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Mais fácil, só mesmo a jogar CM

Nem com a pancada que deu a torto e a direito Andorra conseguiu evitar a goleada (6-0). Ronaldo marcou quatro, expulsou dois adversários e até acabou a jogar quase a trinco. João Cancelo marcou o segundo em dois jogos na seleção e também deu para André Silva se estrear nos golos. Só espanta Portugal não ter ganhado por mais

Diogo Pombo

Este jogo fez com que Cristiano Ronaldo ficasse com 65 golos marcados em 134 partidas pela seleção nacional. A lenda cresce.

David Ramos

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Há uns anos existia um jogo que simulava este, o real, que roubou muitas horas de vida a muito boa gente. Era o Championship Manager. Ligávamos o computador, punhamo-lo a rodar, os olhos devoraram o ecrã, a mão colava-se ao rato e, mergulhados num transe imersivo, perdíamos a conta às horas enquanto brincávamos aos treinadores de futebol. O jogo, que nos punha a gerir um clube, a montar uma equipa, a olhar para os atributos de cada jogador, a escolher uma tática, a fazer magia nas contratações, tinha sempre uma altura enfadonha: a pré-época. Queríamos era jogos a sério e não perder tempo com amigáveis contra equipas cuja existência nos era desconhecida. Nestes momentos, havia um truque.

Era mais uma batota. Antes de um jogo particular desinteressante, escolhíamos a equipa, dizíamos como queríamos que ela jogasse e íamos de férias por um dia. O jogo corria sozinho, o tempo passava mais rápido. Quando voltávamos a tocar no CM - abreviação ternurenta e carinhosa -, o jogo estava feito, a goleada confirmada e podíamos retomar o vício. Não havia cá perder tempo com partidas que tomávamos como certas e eram como uma lomba na estrada à qual não conseguimos fugir com o carro. Fora de brincadeiras, porque, a brincar a brincar, quem instalou este simulador no computador ter-se-á transformado, a dado momento, numa criatura anti-social, Fernando Santos não podia fazer isto.

Para o selecionador, isto é a vida real. Tem de pensar o que fazer com a Andorra, uma seleção com dois ou três profissionais, perdida nos confins do futebol, saco de pancada para muitos, que podia dar palestras a explicar as essências de uma goleada. Parece um jogo a brincar, de treino, com dificuldade mínima, só que conta para o apuramento rumo à Rússia e isso é uma sorte para Portugal.

E foram precisos cento e noventa e oito segundos para isto fazer sentido.

Tudo corria como esperado, com a seleção a ser ditadora sobre a bola, a fazer muitos passes para a frente, a ter toda a gente salvo Rui Patrício para lá do meio campo, a espremer os andorranos na própria área. Ao segundo canto do jogo, Quaresma cruzou com força, o guarda-redes Josép Gomes deu uma patada na bola que devia ter agarrado e atirou-a para o pé esquerdo de Ronaldo. Pouco mais de um minuto de jogo e o capitão português marcava. Menos de duzentos segundos volvidos, o extremo dos pés tortos cruzou de novo a bola e pediu a Cristiano que fizesse aquela ilusão ótica que ele pratica há anos: saltar e parecer que pára no ar. Cabeceçada e golo, o 63.º dele na seleção e a desculpa para todos pensarmos que a goleada estava a espreguiçar-se.

No CM seria certo, mas ali não. Marcar dois num espaço de 190 segundos teve na seleção o efeito indesejável. Os jogadores relaxaram, quiseram tornar bonito o que bastava ser prático e eficaz. Viram-se fintas e mais dribles do charlatão Quaresma, as simulações de cruzamento de João Cancelo que resultavam sempre, André Gomes a passar por andorranos como quem é intangível e consegue atravessar paredes. A equipa ficou displicente e Fernando Santos, no banco, abria os braços e fazia má cara. Portugal falhava passes, movia-se lentamente e não depressa, como o selecionador queria. Como tudo isto dava o ar de que os portugueses andavam a brincar, quem jogava do outro lado não gostou.

David Ramos

E Andorra começou a ser melhor que Portugal no que nada tem a ver com ser bom, ou não, de bola - na agressividade. Viram-se muitas faltas, mãos na cara, entradas com os pitons a rir, cotoveladas, agarrões na área e rasteiras.

Cristiano queixava-se de não poder tocar numa bola sem ser tocado e viu-se muita gente caída na relva. Os andorranos, como quem acha sr indiferente perder por dois ou por dez, soltaram-se. Já pressionavam de vez em quando na outra metade do campo e, no meio de tanta pancada, Portugal lá ia criando oportunidades quando levava a partida um pouco mais a sério.

Quaresma cruzou e Ronaldo, por uma vez, cabeceou ao lado. O mister trivela picou outra bola e André Silva, com a testa, desviou-a contra a barra da baliza. Antes, José Fonte, a dois metros do guarda-redes, atirou ao peito do boneco. E o próprio extremo do Besiktas, com a parte do pé que ele domina, não acertou no alvo. Depois de tudo isto, João Cancelo lá mostrou como não há palavras que cheguem para descrever o que está entre os campeões da Europa e os amadores que vêm dos Pirinéus. Ele sprintou área dentro e, sem ângulo, marcou o segundo golo ao segundo jogo pela seleção, fazendo um passe para a baliza que passou entre o guarda-redes e o poste.

Os três demoraram o tempo do intervalo a serem quatro. Após um canto, André Gomes parecia um náufrago numa ilha deserta, cheio de espaço para receber, rodar e passar a bola com força para Ronaldo, na área, rematar de primeira (47’) para um golo bonito. A seleção arranjava mais uma desculpa para abrandar o que já não não estava a ser rápido.

Continuou a haver muito espaço para quem era melhor. Andorra despachava ao pontapé as bolas que recuperava, não pressionava para ser ladrão e fechava-se, como podia. Os portugueses divertiam-se, fintando, tentando coisas bonitas e, vá lá, rematando mais. Os Silvas em Bernardo e André bateram na bola para Josép Gomes defender a custo, pelo meio de mais brincadeiras de Cancelo, André Gomes e Quaresma. Os adversários irritavam-se. Ninguém gosta de estar no meio de um meinho gigante e quem sofreu com isso foi Ronaldo, por duas vezes.

Levou com a patada do segundo amarelo para Jordi Rubio e com outra que deu o vermelho direto para Marc Rebes. Os andorranos tornavam-se feios.

Pelo meio, Cristiano conseguiu o bonito de marcar o quarto golo no jogo e fazer o mesmo que Nuno Gomes fizera à Andorra, há quinze anos (no 7-1 de 2001). Parecia mesmo o Championship Manager, em que os craques sempre eram os ímans para tudo - golos, assistências e expulsões para os outros. Com dois jogadores e tanta coisa a menos, os andorranos deram um treino à seleção nacional, que não parecia ser suficiente para André Silva se estrear a marcar. Porque o miúdo foi falhando golos que cantavam para ele até a trivela de Quaresma bater um livre às mãos do guarda-redes e o avançado ficar com a recarga (86’).

O jogo ainda deu para Gelson Martins se estrear e também fintar para, depois, acabar à meia dúzia. E com Ronaldo, relaxado, a jogar quase a trinco, à entrada da área, com poucas correrias - diria, no fim, que sentiu “um toque” e não queria forçar. E este seria aquele momento em que voltaríamos de férias no CM e sentiríamos o mesmo que agora - sem surpresa. Mais fácil que isto era difícil.