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Para relvados sintéticos, um goleador natural

André Silva fez um hat-trick na robusta vitória da Seleção Nacional frente às Ilhas Faroé. Em condições difícieis, com um relvado sintético que normalmente atrapalha, Portugal jogou bem, descomplicou cedo e venceu por 6-0, colocando-se no 2.º lugar do Grupo B de qualificação para o Mundial de 2018. Ah, e muito provavelmente ganhou um matador para os próximos anos.

Lídia Paralta Gomes

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Olá relvado sintético de Torshavn. Estávamos com um bocadinho de medo, sabes? Os sintéticos têm aquelas características estranhas que em nada ajudam o nosso jogo: a bola desliza mal, prende, salta muito. E nós gostamos de ter a bola no pé, de jogar no chão, de circular a bola.

E nos minutos iniciais até nos deixámos cair no engodo. Primeiro com umas bolas longas e inconsequentes, mais próprias da equipa da casa do que de uma seleção portuguesa, e depois com um par de passes errados, um deles de William Carvalho (sim, é verdade, William falhou um passe). Claramente que mediamos ao milímetro o que podíamos fazer naquele terreno.

Felizmente a solução chegou cedo, se calhar até mais cedo do que esperávamos. Porque percebemos que para relvados sintéticos, nada como atacar com homens para quem marcar golos é natural.

André Silva estreou-se a marcar pela Seleção Nacional na última sexta-feira, ao 2.º jogo, e só precisou de mais uma internacionalização para sair do relvado com a bola do jogo. Nas Ilhas Faroé, o miúdo do FC Porto, a nossa maior esperança de golos em barda para os próximos anos, tornou-se no primeiro jogador da Seleção Nacional não chamado Cristiano Ronaldo a marcar um hat-trick desde 2006 - Pauleta tinha sido o último, num encontro frente a Cabo Verde. A vitória por 6-0, números que de forma surpreendente igualam os conseguidos na última sexta-feira, frente a Andorra, tem a assinatura muito particular do jovem avançado, que fez esta segunda-feira fez também o seu primeiro hat-trick enquanto sénior.

Uma noite de sonho em que André mostrou aquilo que por vezes lhe tem faltado com a camisola azul-e-branca: frieza em frente à baliza, pouca piedade na hora de aproveitar os erros do adversário. A defesa das Ilhas Faroé é um daqueles conjuntos de jogadores para quem a bola claramente atrapalha, mas o primeiro erro digno desse nome só apareceu aos 12 minutos, numa altura em que Portugal já tinha dado conta que mais valia esquecer os humores do sintético: se o nosso jogo é de posse, circulação de bola e tentativa de transições rápidas, vamos confiar nele.

E foi assim que João Mário - uma das caras novas do onze face ao jogo com Andorra - pegou na bola e bastou-lhe imprimir um pouco de velocidade para escaqueirar o adversário. O jogador do Inter colocou então a bola no centro da defesa à espera de Cristiano Ronaldo, cuja presença - e apenas presença - assustou Nattestad. O central atrapalhou-se e deu um toque na bola, bola que era desde há muito seguida pelos olhos de André Silva. O miúdo aproveitou o ressalto e na cara de Nielson colocou-lhe o remate por baixo das pernas, sem compaixão.

Antes de André Silva voltar a mostrar que aquela cara de bom rapaz esconde um instinto assassino que Portugal agradece, as Ilhas Faroé tentaram uma jogada ao primeiro toque que deixou toda a gente de boca aberta. Inclusivé a nossa Seleção, que deixou os homens da casa ir por ali abaixo. Felizmente, na hora de rematar, faltou o jeito.

André Silva fez um hat-trick ao terceiro jogo pela Seleção

André Silva fez um hat-trick ao terceiro jogo pela Seleção

FRANCISCO LEONG/Getty

Como resposta, e para terminar com qualquer tentativa de rebelião dos ilhéus, André Silva bisou, aos 22 minutos. Mais uma vez João Mário conduziu a jogada, lançando para Ricardo Quaresma que cruzou na direita para a área. Aí o guardião Nielsen e o defesa Gregersen (durinho, durinho) engalfinharam-se. E se o dia era para aproveitar ressaltos, André Silva foi lá de cabeça, colocando a bola na baliza despida.

O terceiro chegou aos 37’, numa altura em que os jogadores das Ilhas Faroé já nem sabiam o que era tocar na bola. Sem misericórdia ou pena pelo rival, André Silva fez tudo: começou a jogada, passou para Cancelo e deixou-se ficar por ali. Fez bem. Nielson não segurou o remate cruzado do defesa do Valencia e o miúdo de 20 anos, advinhem, foi lá ao ressalto.

Para os que duvidavam que o puto tem um dom, aí têm: André Silva nasceu para isto e descomplicou com frieza um jogo que podia ter sido danado para a Seleção Nacional.

Também deu para Ronaldo

Antes do intervalo já tudo estava resolvido, a missão cumprida e Portugal entrou descontraído nos últimos 45 minutos. Tão descontraído quanto o adepto que entrou em campo para tirar uma selfie com Ronaldo. Afinal de contas, não é todos os dias que pára uma estrela nestas frias ilhas no meio do Atlântico. Cristiano respondeu com um sorriso: estamos em território de paz e, diz-se, o último crime ‘grave’ em Torshavn foi o roubo de uns chinelos na piscina local.

Alguma ‘ação’ só a partir dos 60 minutos, com Pepe a ceifar um contra-ataque das Ilhas Faroé e a receber como castigo um cartão amarelo desnecessário que o deixa fora de jogo no próximo encontro da qualificação.

Três minutos depois, a Seleção começou a contar carneirinhos - afinal estamos num país onde há 50 mil habitantes e 80 mil ovelhas - e as Ilhas Faroé surgiram com perigo face a Rui Patrício. E tal como na 1.ª parte, a resposta foi mortífera. Quase como quem tem uma conversa sobre os filhos, o que fizeram no fim de semana ou onde vão ser as próximas férias, Cristiano Ronaldo e João Mário foram avançando no terreno lado-a-lado, trocando a bola com descaramento até ao remate final de CR7, uma bomba ao ângulo da baliza de Nielson, que não se deu em Inglaterra e todos percebemos esta noite porquê.

Ronaldo, João Mário e André: os três homens do jogo

Ronaldo, João Mário e André: os três homens do jogo

FRANCISCO LEONG/getty

Daí para a frente André Silva quase fez o ‘póquer’, já depois da entrada de Gelson e este último seria decisivo para o marcador chegar aos 6-0. Aos 90’, o extremo do Sporting combinou com João Moutinho que com um remate em jeito fez o 5-0 e três minutos depois desmarcou Cancelo com um impressionante passe a rasgar. O lateral do Valencia agradeceu e fez o terceiro golo em três jogos pela Seleção. Bela média.

O 6-0 final coloca Portugal no 2º lugar do Grupo B de qualificação para o Mundial e prova também que a Seleção Nacional tem cabeça para resolver os problemas. Num cenário de condições adversas, num terreno onde é quase crime ver jogadores de classe mundial jogar, tudo foi descomplicado com atitude, intensidade, respeito pelo adversário e, naturalmente, com o olhar matador de André Silva, cuja parceria com Cristiano Ronaldo mete medo, muito medo.