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Vira o disco e toca outra coisa. Muito pior

A seleção nacional foi à Suíça sofrer dois golos na primeira meia hora e arrancar a qualificação para o Mundial 2018 com uma derrota (2-0). Dos 27 remates portugueses, apenas quatro acertaram na baliza

Diogo Pombo

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FABRICE COFFRINI

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A motivação é uma coisa tão gira quanto pesada dentro da cabeça de quem joga. É aquele bocadinho assim, como dizia o anúncio do iogurte, que pode fazer a diferença em alguns momentos. Quando se mete o pé à bola, quando se arranca para chegar primeiro a um ressalto, quando se corre para trás depois de se perder a bola lá à frente.

Isto de ganhar um Europeu é bonito (muito, mesmo), mas dá aos outros esse tal bocadinho extra de motivação e de tudo o resto - de pica, de garra, de energia, de ter noção que se está a jogar contra uma seleção campeã e que não há melhor montra do que ganhar a quem já ganhou em grande.

Fernando Santos chamou a isto os “mais 10%” que, daqui até ao Mundial da Rússia, toda a gente vai ter quando jogar contra Portugal. Ora, se os outros vão dar mais, não é preciso ser vidente para deduzir que, a partir de agora, a seleção também terá de dar, pelo menos, o mesmo em “trabalho, organização e concentração”. Isto é tão mais fácil e rápido de ser escrito do que feito que, antes de a bola começar a rolar, estes dois parágrafos já estão prontos.

Pior é o que vem depois, quando o selecionador nacional, aos poucos, vê quase tudo o que não queria ver. Porque, mesmo entrando com passes rápidos, jogadas com poucos toques na bola e com jogadas a chegarem sem demora à área suíça, a seleção tem uns minutos em que tomba. Foram dez, mais ou menos. Já depois de o mesmo tipo que fizera o último remate português no Europeu ser o primeiro da equipa a rematar, mas para onde estava virado, que era para fora.

Depois de Bernardo Silva bater de primeira, com o pé esquerdo, a bola que Eder lhe amortece de cabeça, na área. E depois também de Lichtsteiner inventar o momento em que se torna no solteiro que chuta a bola, sem razão, contra o braço do casado Djourou, na área, com dois metros a separá-los.

Toda a gente vê isso, mas apenas se ouve um apito quando os tais dez minutos se começam a contar. É quando o cérebro de vários jogadores portugueses desligam. Como o de Raphaël Guerreiro, que recupera a bola, dá uma chance ao risco e falha um passe para o meio, perto da área portuguesa.

O de Adrien, que aperta um suíço de emergência e derruba-o à porta da área. E o de Rui Patrício, que confia num remate por cima da barreira, dá um pequeno passo para o lado e trama-se. O que espera não acontece e o inesperado torna difícil um remate à figura de Ricardo Rodríguez que parecia fácil. O guarda-redes defende para a frente e Embolo é o primeiro a reagir. Fernando Santos não queria presunção, mas vê Patrício a presumir e a errar e a seleção a sofrer (23’). A equipa perde-se, nota-se uma certa balda entre os jogadores. Xhaka, o médio suíço mais amigo dos defesas, vai atrás pedir a bola, virar-se e passá-la quase sempre como quer. Ninguém o aperta. Eder pressiona sozinho. Nani e Bernardo Silva fecham mais nos lados do que ao centro. William quer comer metros aos adversários e chega atrasado, quase sempre. O bloco que todos os treinadores gostam de ver nas suas equipas não existem em Portugal. E os suíços aproveitam.

Aceleram tudo o que fazem, fazem faltas quando é preciso e quando não é, tornam-se frenéticos nos contra-ataques. Enquanto os portugueses os encaram de peito cheio. O peito que os faz serem lentos a reagir a uma perda de bola (Nani). Moles a dividi-la com um adversário (Adrien).

Lentos a perceber que era preciso dar uns passos em frente para causar um fora-de-jogo (Pepe). E imóveis quando havia cinco homens para fecharem o espaço a um, que era Mehmedi, que recebeu o passe de Seferovic na área e rematou com jeito suficiente para enfiar (30’) os campeões europeus no balneário com dois golos sofridos ao intervalo. Fernando Santos tinha razão numa coisa - “Não estamos com espírito de Campeonato da Europa. Estamos com espírito de qualificação para a fase final do Campeonato do Mundo”.

A organização sem bola, o toda a gente saber onde estar, o que fazer e como reagir, não se via. As coisas melhoraram quando a equipa largou o 4-3-3 na primeira parte e agarrou o 4-4-2 (do Europeu) na segunda, já com João Mário e André Silva em campo. Só que aí já os suíços faziam o que, de ora em diante, também deverá ser normal os outros fazerem contra Portugal. Fecharam-se, onze homens com ordens para defenderem atrás da bola.

O que significa menos espaço para a seleção passar a bola e inventar coisas, muito menos quando Nani anda quase sempre pelo centro e Bernardo Silva, um canhoto a jogar à direita, faz sempre tudo mais virado para o meio. A seleção faz questão de estreitar o campo em que joga e apenas Cédric, com mil e um cruzamentos, pede a bola junto à linha e dá largura aos ataques portugueses. Algo que nem a entrada de Ricardo Quaresma ajuda a resolver.

O problema não encontra solução até ao fim. Os muitos remates à beira da área não acertam na baliza, como o de Bernardo Silva, por pouco (51’), ou acertam em alguma parte do corpo de algum suíço, como metade dos quatro pontapés de Raphaël Guerreiro ou quase todas as bolas que saem das botas de Nani. Menos uma que Quaresma lhe dirige à cabeça, da direita, que o capitão português atirou (82’) contra o poste esquerdo da baliza de Sommer.

Nada entrou na baliza dos suíços, que apenas quiseram algo com as redes que estavam do outro lado do campo quando Dzemaili rematou, rasteiro e ao lado (70’), a bola que Mehmedi lhe passou na área, a terminar um contra-ataque. A seleção fechou o primeiro jogo do pós-Europeu acabou com apenas quatro de 22 remates acertados na baliza, éne passes errados, metros de espaço mal coberto a defender e uma intensidade que só alguns mostraram ter (Raphaël, Adrien, Bernardo Silva e, por vezes, Nani).

A qualificação para o próximo Mundial começa como arrancou o apuramento para o último Campeonato da Europa, com uma derrota. E com algo bem português - com contas a serem feitas à vida, num grupo com seis equipas em que apenas o primeiro classificado segue diretamente para a Rússia e o segundo pode nem ir ao play-off (caso seja o pior entre os nove grupos). Fernando Santos bem nos avisou que já não estávamos com o espírito do Europeu.