Tribuna Expresso

Perfil

Seleção

Fernando, sorria, este ano foi bom e acaba e bem

As coisas chegaram a parecer fáceis. Ronaldo marcou um penálti, mas quando falhou outro e a Letónia empatou, a seleção tremeu. Até Quaresma começar a receber bolas à direita e a cruzá-las para William e Cristiano engordarem uma vitória (4-1) que Bruno Alves ainda tornou mais enganadora. Fernando Santos acabou com cara de poucos amigos. Agora, a seleção só volta em 2017

Diogo Pombo

FRANCISCO LEONG

Partilhar

Fernando,

O Toni está na televisão a falar, uma meia hora antes de o jogo começar. No tom e na maneira dele, assim descontraído, bem-disposto e com o bigode a ser vizinho do sorriso, lembra como, no seu tempo, deve ter feito “umas dez internacionalizações” contra equipas destas. Ele regozija-se, diz estar aliviado por ver como, ao saírem do autocarro, na garagem do estádio, os jogadores estão com cara séria, fechada, de quem está concentrado por ir jogar contra quem ninguém espera que eles joguem, mas que goleiem.

E o Fernando parece querer fazer a vontade a toda a gente - sim, o respeito é bonito, trato-o por você, porque já tem 62 anos e está na idade, como diz o Boa Morte, de “estar com outras pessoas, para a reforma, para passear com os netos”. É por isso que, na frente, mantém um miúdo que podia ser filho dos seus filhos, deixa-o no meio da malta que, há três meses, estava em França a dar-nos uma alegria. Com ele estão o Ronaldo, o Nani, o André e o João Mário, médios de ataque e toque para a bola, virados para a frente.

Mete-os a tentarem jogar rápido e bem, relação que é das coisas mais difíceis de conseguir, porque está ali na corda bamba entre o jogar futebol e jogar à bola, distinção que o Fernando tanta fazia durante o Europeu.

Eles querem ser a parte séria desse casal, nota-se. Mesmo que o passe, a receção, a finta de corpo enganadora, não saiam, eles tentam ser intensos, velozes como quem sai tarde de casa para apanhar o autocarro. Só que nem sempre o conseguem, o Fernando deve tê-los avisado que relaxar era igual a jogarem contra eles próprios, ao terceiro jogo seguido que a seleção faz contra equipas cuja vida é defender e viver com o facto de serem mais fracas do que muitos adversários.

É por estas duas coisas, como já saberá a esta hora, que Portugal faz mais 300 passes certos que os letões, até ao intervalo, e enche a barriga com 73% de bola. É um muito que não quer dizer nada. Ultrapassar onze homens que estão sempre atrás da linha da bola, a correrem muito, a fazerem faltas quando são batidos e a tentarem ser sempre dois letões para um português com bola, é tramado. E o João Mário, o Ronaldo e o Nani, tão brutos quanto perspicazes, percebem que rematar de fora é mais fácil do que levar jogadas área dentro. Só que as bolas têm íman nas mãos de Vanins, o único letão que tem luvas vestidas.

Enquanto a seleção, muito pelo André Gomes e pelo William, tenta rodar a bola de um lado ao outro, precisa de pressa, para fugir ao tempo que a Letónia precisa para por dois homens à frente do Cancelo ou do Raphaël, alguém tem uma ideia diferente. Nani pausa as coisas como ele gosta, pede uma tabela ao Ronaldo e faz isto tudo muito rápido, tanto que é o primeiro a chegar à bola e a ser rasteirado. É na área, Fernando, você viu, e ouviu o apito que parou a bola que deu o 67.º golo na seleção ao Cristiano. Não me admira que o Fernando goste tanto dele e o costume defender com todos os dentes que tem.

FRANCISCO LEONG

Ele ainda remata depois, e de novo às mãos do letão das luvas, e é o primeiro a rematar uma bola na segunda parte. A urgência em ter pressa, embora não tanta, mantém-se. Um 1-0 é perigoso, está à mercê de um azar, e talvez daí as rugas demarcadas e o semblante meio tristonho que o Fernando vai mantendo, preocupado, com cara de quem não se recorda se deixou alguma luz acesa em casa.

E olhe, o André Gomes, com aqueles pézinhos que são mais de lã desde que foi para Barcelona, recebeu a bola na área e foi rasteirado, ao tentar desviar-se de umas pernas. É outro penálti, Fernando, e queria estar aqui a escrever que o vejo mais aliviado. Mas o Cristiano ficou a atirar palavrões para o ar, depois de rematar a bola que bate no poste e não entrou, nem quando ressaltou no corpo do guarda-redes. Vi-o a si, Fernando, a coçar o queixo e a olhar para o chão.

Deve ter ficado preocupado, e entende-se. Essa bola que não entrou fez mal à seleção. A dúvida deve ter aparecido na cabeça de alguns que, inseguros, foram trocando a bola com menos rapidez e mais toques, talvez achando que tê-la nos pés era melhor que arriscar a largá-la rápido. Portugal ficou mais lento, zeloso pela vantagem que tinha, e os letões aperceberam-se. Foram pressionar mais à frente, cheiraram a hesitação, lobos farejadores de sangue, e avançaram uns metros. Tornaram-se atrevidos. Tanto que cruzaram talvez a primeira bola à área, que Rudnevs rematou torto, contra o José Fonte, e cujo ressalto deu a Zjuzins o remate do empate, na área.

Ai, e agora os suíços e os húngaros, e as contas, e o apuramento, e os tropeções que já não se podem dar, e o que será de nós sem os três pontos que era obrigatório amealhar.

Não sei se o Fernando pensou nisto, mas não houve muito tempo para pensarmos em mais alarmes. Três minutos depois do susto, o homem que tinha posto em campo para a bola chegar mais vezes à área, obedeceu-lhe. A equipa acelerou as jogadas, precipitou-se mais contra a baliza, começou a inclinar tudo para a direita e o Quaresma cruzou uma bola como se rematasse à baliza. Foi teleguiada à cabeça do William. Suspirámos, eu, o Fernando e toda a gente.

O golo letão fez tocar uma campainha, como o ouvi a dizer, no final, ainda sem sorrisos. Não estava nada animado, nem pela outra bola que, da direita, o extremo das fintas, trivelas e dos dribles cruzou para o Cristiano, com uma acrobacia, se redimir do penálti falhado. Nem pela cabeçada que o Bruno Alves deu na bola que o menino Raphaël lhe cruzou, já nos descontos. No fundo, percebo-o - não deveria querer festejar o que chegou a parecer torto e celebrar um resultado que acabou gordo, mas engana.

Mas agora, Fernando, sorria, pode fazê-lo. A vida da seleção não é perfeita, podia estar no primeiro lugar que é da Suíça e está a três pontos, por culpa da derrota sofrida com eles em setembro. Sim, mas foi o único jogo oficial que perdeu nas 30 partidas que tem na seleção e nas 17 que fez em 2016. Este ano em que foi a França ser campeão e fazer de nós campeões e estampar aquele símbolo no peito da camisola de Portugal. E em que acabou a vencer. Foi difícil, o resultado engana, preocupou-o e ganhou mais uns cabelos brancos, sim. Mas ganhou.

Portanto sorria, Fernando. E até para o ano.

P.S. O próximo jogo da seleção é a 25 de março de 2017, contra a Hungria, em Portugal, só no caso de não se lembrar do dia.

Partilhar