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Um toque de calcanhar de Fernando Santos, dois golos de Moutinho - quem precisa de Ronaldo num jogo assim?

Portugal venceu o Chipre por 4-0 num jogo em que Moutinho fez um bis de livre direto. Pizzi e André Silva marcaram os outros dois golos. Tudo isto aconteceu num jogo em que o CR7 não esteve

Pedro Candeias

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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O vento explica-se com a variação das pressões atmosféricas e da temperatura, e com o facto de este planeta rodar sobre si próprio, coisa a que chamamos o movimento de rotação da terra. Em determinados contextos e em desportos específicos, o vento é agradável, digo favorável, se o tivermos pelas costas num sprint de 100 metros, no triplo salto ou no salto em comprimento, por exemplo; no futebol, que é o jogo mais difícil de se jogar porque se joga com os pés - é sempre mais fácil parar ou agarrar um objeto esférico com a mão - é desagradável e desfavorável em qualquer contexto, mas isto varia com a especificidade (retenha a palavra especificidade).

Porque o passe sai com mais ou menos força e nunca na força adequada, e o cruzamento e o remate também saem de igual forma, e às tantas Danilo quer pôr a bola em Moutinho e esta trava, Bernardo Silva remata torto e Rui Patrício chuta com a potência de um canhão de 75 milímetros. Este é o contexto que Portugal encontrou quando defrontou o Chipre: uma ventania desgraçada que o empurrou para a frente, demasiado para a frente, dificultando a circulação num meio-campo incomum, composto por três médios demasiado parecidos embora dispostos em lugares diferentes - Bernardo, Moutinho e João Mário poderiam, todos, estar no mesmo sítio, e isso torna a seleção mais previsível e menos ágil.

Ainda assim, Moutinho fez dois golos, o que é um dois em um de raridades: ele tem 8 golos em 125 jogos pelo Mónaco e tinha apenas cinco golos em 96 por Portugal.

De uma assentada, em menos de 45 minutos, fez um bis de livre direto, provavelmente porque a sua cabeça de geómetra calculou a potência e a trajetória da bola com o vento a favor. "Tive um bocadinho de ajuda do vento", assumiu.

Ou, então, tomou-lhe o gosto e tornou-se um quasi especialista. E especialidade é sinónimo de especificidade.

Posto isto, Portugal chegou ao intervalo a vencer por 2-0, porque foi superior ao frágil Chipre no qual até joga um tuga nascido na Covilhã de nome Renato Margaça - isto é quase tão curioso como o toque de calcanhar de Fernando Santos, de mãos nos bolsos, junto à linha, como se nada fosse.

Na segunda-parte, Fernando Santos mudou o meio-campo todo e pôs William, Adrien, Gelson, André Gomes, e, depois, juntou-lhe Pizzi. Num ápice, Portugal começou a correr mais, porque a bola também passou a andar mais depressa - com espaço, William é um ótimo motor de arranque para as correrias de Gelson e Adrien é colega de ambos no Sporting, o que só facilita o fluxo de informação; e Pizzi foi o futebolista mais importante do Benfica, o tetracampeão nacional, pelo que não terá problemas de comunicação com os restantes.

A seleção nacional chegou ao 3-0, por Pizzi, e ao 4-0, por André Silva, e desperdiçou algumas (boas) oportunidades para construir um resultado mais cheinho neste jogo a feijões contra os cipriotas. É sempre bom ganhar, mas é ainda melhor ganhar por muitos.

P.S.: Já disse que Cristiano Ronaldo não jogou?