver o miúdo.

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Não assisti ao primeiro treino. Os treinadores disseram-me que o miúdo era fantástico, que o tinha de ver. Eu nunca iria apresentar uma proposta daquelas à administração se, antes, não o visse. Portanto, tinha que o ver com os próprios olhos. O melhor olheiro do mundo é São Tomé: ver para crer, já diz o ditado.

No dia seguinte, fui lá.

No treino, quando eles começaram a jogar, só constatei o que me tinham dito. Tinha tudo o que vinha no menu: alta relação com a bola, velocidade de execução, velocidade pura de deslocamento, magia, grande sentido de jogo e já algumas capacidades no cabeceamento. Já tinha coisinhas de quando, mais tarde, foi comparado ao Di Stéfano. Mas houve um detalhe que me impressionou - a forma como tratou os outros.

"Ó miúdo, passa a bola. Ó miúdo, troca a bola". Ele, mais novo que os outros e chegado ali no dia antes, já tratava os outros por "miúdo". Ele, que estava a sofrer uma marcação dura de um miúdo que lá tínhamos, o João Oliveira, que era grandão, sentiu-se incomodado, virou-se para trás e disse: "Ó miúdo, tem calma". Aquilo era personalidade, batia tudo certo.

Perante aquilo, e, logicamente, sem saber o que iria acontecer, fiz a primeira pergunta que sempre faço a mim mesmo quando olho para um miúdo: pode ele, um dia, vir a ser jogador do Sporting?

Ele era um miúdo de rua, tinha as manhas da rua. A resposta na ponta da língua. O dizer logo quando não gostava de uma coisa. Também nasci num bairro e se nos atiram uma pedra, nós atiramos duas. Não há medos. E estava ali, à minha frente, essa personalidade.

Nem cheguei ao final do treino. Fui fazer a proposta, por escrito, ao doutor Simões de Almeida, o diretor financeiro, a sugerir a troca. No outro dia, ele chamou-me, bem, a testar-me. Eram cinco mil contos em 1997, era muito dinheiro. Expliquei-lhe que não me sentia confortável se não fizesse essa proposta. Ele pressionou-me e, em cima do que já tinha escrito, mandou-me fazer, com o meu punho, um parecer sobre isto.

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E as coisas andaram.

Recebemos um miúdo com 12 anos num espaço onde só estavam miúdos com 15, 16 e por aí fora. Na questão técnica, assunto arrumado. Na outra, tive que ir saber mais. Qualquer treinador de formação que não conheça os seus jogadores e não sabe que ser humano eles têm dentro, não vai ter sucesso. Tem que saber quem é, o que faz, como é a família, tudo. Caso contrário, não tem hipótese.

Desloquei-me à Madeira no dia 7 de julho de 1997. Curiosamente, o sete já lá estava, o noventa e sete também, são coincidências [Cristiano Ronaldo veste sempre o número sete e, em 2009, foi transferido do Manchester United para o Real Madrid por 97 milhões de euros, sem impostos]. Aproveitando uma deslocação da equipa de juniores do Sporting, marquei um encontro com ele, a dona Dolores e os irmãos, num hotel do Funchal.

Foi aí que conheci a família e percebi a mãe que ele tem. Uma mulher com uma personalidade fantástica, de quem ele bebeu muita da força, da tenacidade e da personalidade da dona Dolores. Sendo mãe de uma vedeta, ela nunca se colocou do lado de um menino que, às vezes, vai fazer queixinhas ao papá e à mamã porque não jogou, ou por isto, ou por aquilo. A super proteção destrói um jogador de competição. A partir daí, a amizade com a família foi aumentando.

Nunca lhes cobrei nada, só o respeito e a amizade.

Todos os jogadores que saem daqui para o estrangeiro não esquecem o quanto o Sporting lhes marcou na vertente social e humana. É uma marca nossa que prende muito mais do que qualquer proposta financeira. Os jovens sentem isso. O Cristiano trata-me por senhor Aurélio, como toda a gente.

E com certeza que, esta segunda-feira, lhe vou enviar outra mensagem de parabéns. Seria uma injustiça se não vencesse. Estes últimos dois anos foram arrasadores, ele passa a duzentos à hora pelos recordes, nem têm tempo de o ver. Na primeira Bola de Ouro, eu, o Fernando Gomes, do FC Porto, e o Eusébio, fomos ao Funchal, para a entrega do prémio. Em 2004, quatro anos antes, assumi pela primeira vez que o Cristiano ia ser o melhor jogador do mundo, curiosamente ao Notícias da Madeira.

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Ainda no Sporting, ele sempre manteve uma insatisfação por jogar na equipa principal. Tinha sempre a mesma bitola de empenhamento, trabalho e espírito de sacríficio. Ganhar uma Bola de Ouro pode acontecer. Manter esse nível é o mais difícil, porque a rotina destrói qualquer pessoa que, todos os dias, faz a mesma coisa e, por vezes, não tem evolução. A fadiga é o aspeto que mais condiciona a carreira dos jogadores e ele não recupera de jogo para jogo, mas de treino para treino. Para mim, a grande diferença está aí.

Em miúdo, ele era o melhor no futebol, no ping-pong, nos matraquilhos, no bilhar. Se perde qualquer coisa, qualquer joguinho de computador, não descansa enquanto não o ganhar de volta. Está sempre a desafiar. É um eterno insatisfeito e, dentro do balneário, tem uma capacidade impressionante de fazer passar as mensagens aos colegas. Gosta de comandar, mas com amizade. A grande arma dele é que não ignora os outros.

No futebol, nem todos os treinadores sabem treinar vedetas. Tem muito mais a ver com a comprensão, o partilhar conhecimentos, o pedir-lhes a opinião e o deixá-las participar. É fulcral. Porque, desse modo, o comandante não partilha com eles apenas onde cada um vai jogar, mas sim os interesses da equipa. O Cristiano adora isto. Se olha para quem o comanda e sente essa aproximação, isso é determinante. Como foi o caso neste Europeu.

O que interessa os pulos e os empurrões quando no meio está o respeito e a amizade?

Um malandreco não estrilha, muda de esquina, como se dizia no meu bairro. Mais do que as longas conversas e palestras que nunca acabam, em que as pessoas olham para o futebol como uma ciência oculta, o futebol é um jogo simples. O que é complicado é torná-lo simples."