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Ronaldo

Os estranhos 2,7% de Ronaldo

Este número percentual é o que se retira entre as vezes que Cristiano já rematou, esta época, na liga espanhola, e os golos que marcou. Apenas entrou na baliza uma bola pontapeada por ele e isso não é, de todo, normal - ou conveniente, porque este sábado, em Madrid, há um Atlético-Real (19h45, Sport TV2)

Diogo Pombo e Carlos Esteves

GABRIEL BOUYS

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Estamos na esquina da área, à esquerda, em plena corrida. Alguém acabou de fixar um adversário e de nos endereçar a bola. O passe vem para o pé, demasiado direto ao alvo, exige uma receção e a primeira de muitas escolhas: receber com um pé ou o outro; orientar a bola para o esquerdo ou o direito; com que parte do membro a rematar logo de seguida, e como e para onde; ver, de relance, a posição do guarda-redes; achar o melhor momento para disparar.

Temos de pensar, analisar e processar estas variáveis durante um segundo, às vezes nem isso. É preciso decidir perante o tipo com umas luvas vestidas, por norma grande, largo em envergadura, ágil e habituado aos nossos truques, que guarda um retângulo com 7,32m de largura e 2,44m de altura para o qual queremos chutar a bola. E, neste caso, é um segundo simples, porque se no futebol existe simplicidade ela mostra-se quando um jogador tem a bola sozinho, sem adversários perto, de frente para a baliza, na área, apenas com o guarda-redes à frente.

Só que nem isso é tão simples quanto pensa quem está sentado, no estádio ou em casa, a ver-nos nesse segundo. Não vê a ânsia, o receio de falhar, os nervos, a dúvida, a hesitação que podemos sentir, coisas que não se treinam para sentirmos porque, nos treinos, elas não existem. Não há a tensão, os pontos em jogo, as câmaras a apontar, as 67 mil pessoas a gritarem num Wanda Metropolitano ensurdecedor, a discussão que pudemos ter tido com a nossa mãe, ou namorada, o nosso filho que pode estar doente e a passar mal.

E tudo até aqui poderia ter sido escrito por Cristiano Ronaldo.

Marcar golo parece fácil - é o simples ato de fazer a bola entrar numa baliza. Difícil é fazê-lo parecer tão simples, como ele tem feito desde que chegou ao Real Madrid. Desde 2009 vão oito épocas, nas quais marcou 33, 53, 60, 55, 51, 61, 51 e 42 golos, respetivamente, que somados aos 12 que leva nesta temporada dão os 414 que o têm como melhor marcador da história do clube. E como o faz, também, Lionel Messi, que no sábado estará a uns meros 23 quilómetros de distância em autoestrada, nos arredores de Madrid.

A meio da tarde, o argentino tentará marcar golos, em catrefada, como sempre o faz, em Leganés, onde o Barcelona vai jogar. Ao início da noite (19h45, Sportv TV2), o português estará a entrar no novo estádio do Atlético e poderá, ou não, ter um segundo como o descrito nas linhas acima, um momento em que sentirá, e pensará, em tudo aquilo e outra coisa: na frustração.

Porque este é, de longe, o maior e mais difícil jogo para o Real Madrid e para Cristiano, que nas partidas anteriores - em teoria mais fáceis e acessíveis, menos exigentes e desafiantes - marcou apenas um golo. Uma bola rematada para dentro da baliza nas 11 jornadas que o campeonato já teve. Nunca o português marcara tão pouco nos quase três primeiros meses de liga espanhola.

Esse singular golo, desconstruído, significa pobreza para Ronaldo por ele ser quem é, o ser que concentrou no seu corpo o fabrico industrial de golos, com um catálogo para todos os gostos e feitios.

Nas oito épocas anteriores de Real Madrid já lhe acontecera ser pouco prolífero. Ou melhor, ter registos mais humanos que os extramundanos 11, 13, 12, 11 e 18 golos que marcou nas primeiras 11 jornadas das temporadas entre 2010 e 2014 (ver infografia). Aí Cristiano rematou sempre mais de 200 vezes por época e disparava, mais ou menos, sete remates por jogo. O que é muito. Ele não alterou muito esta forma de viver ao longo das épocas, o que sim, mudou, foram os sítios de onde rematava.

Lembrou-se que os trinta estavam perto, resignou-se à perda de velocidade, arranque e explosão que a idade cobra a toda a gente e não se olvidou de que, para competir com Messi em honras, títulos individuais e Bolas de Ouro, teria que ter números superiores, ou pelo menos similares, aos do argentino. A partir de 2013 começou a rematar mais vezes de dentro, do que de fora da área - ele foi-se aproximando da baliza.

Essa maior proximidade e a menor finta, drible, corrida com bola e vontade em querer recebê-la em sítios para desequilibrar a bem dos companheiros de equipa, mudaram-no, como temos visto ao longo do tempo. Ronaldo passou a precisar de ser servido em vez de se servir a ele próprio com jogadas de eu contra vários ou apenas contra um, em que tenha que escolher um lado, fintar e rematar. É cada vez mais raro vê-lo a fazer o que fez contra o Barcelona, em Camp Nou, em agosto, onde se evadiu de Gerard Piqué e, à beira da área, curvar uma bola monumental até ao ângulo superior da baliza de Ter Stegen.

A primeira mão da Super Taça de Espanha, em parte, explica a pobreza e a seca de Cristiano na liga espanhola, porque o português empurrou o árbitro, foi expulso e suspenso ficou durante as quatro inaugurais jornadas do campeonato. As outras partes são a parca pré-época que realizou devido às férias da Taça das Confederações, o ritmo que ainda não tem, um planeamento de época que (já não é novidade) aponta para estar no pico de forma lá para março/abril (quando as competições se decidem).

E, sobretudo, o que está a jogar o Real Madrid.

Que tem sido pouco, ou menos do que se esperaria para o que se produziu na anterior época e meia com Zinedine Zidane. A equipa está com demasiados jogadores emperrados, seja por lesões ou má forma, como Gareth Bale, Marcelo ou Carvajal, por coincidência os tipos que mais largura dão ao jogo do Real - uma equipa cada vez mais fabricadora de jogo pelo meio, onde tem os melhores jogadores e passadores (Modric, Kroos e Isco), que necessitam de espaço e tempo que lhes são dados por quem atrai marcações para fora.

Com o galês, o brasileiro e o espanhol de fora, ou sem forma, o Real tem sido mais previsível e menos municiador de quem vive na área à espera dos seus serviços: Ronaldo e Benzema, o avançado francês que padece da mesma seca severa (um golo marcado).

À falta de bolas e de passes que o deixem fazer aquilo em mais se tem especializado - que é rematar perto da baliza e com pouco gente à frente e domar todos os pormenores e emoções descritos no arranque do texto - o português ainda só marcou um golo na liga, embora vá com seis na Liga dos Campeões. “Isso não me inquieta. As pessoas veem-me como uma máquina de golos, como um robô que deve marcar sempre. [Mas] as pessoas não conhecem a diferença entre jogar bem, jogar mais ou menos e não marcar golos”, disse, ao “L’Équipe”, despreocupado sobre esta seca que o afeta.

Ele já rematou 47 vezes na liga - 12 de fora da área, 33 dentro e três na área de penálti - e isso dá-lhe um 2,7% de acerto. Uns estranhos 2,7%, a pior percentagem entre jogadores do Real Madrid que já marcaram, pelo menos, um golo na liga espanhola.

OSCAR DEL POZO