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A história de Ronaldo contada na primeira pessoa: “Senti-me o menino querido da família”

Cristiano Ronaldo escreveu um texto para o site “The Players' Tribune” em que recorda o início do seu percurso, na Madeira e em Alvalade, e diz que o melhor momento da carreira foi vivido com o seu filho, no relvado

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A MELHOR EXPORTAÇÃO DA MADEIRA. Cristiano Ronaldo chegou ao Sporting com 12 anos e estreou-se na equipa principal com 17

d.r.

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É possível resumir uma carreira de 15 anos ao mais alto nível num simples texto? É, se esse texto for escrito pelo próprio, descrevendo o que sentiu ao longo do seu percurso.

Foi o que Cristiano Ronaldo fez no site "The Players' Tribune", em espanhol e em inglês - não há versão em português, ainda que o jogador do Real Madrid utilize uma expressão bem portuguesa, sobre o primeiro sentimento que teve enquanto jogador, no Andorinha: “Menino querido da família”.

A história começa assim: "Tenho uma memória muito forte de quando tinha 7 anos. Tão forte que, quando fecho os olhos, imagino-a e emociono-me. Tem a ver com a minha família”.

É certo que Ronaldo recorda todos os momentos da sua carreira, entre o Andorinha e o Real Madrid, mas não é propriamente no futebol que se foca: é na família. "O meu pai estava sempre lá para me ver, mas a minha mãe e as minhas irmãs não se interessavam minimamente por futebol. Todas as noites, o meu pai tentava, durante o jantar, convencê-las a irem ver-me [...] Elas diziam "está bem", mas não pareciam convencidas", recorda.

Mas, um dia, Ronaldo teve uma surpresa. "Ia sempre olhando para a bancada antes do jogo e via sempre o meu pai sozinho, de pé. Até que um dia - nunca mais me vou esquecer desta imagem - enquanto aquecia, vi a minha mãe e a minha irmã lá sentadas. Pareciam... Nem sei como dizer. Cómodas? Nem aplaudiam nem gritavam, só me acenavam, como se fosse um desfile ou assim. Notava-se que nunca tinham ido ao futebol. Mas estavam ali. E só isso me importava", relata o capitão português.

"Senti-me tão bem nesse momento. Significou muito para mim. Algo mudou em mim. Senti-me orgulhoso. É certo que não tínhamos muito dinheiro nessa altura e a vida não era fácil na Madeira. Jogava com botas velhas do meu irmão ou dos meus primos. Mas quando és criança não queres saber de dinheiro. Só queres sentir-te de determinada maneira. E, naquele dia, senti-me assim. Senti-me protegido e querido. Como dizemos em português, [esta expressão está mesmo escrita em português] menino querido da família".

A família de Cristiano Ronaldo

A família de Cristiano Ronaldo

Matthias Hangst/Getty

Cristiano recorda também a mudança para a Academia do Sporting, em Lisboa, algo que agora que tem um filho lhe parece inimaginável. "Tinha onze anos no dia em que mudei da ilha para Lisboa e foi a etapa mais difícil da minha vida. Parece uma loucura quando o relembro. O meu filho, Cristiano Júnior, tem sete anos agora. Só pensar como me sentiria se daqui a quatro anos estivesse a fazer as malas para mandá-lo para Paris ou Londres... prefiro nem imaginar. Estou certo que foi muito duro para os meus pais", escreve, gracejando depois com as presenças da mãe nos seus jogos.

"Vinha ver-me a Alvalade e ficava tão nervosa que desmaiava. O médico receitou-lhe tranquilizantes. E eu dizia-lhe: 'Lembras-te quando não ligavas nenhuma a futebol?'"

Ronaldo diz mesmo que o facto de ter sido pai mudou a sua maneira de ver a vida - e que quer que agora Cristiano Júnior seja "o menino querido da família", explica. "Quando és pai, a sensação é completamente diferente. Uma sensação que não consigo descrever. É por isso que a minha presença em Madrid é especial. Fui futebolista, sim, mas também fui pai".

Cristiano Ronaldo com o filho, Cristiano júnior

Cristiano Ronaldo com o filho, Cristiano júnior

David Ramos/Getty

"Há um momento com o meu filho que vai ficar gravado na minha memória para sempre. Quando penso nisso, emociono-me. Foi depois de termos conquistado a última Champions, em Cardiff. Tínhamo feito história. Depois do apito final, senti que tinha mandado uma mensagem ao mundo. Mas depois o meu filho entrou em campo para festejar comigo... e o meu sentimento mundo num instante", confessa.

"Agarrámos o troféu juntos e depois passeámos pelo campo de mão dada. É uma alegria que nunca tinha sentido antes de ser pai. São tantas as emoções que não sei descrevê-las. Só posso comparar com aquele momento na Madeira, quando estava a aquecer e vi a minha mãe e as minhas irmãs na bancada", acrescenta Ronaldo. "Espero que o meu filho sinta como me senti eu nesses momentos: o menino querido da família".

Pode ler o relato completo de Ronaldo no "The Players' Tribune", em espanhol ou em inglês.