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Ronaldo

Não seremos nós a acabar com a carreira de Ronaldo, será ele a acabar connosco

Não sendo outro, Ronaldo parece outro, outra vez. Golos, títulos individuais e coletivos, e a ideia de que ele poderá ser eterno é cada vez mais provável

Pedro Candeias

JAVIER SORIANO

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Não sei a velocidade e a intensidade a que funciona o cérebro de Cristiano Ronaldo, mas é natural que seja muito mais rápido e melhor direcionado do que o meu. Sei do que falo. Demoro-me a articular vocalmente, por vezes gaguejo, e tenho de ser constantemente lembrado de que o caminho é para a esquerda e não para a direita quando vou na estrada.

Ronaldo, não.

Ronaldo resolve a vidinha dele em nanosegundos, acerta em cheio no que faz, e sabe para onde vai mesmo que isso implique ajustes na direção.

Por outro lado, não sei de que matéria é feito Cristiano Ronaldo, mas é provável que os seus músculos, fibras e ossos sobrevivam aos meus muito além daquilo que a nossa diferença de idades (32 e 37) faz supor. Uma vez mais, sei do que falo, e os meus joelhos também.

E esta dialética do “Eu contra Ronaldo” podia prosseguir, eu a sentir-me cada vez mais distante dele e ele a borrifar-se para tudo isto, portanto encerro-a com a maior diferença que encontro entre os dois: a confiança.

Ou melhor, a autoconfiança, e aqui acho que não estou sozinho. Só um tipo mentalmente inquebrável se manteria impassível quando é assobiado, gozado, provocado e criticado. Constantemente assobiado, gozado, provocado e criticado.

Acontece que Ronaldo não é um homem como nós, porque os génios não são como nós.

Ele derrubou as convenções impostas pelo lugar, bairro, cidade, ilha e país onde nasceu, sobreviveu à fase do menino-prodígio, que esmaga os talentos mais deslumbrados, e construiu-se como um dos melhores futebolistas do mundo.

Depois, duas Bolas de Ouro depois, Ronaldo ultrapassou uma lesão crónica e os limites do razoável com títulos e distinções individuais - entre as quais, outras duas Bolas de Ouro - quando os que escrevem, como eu, se armaram em tarólogos, imaginando um futuro sem ele.

Só que ele continuou a marcar muito, mais do que alguns grandes clubes, e a ganhar coisas, e nós deixámos a coisa passar entre os intervalos da chuva – como se não lhe tivéssemos prognosticado o fim após o Mundial de 2014.

Não são curiosidades, são factos: há apenas 22 equipas com mais golos do que ele na Champions e o Atlético de Madrid é umas das que têm menos. Ronaldo tem 400 golos pelo Real, 281 na Liga, 88 na Champions, 2 nas Supertaças Europeias, 22 na Taça do Rei, 3 na Supertaça de espanha e 4 no Mundial de Clubes.

Chamam-lhe Máquina.

Foi o colega Toni Kroos que o disse após o hattrick ao Atlético: “Podes fazer tudo bem, defender, mas é preciso alguém que faça golos. E o Ronaldo marca sempre”. Imaginem, um alemão absolutamente rendido ao português que nos quartos-de-final eliminou o maior clube da Alemanha com cinco golos há umas semanas. Acontece no futebol.

Ronaldo é o Michael Jordan do futebol, porque CR7 transformou um jogo coletivo num jogo individual tal como o MJ fez nos Bulls. Os colegas também sabiam que quando a coisa apertava, a solução era pôr a bola nas mãos de Michael; hoje, a malta do Real Madrid sabe que quando o jogo está complicado, Cristiano descomplica-o porque ele próprio descomplicou o seu jogo.

Estes são outros atributos de Ronaldo que não medi no início do texto: a inteligência e a capacidade de adaptação. Ele foi um extremo rápido cheio de truques, transformou-se num extremo com golos e agora é um avançado goleador. Não consegue fazer os sprints dantes, nem precisa deles; explode em espaços curtos e aproveita o instinto que apurou, de certeza, com horas e horas e horas obcecadamente a rematar à baliza, com a cabeça, com o pé esquerdo, com o pé direito.

Não sendo outro, Ronaldo parece outro, outra vez. Ele é o rei camaleónico, dos penteados mil e das metamorfoses futebolísticas, e o mais provável é ele fintar-nos a todos novamente no futuro.

Não seremos nós a acabar com a carreira de Ronaldo, será ele a acabar connosco.

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