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Ronaldo

É por isto que ele vai ser o maior

Números. Se hoje o futebol é feito deles, uma parte da culpa é de Cristiano Ronaldo, que está na sua quinta final da Liga dos Campeões depois de o Real Madrid ultrapassar a eliminatória contra o Atlético, esta quarta-feira

Diogo Pombo e Marco Grieco

infografia Marco Grieco

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A televisão está ligada. Os pais encontram-se fora, o dia ainda os ocupa com o trabalho, e coube ao avô ir buscar o neto à escola. Agora, faz-lhe companhia. Ele deixa a poltrona amparar os ossos gastos, o miúdo senta-se no chão, fica no tapete que está mais perto da televisão. Pernas cruzadas, olhos bem abertos, a atenção toda no aparelho. Está a dar futebol, e a diferença de idades e de vivências e de coisas que a vida mostrou a um e a outro fazem com que as perguntas e as respostas circulem sempre no mesmo sentido.

O neto vê passes, fintas, remates, faltas e coisas espetaculares a acontecerem. Vê todos a fazerem o que podem, mas repara que um faz mais do que os restantes. Quem é aquele, e porque é que é tão melhor do que os outros, e como é ele capaz de fazer o que os outros não fazem? O paciente avô vai respondendo e esbugalhando os olhos à criança, que os acende mais quando o ouve dizer: “Devias ter visto o Cristiano Ronaldo jogar. Eu vi.”

Esse neto, um dia, fui eu, e na boca do meu avô esteve a paciência de me contar quem tinha sido o Eusébio e de o magnificar. E chegará o dia, goste-se ou não, em que teremos de explicar a netos curiosos por futebol o azar que tiveram em nascer umas décadas para lá do tempo de Ronaldo. O extraterrestre mascarado de homem e que esta semana voltou a ser o primeiro a fazer alguma coisa — neste caso, a marcar hat-tricks em duas fases seguidas a eliminar da Liga dos Campeões.

Portanto, quando chegar a nossa vez de explicar, será mais ou menos assim:

O Cristiano Ronaldo foi um jogador-caçador, porque nunca parou de ir atrás do melhor e do que o obrigava a superar-se, uma e outra vez e sempre. Ganhou três Ligas dos Campeões em dois clubes enormes e um Campeonato da Europa com o país dos jogadores e das promessas boas, que sempre prometera títulos mas que nunca os cumprira. Quis ser o melhor no futebol, que se joga em equipa e em que nada se consegue sem os outros, mas insistiu que puxar por ele próprio era puxar por quem jogava com ele.

Ganhou quatro Bolas de Ouro, e os mais de 500 golos que obteve fizeram dele o melhor marcador de sempre do Real Madrid, de Portugal e da competição que todos os clubes querem ganhar. Podia dizer, também, que teve um problema, de seu nome Lionel Messi, porque ao mesmo tempo que o Ronaldo chegava a estes recordes redondos o argentino atingia os dele. Mas não. Eles eram o yin e o yang, a água a que iam beber, e soubemos que viviam obcecados com o que o outro fazia para fazerem melhor.

Ronaldo, forte e musculado dentro de um corpo que construiu para as fintas e as trocas de direção, percebeu que o tempo jogava contra ele e a favor do estilo de Messi. Por isso, moldou a força e os músculos para a área, os remates, a explosão e a desmarcação. Ele e o argentino obrigaram-nos a que fôssemos medindo o futebol pelos números que apenas eles conseguiam.

E, neto, só para teres uma noção, quando o Ronaldo tinha 32 anos, estes já eram os dele...

Texto publicado na edição de 6 de maio de 2017 do Expresso