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A festa para nós, o futebol (e a vitória) para eles

Não se falou de outra coisa durante a semana - o retorno à Madeira, o regresso do filho da terra, o aeroporto de Ronaldo, os minutos dos jogadores do Benfica e do FC Porto. A seleção até chegou a liderar por dois golos, mas a Suécia acabou por jogar mais, ser mais organizada e ganhar (2-3)

Diogo Pombo

Cristiano Ronaldo fez o 71.º golo em 138 partidas pela seleção (quinto jogo seguido a marcar, está a um do recorde de Torres).

Octavio Passos

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Vamos já tirar isto de entre nós - o Eliseu e o Danilo Pereira foram titulares e Pizzi e Nélson Semedo entraram ao intervalo.

Durante dias, parece que ganhar à Suécia a uma terça-feira interessa muito menos do que saber quantos do Benfica e do FC Porto, que jogam no sábado, vão estar em campo. Os passes, a tática, os movimentos, os remates, as experiências que podem haver, a dinâmica de uma equipa e tudo mais que podia debitar sobre o futebol que se joga, são salpicos que caem fora do balde. Lá dentro, durante dias, só entra a água dos minutos que os tais jogadores podem ter e da ilha a que a seleção regressa, 16 anos depois - onde há o hotel, a estátua, o museu e o aeroporto de quem é maior que ela.

Cristiano Ronaldo é o assunto do dia e o Portugal-Suécia é apenas uma coincidência que ousa passar-se na mesma altura, no mesmo lugar e na mesma dimensão. O primeiro toque que dá na bola acontece aos cinco minutos. Nesse, como nos que se seguem, o bruá que se ouve é o de uma multidão que acabou de admirar alguém a caminhar sobre a água. O público exalta, reage, rejubila, berra e dá-me razões para multiplicar os adjetivos entusiasmantes por cada toque que o capitão dá na bola.

Tudo parece passar ao lado disto, como a bola à qual os suecos dão melhor uso durante quase 20 minutos. Passes de primeira ou à segunda, tabelas, jogadores a irem buscar a bola, a tocarem-na e a fugirem. Futebol simples e rápido, como o que entra nas costas que Eliseu não tem velocidade para cobrir, onde Claesson cruza para Sam Nilsson, na área, atirar uma oportunidade para a bancada. Quem cruza é quem remata, no minuto seguinte, à porta da área. A Suécia é melhor, ameaça, é mais rápida e Portugal só deixa de ser lento, de ter os três médios em linha e de não colocar vivalma a pedir bola nas costas de algum sueco, quando Gelson mostra como esteve uma semana a conviver com Quaresma nos treinos.

Ele cruza uma bola que lhe chega rápida, à direita, com a trivela, para cair no pé direito de Ronaldo (22’). É o 71.º golo na seleção do filho adorado e retornado à Madeira, que põe o estádio aos berros e convence a equipa a tentar acelerar mais vezes as bolas que tem. Portugal melhora no ataque: as bolas que Renato Sanches levanta já chegam ao outro lado do campo; Danilo fica um ladrão eficaz; os passes de Moutinho entram; Bernardo Silva e Cancelo regulam a velocidade e atinam na direita. A seleção chega a área cada vez que acelera, ganha cantos, cruza muito, Ronaldo tem uma oportunidade.

O golo não aparece aí, mas na bola que Granqvist desvia para a própria baliza (34’), no pé que o desespero estica por ter Bernardo Silva perto. O 2-0 descontrai a seleção, que passa a acelerar mais vezes, a inventar tabelas bonitas e jogadas ao primeiro toque entre três jogadores que arrancam aplausos. Claessen, o sueco com mais toque, remate, técnica e critério nos pés, volta a rematar e vai tentando. Mas é pouco e faz-nos perceber o porquê de ter havido cinco empates e quatro vitórias para Portugal desde 1984, última vez que a Suécia venceu um jogo.

A segunda parte, porém, lembra-nos que, no futebol, a história vale tão pouco quanto o interesse que uma preguiça tem por se apressar. Para não se pôr a jeito de dias a dias a ouvir debater o tempo que deu a uns e a não a outros - simplificando, tira Danilo e Eliseu, lança Pizzi e Nélson Semedo, deixa André Silva no banco e ninguém se fica a queixar -, Fernando Santos acerta as contas dos minutos para jogadores do Benfica e FC Porto e volta a baralhar a seleção.

Octavio Passos

Uma equipa B passa a ser quase uma C, os suplentes misturam-se com quem mais suplente costuma ser e a fluência no jogo encrava - sobretudo a defender. Há buracos à entrada da área, falta de intensidade a pressionar nas perdas de bola e compensações e coberturas que não se fazem. Como a que Renato Sanches se esquece de fazer quando Claesson sprinta para a área, recebe um passe bem curto e pica a bola sobre Marafona (57’), numa jogada que é a sobra de um remate desviado pelas mãos do guarda-redes português. Nesta altura, já Ronaldo tinha feito o único remate que esteve perto de acertar na baliza, durante a segunda parte, saído, e visto Larsson a quase marcar de livre.

Depois, os portugueses continuaram lentos, desligados uns dos outros e a não lhes sair nada de interessante além dos cruzamentos de Quaresma para a área. A defender continua a apatia e a confiança de que tudo ia ficar bem, como no canto em que ninguém atacoau a bola e todos se limitam a manter a marcação à zona - como Nélson Semedo, a quem Claesson se antecipa perto do primeiro poste, para bisar no jogo (79’).

A cada minuto que passava, Portugal usava pior a bola e reagia ainda pior às alturas em que não a tinha. Ninguém se mexia para incentar passes verticais, as bolas para o lado tornavam a seleção previsível, os médios não arriscavam e as jogadas não chegavam a Eder, de quem me recuso a dizer mal.

Um empate era um mal menor que não beliscava o alarido do regresso à Madeira, da festa, do autocarro de luxo, do aeroporto de Ronaldo, do caneco do Europeu para o povo ver, de tudo o que não é futebol. E o futebol perdeu com isso, porque João Cancelo fez um auto-golo na última jogada - em que a seleção deixou os suecos contra-atacarem rápido - e, 33 anos depois, Portugal voltou a perder com a Suécia.

Nós ficámos com o frenesim, os regressos, a festa, o alarido e tudo o que não é futebol. Eles levaram o futebol, que jogaram melhor, e a vitória.