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Os momentos mais belos do futebol reúnem certa inocência

Mais bonito do que o golo de Éder foi o seu sorriso desbragado, a desenvencilhar-se de um e de outro, como quem fugia do dono do armazém que tivera a janela quebrada. Corria para abraçar a glória (esta é uma crónica para ler com sotaque, porque Portugal celebra-se no mundo inteiro e com os sotaques todos)

Por Plínio Fraga

FOTO GETTY

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O problema de jogar contra a França, em Paris, é que o adversário sofre o primeiro ataque logo que o estádio começa a cantar “La Marseillaise”. A derrota pode começar ali, se as pernas dos jogadores não superarem a convocação beligerante dos franceses. Os brasileiros perderam assim, na copa do mundo de 1998, naquele mesmo Stade de France.

Os primeiros quinze minutos de França e Portugal, neste domingo, representaram esse impacto. Houve um lance que parecia antecipar uma tragédia: Pepe escorregou sem porquê, a França tomou a bola e lançou-a na área. Griezmann cabeceou no ângulo esquerdo de Rui Patrício. Seria um golo histórico, mais do hino do que da equipa, logo no começo do jogo. A defesa inacreditável do goleiro português, a primeira de uma série espetacular que viria em seguida, anunciou aos franceses que a batalha seria mais árdua do que imaginavam.

A seleção de Portugal dos primeiros jogos do Euro 2016 parecia aproximar-se, de modo enfadonho, de mais um fracasso previsível. No intervalo do primeiro para o segundo tempo contra a França, com outro 0-0 no marcador, a televisão mostrou Luís Figo a bocejar. Parecia que o jogo se arrastaria sem golos até o fim.

Cinco empates, no tempo regulamentar, em cinco jogos produzem desconfiança em cima de desconfiança. O empate é um resultado mais depressivo do que a própria derrota, dizia Nelson Rodrigues. “A derrota tem o dramatismo que a salva, que a viriliza. Ela desperta no vencido o élan da revanche. Já o empate suscita uma sensação desesperadora de impotência”, escreveu o maior cronista desportivo brasileiro.

Por vezes, no futebol, é melhor perder do que assistir a uma equipa acovardada que não arrisque. A vitória incontestável sobre o País de Gales havia recolocado Portugal no certame. Apagara a impressão de impotência perante um destino antecipado de derrota.

Contra a França, a contusão de Cristiano Ronaldo, aos 25 minutos, foi argumento suficiente para que cardíacos, estressados e hipocondríacos em geral abandonassem a sala com a certeza definitiva de que a derrota estava por vir. Mal sabiam que era apenas um elemento de dramaticidade para a construção da vitória ainda mais prazerosa.

Cristiano Ronaldo é um jogador espetacular, cujo talento não deixa de ser temperado por certa antipatia. Algo de egoísta sempre transborda dele — seja quando aparece no telão do estádio a checar se o cabelo está despenteado ou quando sopra com o canto da boca, numa certa expressão de enfado. A contusão obrigou a que as câmaras mostrassem outro Cristiano Ronaldo, solidário, entusiasmante, crente no valor de que o conjunto da equipa pode superar carências e frivolidades individuais.

Cristiano Ronaldo sai renovado do Euro 2016 por duas jogadas sensacionais que desempenhou à margem do campo. A primeira foi quando convocou João Moutinho a participar da disputa de penalidades contra a Polónia: “Anda a bater. Tu bates bem. Se perder, que se foda!”. Frase de um líder, verdadeiro capitão.

A segunda foi, após a contusão contra a França, regressar do vestiário, ainda coxeando, e se estabelecer à beira do gramado a gritar e sofrer. Um velho marechal dizia que, no campo de batalha, pequenas desatenções podem causar grandes derrotas. Cristiano Ronaldo comprovou o contrário como verdadeiro: dedicada atenção pode estimular grandes vitórias. O craque português fez dois golaços fora de campo. Pôde enfim cantar, com cultivada cumplicidade, um verso roubado da “Marselhesa”: o dia da glória chegou (“Le jour de gloire est arrivé”). A história é generosa com os guerreiros.

Os momentos mais belos do futebol, no entanto, reúnem certa inocência e travessura infantil que os renovam. Quando Éder pegou a bola, a dez minutos do final do tempo extra, tinha à sua volta três franceses cuidando da marcação. Parei a imagem do jogo nesse exato momento. Outros quatro franceses voltaram-se para o lance, como se pudessem fechar todos os flancos. Os sete jogadores mais próximos eram todos franceses. A responsabilidade sóbria que uma final de Euro exige talvez o aconselhasse a tocar a bola para o lado, a esperar que outros atacantes se aproximassem.

Éder dominou com dificuldade, acossado que estava. O chuto era tão improvável que o marcador lhe deu espaço, imaginando que, covardemente, tentaria o passe a algum companheiro. Mas não havia ninguém a auxiliá-lo. Éder deu quatro toques curtos, a ajeitar a bola. O corpo estava de lado para a meta francesa. Não parecia que poderia chutar. Mas ele, como numa traquinagem entre garotos, fez o giro rápido e chutou cruzado. O mais comum seria tentar o tiro em linha reta, no lado esquerdo do goleiro francês. O chuto saiu rasteiro no canto direito de Lloris.

Quando a bola chegou às redes, é possível que o garoto criado em orfanato tenha ouvido o estalar de vidraça se rompendo, som que acompanhou por tantas vezes os seus golos de menino. Mais bonito do que o golo foi o seu sorriso desbragado, a desenvencilhar-se de um e de outro, como quem fugia do dono do armazém que tivera a janela quebrada. Corria para abraçar a glória.

Éder não precisou da luva branca para pedir paz a torcedores implacáveis. Seu sorriso combinava com os versos do poeta guineense Vasco Cabral: “É como se alguém me pisasse e eu me risse — uma alegria toda cor e luz”.