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Fernando Santos, a morte do contra-ataque, Da Vinci e a comparação de génios

O selecionador nacional deu uma entrevista ao El País, de Espanha, na qual respondeu, com a calma e tranquilidade habituais, às perguntas sobre as críticas ao jogo de Portugal durante o Europeu e ao que acha da “ânsia” pela posse de bola. E ainda se mostrou preocupado por o contra-ataque estar “em vias de extinção”

Diogo Pombo

Esta já ninguém lhe tira: Fernando Santos com o troféu do Campeonato da Europa nas mãos, no Stade de France, a 10 de julho, após Portugal vencer (1-0) a França na final da competição.

Matthias Hangst

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O Real Madrid arrasta muita gente, por supuesto. A coisa funciona mais ou menos assim: o clube espanhol tem um jogo no estrangeiro, a equipa enfia-se num avião e, quando aterra, o mais certo é ter já vários adeptos à espera na cidade em questão. E jornalistas, porque o Real é talvez o maior clube do mundo, o que venceu mais Liga dos Campeões e um dos que arrasta mais atenções. Muitos, portanto, estão em Lisboa esta semana, já que a equipa em que joga Cristiano Ronaldo vai defrontar o Sporting. A lógica por trás disto é a mesma que levou o El País até Fernando Santos.

Como sabia que teria de enviar um jornalista até Lisboa, o diário espanhol aproveitou a estadia e foi até à Cidade do Futebol, para entrevistar o treinador que, há pouco mais de quatro meses, foi campeão europeu com Portugal – que sucedeu à seleção espanhola, vencedora do troféu em 2012.

Talvez por aí se entenda as primeiras questões às quais Fernando Santos teve de responder. Perguntam-lhe se a vida de um campeão é dura, por a única derrota num jogo oficial apenas ter aparecido após o Europeu, contra a Suíça. Dizem-lhe que a seleção nacional foi criticada por, em França, supostamente jogar um futebol defensivo. E querem saber se o selecionador pensa que o título que conquistou foi “um triunfo do jogo feio sobre o jogo bonito”. Ele, sem o ouvirmos ou vermos como reagiu, respondeu com a calma do costume:

“Quando ganhas um título, podes sempre pensar tudo é mais complicado. Não por ti, mas por o adversário ter uma perspetiva diferente, a ambição de poder ganhar aos campeões. Nesse sentido, sim, é mais difícil. Mas temos que estar preparados para isso.”

“Não estou de acordo com essa análise. Não sou um homem de estatística, mas se olharmos para esse tipo de números, que medem remates, cantos, faltas… Na primeira fase, Portugal foi o melhor nesses aspetos, com a exceção da posse de bola, em que apenas a Espanha nos ganhava. Não sei como se pode considerar defensiva a equipa que mais vezes rematou.”

“Ninguém ganha jogando mal. Só ganha quem jogar bem, e Portugal jogou bem no ataque e na defesa. O bonito e o feio dependem dos olhos que os vejam.”

Colocados os pontos nos ‘is’, Fernando Santos recorda, depois, como, no seu tempo de jogador, o futebol dependia do espaço e do tempo. “Dois fatores essenciais” que foram diminuindo com “a aplicação da ciência no futebol”, que deu ao jogador “mais capacidade atlética” e “mudou os treinos”. O selecionador nacional disse que começou a ver isto com Johan Cruijff, cujos exercícios foram reduzindo o tempo e espaço para os jogadores decidirem o que fazer. “No futuro, os melhores jogadores serão os que consigam pensar antes”, resume Fernando Santos.

Depois, o treinador português, dizendo o que achava sobre o legado deixado pelo futebol espanhol, acha que “se dá demasiada importância” à posse de bola. “A ânsia pela posse não pode eliminar a rapidez, a aceleração. O contra-ataque está em vias de extinção. As equipas recuperam [a bola] para conseguirem a posse e estarem organizadas. O ataque direto, o contra-ataque, parecem não ser armas no futebol. Mas são”, argumentou Fernando Santos, ao El País.

Ainda falou de Cristiano Ronaldo, explicando a “humildade” que reconhece ao capitão da seleção nacional, perante as dúvidas do jornalista espanhol. Tudo acaba, claro, com a comparação entre o português e Lionel Messi, que levou Fernando Santos a falar de arte: “O Cristiano é o melhor, agora, eu sempre fui reticente a comparar génios. Da Vinci, Rafael, Miguel Ângelo, quem é o melhor? É uma questão de gostos”.

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