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Ronaldo, o maior português vivo. Por Pedro Adão e Silva

“Nunca exibiu falsas modéstias, nem muito menos cultivou a humildade que tanto satisfaz a pequenez nacional. Escolheu vencer e assumir toda a vida como uma competição individual, disputada com determinação, trabalho e superação. Também aqui, Cristiano é o não-português.” Pedro Adão e Silva explica por que motivo Ronaldo é um português atípico. E também porque é o maior português vivo

Pedro Adão e Silva

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CR7: um português atípico

Na véspera da final de Cardiff, o lateral direito da Juventus, Dani Alves, publicou no “The Players’ Tribune” um texto notável onde contava um segredo. Como escreve o próprio, “mano, eu vim da puta que pariu”. Num testemunho comovente, o brasileiro recuperava uma vida nascida nas agruras e condenada à miséria. A pobreza absoluta e uma história de vida que, como todas as outras, seria marcada pelas suas circunstâncias. A pobreza é mesmo uma armadilha, da qual quase ninguém se liberta.

Mas, como prova o Dani Alves, o futebol pode ser libertador – é preciso ter talento, mas não chega, este tem de ser sustentado por uma vontade férrea de superar as dificuldades. As vitórias vivem de um dom inato, mas alimentam-se a trabalho e sacrifício.

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Dani Alves explica o que o move, ainda hoje, muitas conquistas depois e com 34 anos alimentados a glória: “Pouco antes de cada partida, eu sigo a mesma rotina. Eu fico de frente ao espelho por cinco minutos e bloqueio tudo o resto. Então um filme começa a rodar na minha cabeça. É o filme da minha vida.”

A história é de Dani Alves, mas podia bem ser a de Cristiano Ronaldo. Ninguém vence tanto, durante tanto tempo, movido apenas a talento. Pelo contrário, há mais talento por aí do que se pensa e o que faz a diferença é mesmo a capacidade de trabalho e um desejo paradoxal de se libertar e preservar o lugar de onde se veio. Ter vindo de baixo, ter inscrita a marca genética da pobreza, mas não a esconder nem renegar, ajuda a explicar o sucesso contínuo e sem paralelos de Ronaldo.

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Sendo o maior português vivo, Ronaldo é, contudo, um português atípico. As suas qualidades são raras entre nós.

Desde logo uma determinação única para aprender e mudar. Começou por ser um driblador estonteante, com artifícios técnicos com poucos paralelos, e durante a carreira transformou-se num jogador radicalmente diferente. Percebeu o jogo e o seu lugar no futebol e, como talvez nenhum outro jogador, evoluiu para atingir o topo da carreira como o melhor finalizador da história da modalidade.

Depois, nunca exibiu falsas modéstias, nem muito menos cultivou a humildade que tanto satisfaz a pequenez nacional. Escolheu vencer e assumir toda a vida como uma competição individual, disputada com determinação, trabalho e superação. Também aqui, Cristiano é o não-português: em lugar das desculpas e da culpabilização dos outros pelos seus fracassos, arrastou todos à sua volta, colocando-se no centro de conquistas coletivas. Os seus golos são, por isso, o centro do mundo. Do seu, mas também do que constrói para os outros à sua volta e aos quais atribui um papel secundário.

O grito é do Dani Alves, mas nele escutamos ecos da vontade indómita do Cristiano. Em cada vitória é isso que ele, com propriedade, nos atira à cara: “Mano, eu vim da puta que pariu. E estou aqui agora. É irreal, mas eu estou aqui.”