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Dois jogos da treta para se experimentar algo novo

Se há altura para tentar pôr coisas novas a funcionar, será agora. Portugal joga hoje (19h45) contra Andorra e na segunda-feira frente às Ilhas Faroé, os dois adversários mais acessíveis no apuramento para o Mundial de 2018. Depois de sofrer a primeira derrota na seleção, Fernando Santos poderá fazer algumas experiências

Diogo Pombo

É minha. José Fonte (à direita) disputando a bola ao suiço Silvan Widmer durante o mais recente jogo da seleção

jOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

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Isto é quase como um teste à visão, em que, na ponta do nariz, temos de colocar os óculos de ver a bola para nos focarmos na relação que Portugal tem com os dois países em questão. Dois com os quais não nos costumamos cruzar e, por isso, causam estranheza.

O primeiro obriga-nos a começar por um jogador. Porque ele já foi importante no futebol e até diz muito a nós, portugueses, que o vimos jogar de perto durante uns anos. Em setembro, soube-se que um coelho chamado Javier Saviola, trintão e já pouco dado a correrias, ia parar de jogar. Ficámos a saber que o argentino ia morar para a terra espremida no meio dos Pirenéus, entre montanhas, onde o futebol não diz muito às 70 mil pessoas que lá vivem, para ser adjunto num clube do qual nunca tínhamos ouvido falar. Mas é por causa dele que não foi assim há tanto tempo que ouvimos falar de Andorra, contra quem já jogámos, e ganhámos, três vezes.

Sobre o segundo, sabemos que é um arquipélago arquipélago, perdido a meio caminho de mar entre o Reino Unido e a Islândia, que é tão raro aparecer-nos à frente como um cão albino (sim, eles existem). Nem 50 mil pessoas vivem no frio das Ilhas Faroé, onde misturar uma bola nos pés nunca lhes deu sucesso por aí além. É preciso rebobinar a cassete e parar em 2008, na única amostra que temos, um encontro particular que acabou com uma mão cheia (5-0) e com Carlos Queiroz, o treinador da altura, a dizer que tudo não passara de “um bom treino” para os portugueses descomprimirem.

Se o ranking da FIFA serve para alguma coisa, é para nos ser útil nestas alturas, em que precisamos de acentuar como existe algo de muito grande entre Portugal e estas duas seleções. Andorra está no 203.º lugar e as Ilhas Faroé são a 111.ª melhor equipa do mundo, entre as 205 que compõe a classificação dos critérios estranhos. Ao todo, a seleção nacional já lhes marcou 19 golos - 14 aos vizinhos dos Pirenéus, em três partidas, e cinco aos nórdicos, no único jogo que houve. Com os óculos bem postos, não há como ver isto de outra maneira: a teoria diz que os próximos dois encontros de Portugal são para ganhar com muitos golos a entrarem na baliza dos outros.

As experiências

Depois, semicerrando os olhos e focando as coisas com mais atenção, dá para reparar (e lembrar) que a seleção nacional tem sorte. Porque, no grupo, lhe calharam duas equipas que costumam ser sacos de pancada para as outras. E, portanto, jogos que parecem ser de treino, como dizia Queiroz, serão a contar para o apuramento rumo ao Mundial de 2018, que há semanas começou mal, com uma derrota (2-0) na Suíça. Foi o primeiro encontro a sério que Fernando Santos perdeu, mas, lá está, os suíços eram outra coisa. Têm jogadores em muitos clubes grandes, estiveram no Europeu que Portugal ganhou, são profissionais de futebol. Tudo o que a Andorra e as Ilhas Faroé não o são.

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E nem era preciso meter os óculos para se perceber como o selecionador nacional poderá aproveitar estes dois jogos - para fazer experiências.

Não terá sido apenas pelos golos, as assistências, as fintas e a boa forma que Gelson Martins foi convocado pela primeira vez. Porque o miúdo é mais um extremo numa seleção que joga sem eles e os adapta a avançados, que correm sem trela lá na frente para baralhar os adversários e abrir espaços para quem vem de trás. E nestes jogos, em que a equipa terá muita bola, poucos sustos e à vontade com fartura, são os melhores para um treinador ver se alguém novo pode encaixar entre quem já anda ali há muito mais tempo.

Mesmo não havendo Nani (lesionado), o miúdo de 21 anos, porém, terá sempre Bernardo Silva e Ricardo Quaresma à frente dele. Não contando com Cristiano Ronaldo, que tem um cativo vitalício na equipa. O que pode colocar-lhe outra hipótese à frente, que é a de Fernando Santos, pela primeira vez, poder experimentar, ao lado do capitão, o avançado português que mais golos tem marcado neste início de época. André Silva vai com seis golos em 11 jogos, muita gente anda a falar nele e, como qualquer ponta de lança jovem e promissor que aparece em Portugal por estes dias, a expectativa é muita. E este tipo de adversário é bom para ele começar a marcar golos pela seleção.

O selecionador, depois, poderá experimentar no que está atrás. Sem Adrien, o abono que, durante o Europeu, serviu para tapar muitos buracos quando a seleção não tinha a bola, não está. Mas volta a estar Renato Sanches e, de repente, já há um Raphaël Guerreiro 2.0. O rapaz tímido a falar português tem sido mais médio do que lateral esquerdo no Borussia Dortmund, tem marcado e assistido à brava, sob ordens de um treinador que diz que ele é bom demais para ter apenas uma posição para jogar. Ele saiu da casca da defesa, o que poderá ser um problema se Pizzi estiver a pensar que pode ser desta que agarra um lugar na seleção.

O homem do Benfica, que passou a médio e já é extremo outra vez, voltou a ser convocado 15 meses depois, e o facto de haver muita gente à frente dele só poderá ser abanado por outro facto - afinal, a seleção vai jogar contra Andorra e as Ilhas Faroé. Vendo bem as coisas, não haverá como não ganhar. E ir experimentando coisas pelo meio.