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A francesinha, o Ronaldo, o Saviola e outras memórias do mais internacional de sempre por Andorra

Nascer num país amador no futebol e habituado a sofrer em jogos da seleção. Óscar Sonejee sabe o que isto é. Tem 40 anos, ninguém jogou mais que ele por Andorra (106 jogos) e esteve nas três partidas contra Portugal (em 1999 e 2001). Já não vai estar nesta, mas estará a assistir no restaurante do presidente do clube onde ainda joga, o Lusitanos

Diogo Pombo

SERGEI SUPINSKY

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Não é fácil antecipar um jogo como o Portugal-Andorra (sexta-feira, 19h30). É costume, nestas alturas, falar com antigas glórias, protagonistas de jogos passados, mais do lado de lá do que no nosso, por ser diferente, mais original e inesperado. Andorra, contudo, é um país pequeno, amador no futebol, parco em jogadores que o praticam e já uma coisa quase do passado - não há uma partida entre estas seleções desde 2001.

Mas, pesquisando e vendo, houve alguns andorranos que estiveram em campo nas três vezes em que as seleções se defrontaram. Como é sempre melhor apontar para cima e para o ideal, tentámos chegar a Óscar Sonejee. Tinha de ser ele, o quase senhor futebol em Andorra, que nos respondeu através de uma rede social e nos disse para lhe ligarmos a qualquer altura. Ele tem 40 anos, fez 106 jogos pela sua seleção (um recorde) e ainda está a jogar futebol. Onde? No Lusitanos, um clube de portugueses em Andorra.

O que achas que vai acontecer amanhã? Bom, para sermos realistas, acho que vai ser um jogo complicado e duro para nós. Ainda para mais porque Portugal perdeu o primeiro encontro, contra a Suíça. Querem ganhar e a fazê-lo bem, para mostrarem o porquê de serem campeões da Europa. Espero que façamos uma boa partida, que Portugal não acabe com o resultado de sempre e que passe mal durante muitos minutos.

Tens 40 anos e ainda jogas. Não podias estar na seleção? Repara, estou a jogar no Lusitanos…

Um clube de portugueses. Sim, exatamente, e a verdade é que estar na seleção exige muito de ti. Tens que estar mais bem preparado fisicamente e precisas de dedicar mais horas, agora não tenho esse tempo. A nível físico já não estaria ao nível dos meus companheiros. Mas, até ao ano passado, fui jogando. Trabalhei muitas horas para o conseguir e, sobretudo, para cumprir o meu objetivo, que era ser centenário.

Três desses jogos foram contra Portugal. Do que te lembras? Tenho boas recordações. Um deles foi no vosso Estádio Nacional. Foi um amigável e estava lá toda a geração boa de Portugal: o Paulo Sousa, o Rui Costa, o Figo, o Nuno Gomes, o Pauleta, o Vítor Baía, o Fernando Couto. Era uma geração buenísima, das melhores que Portugal teve. Só não teve a sorte que esta teve. Mas acredito que também podiam ter sido campeões da Europa, tranquilamente.

E mais? Jogámos na homenagem ao Figo, no Funchal, na Madeira, que também é uma boa lembrança, porque foi outro jogo contra essa geração. Depois, jogámos em Lleida, que foi uma goleada bastante forte (1-7) que sofremos.

Qual era a sensação de jogar contra Portugal, nesses tempos? Será parecida com a de agora. Estávamos à frente aos melhores jogadores da Europa. Hoje em dia há o Cristiano Ronaldo, o futuro Bola de Ouro, o que é uma motivação. Jogar contra os campeões europeus é uma motivação muito grande para o país e para todos. Estamos muito expectantes e esperamos dar uma boa imagem, para mostrarmos que estamos a ter uma boa evolução. É muito bonito porque, por uns dias, somos e sentimo-nos como uns profissionais.

Trocaste de camisola com alguém? Sim, claro. Tenho a do Pauleta e a do Rui Costa.

Só atacantes. Não consegui trocar com mais! Já não me lembro em que ano foi, mas também joguei um particular contra a seleção de sub-21, de Portugal.

Achas que o nível que separa a Andorra de Portugal já não é tão grande como era há 15 anos? Não, a diferença é a mesma. Estamos a falar de jogadores top do mundo e a compará-los com os rapazes daqui, onde só há dois ou três profissionais. Os restantes trabalham e jogam, isso diz tudo. Estamos numa liga amadora e eles estão no nível máximo. A diferença continua a mesma e sempre foi assim, não só contra Portugal, como frente a equipas como a França, por exemplo. Mas temos uma geração nova, com muito futuro, que penso que vai competir bem. No final, Portugal vai acabar por resolver, mas acho que vão passar por maus momentos.

Tens falado muito sobre o jogo com os teus companheiros do Lusitanos? Claro. Mira, a equipa até se vai juntar para ver a partida. O presidente tem um restaurante e vamos lá ver o jogo, todos juntos, para fazer um pouco de grupo. E também para comer uma francesinha! [ri-se]

Estás com 40 anos. Já tens data definida para deixares de jogar? Sim, este vai ser o meu último ano, de certeza. Agora estou a começar uma nova etapa como treinador. Já estou com os sub-16 da seleção nacional de Andorra e também sou adjunto nos sub-17. Estou nesta fase de transição. Falta-me uma licença de treinador, a Pro, que me vão dar no próximo ano, e vou entrar neste novo mundo, para oferecer a minha experiência.

Há uns meses, o Javier Saviola chegou aí a Andorra, para treinar uma equipa. Isso pode fazer diferença para o vosso futebol? É muito bom. Além dele, o Capdevilla também está cá, mas a jogar ainda. Está no atual campeão. O Saviola está de auxiliar, treina e ajuda. De momento, ainda não joga. É bom porque, ao fim de contas, dará sempre algo mais ao campeonato nacional. Haverá sempre uma evolução. Tudo o que seja trazer a experiência de jogadores profissionais e gente deste nível será sempre bom para o futebol de Andorra.

Já falaste com ele? Sim, sim, quando jogámos contra a equipa dele. Disse-me que tinha duas ofertas para continuar a jogar, mas preferiu estar aqui, tranquilo. Disse que foram demasiados anos de pressão e trabalho. Suponho que dinheiro também não lhe falta, porque ganhou muito [solta uma gargalhada], por isso, agora está aqui, com uma vida tranquila.

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