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A vontade de sonhar

Depois de um ano inesquecível para o futebol português, com a conquista do Euro 2016, um livro recorda a forma como foram vistos pela imprensa - nacional e internacional - os feitos dos Magriços há 50 anos, no Mundial de Inglaterra, que tornou Eusébio uma estrela do futebol à escala planetária

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Eusébio e Torres no jogo de Portugal com a Coreia do Norte

D.R.

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Julho de 2016. Portugal sagra-se campeão europeu de futebol ao vencer a França por 1-0. No regresso a Lisboa, os jogadores são recebidos como heróis nas ruas e têm à sua espera um autocarro panorâmico no qual percorrem a capital, exibindo a taça.

A primeira vez em que milhares de pessoas saudaram efusivamente uma seleção nacional de futebol foi há 50 anos, no regresso a casa dos Magriços. Trocando a cor pelo preto e branco, as imagens são praticamente as mesmas, com meio século de diferença. Se as do presente ainda estão na memória, algumas do passado são mostradas no livro “Mundial 66 - 100 Primeiras Páginas”, dos historiadores César Rodrigues e Francisco Pinheiro. A obra foi lançada este sábado.

O objetivo do livro, segundo César Rodrigues (investigador de História e Desporto do CEIS20 da Universidade de Coimbra), é exibir o espólio e a riqueza dos conteúdos que foram publicados no verão de 66. A obra contém capas de 17 publicações, 14 nacionais e três internacionais. Entre a imprensa nacional, além de jornais desportivos, foi selecionada a imprensa generalista. “O desporto e o futebol podem contribuir para a interpretação de tudo aquilo que nos rodeia. Podemos analisar uma peça sobre a seleção à luz dos acontecimentos que estavam a ocorrer noutras áreas da sociedade”, diz César Rodrigues.

Em 1966, Portugal entrou pela primeira vez numa grande competição de seleções (europeus ou mundiais). As semelhanças com o que aconteceu em 2016 são várias. Apesar dos títulos europeus então ganhos por Benfica (sobretudo) e Sporting (as vitórias do FC Porto foram posteriores a 66), os Magriços, como ficaram conhecidos, estavam longe de ser favoritos. O mesmo aconteceu agora com a equipa liderada por Fernando Santos. Num e noutro caso, Portugal tinha um jogador que se destacava entre os demais: Eusébio, em 1966; Cristiano Ronaldo, em 2016.

“A imprensa da época tem a vontade de sonhar”

O livro evidencia outras semelhanças. No verão deste ano, após o triungo em França, o percurso de celebração da seleção terminou no Palácio de Belém, onde a seleção foi recebida pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que condecorou os jogadores com a Ordem de Mérito. Há 50 anos, também os Magriços tiveram direito a honras de Estado, entregues pelo então chefe de estado Américo Thomaz.

Em 1966, Portugal vivia mergulhado no regime do Estado Novo. O Mundial conseguiu pintar um “país que estava a preto e branco”. Numa altura em que a imprensa não era livre e sofria com a censura, os jornais não deixaram de vibrar com os resultados de Portugal.

Apesar de o foco do livro estar sobretudo na imprensa portuguesa, César Rodrigues sublinha a importância das publicações internacionais para se perceber a “imagem positiva que Portugal passava então para o estrangeiro”, numa altura em que o país era mal visto internacionalmente a nível político. “As capas da imprensa internacional são um sublinhado para que se perceba que a elevação do futebol português não ficou circunscrito à imprensa portuguesa”.

“Mundial 66 – 100 Primeiras Páginas” retrata quatro grandes momentos: a fase de apuramento para o Mundial; o estágio de preparação; o Mundial; e o regresso apoteótico dos jogadores. O livro recupera a memória dos grandes jogos que ficaram para sempre gravados na história do futebol português, como é o caso do jogo de Portugal com a Coreia do Norte, ainda hoje uma das reviravoltas mais históricas de sempre do futebol, em que Portugal perdia por 3-0 aos 23 minutos e acabou por vencer o jogo por 5-3, com quatro golos de Eusébio.

FASE DE APURAMENTO. Mundo Desportivo, 1 de novembro de 1965
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FASE DE APURAMENTO. Mundo Desportivo, 1 de novembro de 1965

D.R.

FASE DE APURAMENTO. Record, 2 de novembro de 1965
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FASE DE APURAMENTO. Record, 2 de novembro de 1965

D.R.

ESTÁGIO PRÉ-MUNDIAL. O Norte Desportivo, 19 de junho de 1966
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ESTÁGIO PRÉ-MUNDIAL. O Norte Desportivo, 19 de junho de 1966

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VITÓRIA CONTRA O BRASIL. Diário Popular, 20 de julho de 1966
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VITÓRIA CONTRA O BRASIL. Diário Popular, 20 de julho de 1966

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VITÓRIA CONTRA A COREIA. Miroir Sprint, 25 de julho de 1966
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VITÓRIA CONTRA A COREIA. Miroir Sprint, 25 de julho de 1966

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REGRESSO APOTEÓTICO. O Século, 2 de agosto de 1966
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REGRESSO APOTEÓTICO. O Século, 2 de agosto de 1966

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REGRESSO APOTEÓTICO. A Bola, 4 de agosto de 1966
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REGRESSO APOTEÓTICO. A Bola, 4 de agosto de 1966

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“A imprensa da época está como o país”, diz César Rodrigues. “Tem a vontade de sonhar, mas tem a noção de que é a primeira vez que Portugal está num mundial. No entanto, ao longo do tempo, vai aumentando o seu discurso inflamado.”

Em relação às fotografias que mostram as principais figuras do regime - Américo Thomaz e António de Oliveira Salazar - com os jogadores da seleção, César explica que o Governo do Estado Novo “nunca garantiu condições para que se atingissem bons resultados”, sendo que apenas em 1960 é que o futebol foi profissionalizado, mas que depois se “apropriou dos bons resultados” que a seleção obteve para dar crédito aos próprios governantes.

O historiador aponta ainda que, numa altura em que se vivia também a guerra colonial, o Estado “usou estes resultados para mostrar nas colónias que na seleção também tinham lugar jogadores de Moçambique e Angola”, como Eusébio, por exemplo, e fazer passar a ideia de que “esta vitória também era deles, logo não fazia sentido dar-lhes a independência”.

Apesar de o futebol ter sido um dos “F” do Estado Novo – a par do Fado e de Fátima –, o regime “não via com bons olhos quando as massas se reuniam para assistir aos jogos”, pois tornava que fosse mais difícil exercer controlo sobre elas. No entanto, o Mundial de 66 teve o poder de unir a população portuguesa em torno da seleção, fazendo esquecer por alguns momentos a situação soturna que o país vivia. “Uma nação fechada aos ventos da modernidade, amordaçada, afetada pelo analfabetismo, esvaziada pela emigração, em situação de pobreza e amedrontada pela guerra colonial”, afirma o historiador.

O livro que recupera 100 das capas da imprensa da época vem no seguimento de um outro, “Mundial 66 Olhares”, publicado este ano pelos mesmos autores. Esta obra reúne as memórias de 66 personalidades de várias áreas da sociedade que contam como viveram esse Mundial.