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24 horas perdida na tradução

A moderna Arena Kazan está pronta para receber a estreia de Portugal na Taça das Confederações (domingo, frente ao México, 16h, RTP1) mas o coração da cidade, onde é raro encontrar quem sequer arranhe o inglês, pouco palpita pela prova que arranca este sábado

Lídia Paralta Gomes

Está tudo pronto em Kazan para a Taça das Confederações - e para Ronaldo brilhar ainda mais F

Mário cruz/ Lusa

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“É a tua primeira vez em Kazan?”
“Sim”
“E também na Rússia?”
“Sim, sim”
“Ui”


Kristina está num balcão de boas vindas do apertado terminal de chegadas do Aeroporto de Kazan e parece, com aquele “ui” final, não me gabar a sorte. Ela é de Kazan, já estudou em Bilbao, Espanha, e chegou a viver em São Petersburgo.

Pelos vistos, Kazan não é exatamente o local mais tranquilo para imergir pela primeira vez na experiência russa.

Pergunto-lhe se são fáceis as deslocações em Kazan. Faz um ar meio desiludido, ou melhor, um ar de quem tem medo de desiludir quem acabou de chegar à sua cidade. “Em São Petersburgo é muito mais fácil”, diz-me. Garante-me de seguida que Kazan é “pequena e acolhedora”, mas o conceito de “pequeno e acolhedor” será certamente diferente para um russo. Kazan tem cerca de 1,2 milhões de habitantes, muito pouco, de facto, se compararmos com os 15 milhões de Moscovo e os 7,5 milhões de São Petersburgo. Mas, para um português, é uma cidade grande.

Kristina tinha razão, naquele inglês esforçado que, mal sabia eu, era o melhor inglês que ia ouvir no meu primeiro dia em Kazan, capital do Tartaristão, palco do primeiro jogo da Seleção Nacional nesta Taça das Confederações. A moderníssima Arena Kazan e o seu imenso ecrã exterior, o maior da Europa, estão praticamente prontos para o encontro de domingo entre Portugal e México - embora ainda se vislumbrem trabalhadores a dar os últimos retoques e muitas manobras policiais nas imediações -, mas na cidade é difícil encontrar quem esteja preparado para comunicar com os milhares de estrangeiros que por aqui vão aparecer, tanto na Taça das Confederações como daqui a 12 meses, no Mundial.

A Arena Kazan vai receber o Portugal-México, no domingo (16h, RTP1)

A Arena Kazan vai receber o Portugal-México, no domingo (16h, RTP1)

Darren Staples/ Reuters

Os próprios voluntários entreolham-se cada vez que escutam uma pergunta, como quem busca desesperadamente aquele que melhor entende o inglês. No centro de acreditação, os nomes portugueses, com acentos, cedilhas e sons estranhos para os russos, tornam-se um quebra-cabeças.

Peço indicações. Um dos voluntários que está à porta do Centro Aquático nem me deixa começar: “Olha que o meu inglês não é nada bom”. OK. Já estive em alguns sítios estranhos do mundo, em lugares aos quais não chegava rede telefónica, quanto mais internet, mas nunca estive tão perdida na tradução, quais Scarlett Johansson e Bill Murray em Tóquio.

Sigo para o centro.

Na Rua Bauman, um longa avenida pedonal assim chamada em honra de Nikolay Bauman, um revolucionário do partido bolchevique nascido em Kazan e uma das artérias mais antigas da cidade, convivem restaurantes, cafés e alguns museus. E é uma semana absolutamente normal. A Rússia só jogará cá no final da próxima semana e por isso não se veem adereços, camisolas, bandeiras.... Adeptos. Quem não soubesse que no sábado começa a Taça das Confederações só adivinharia pelo pequeno pórtico que surge ao fundo da rua e que apenas não é ignorado algumas crianças que pedem que os pais tirem uma foto. Ainda há muitos bilhetes para vender em Kazan, dizem-me.

Ali ao lado, no Hotel Ramada, quartel-general da Seleção Nacional, depois de uma receção apoteótica à chegada dos jogadores portugueses, não estão mais de 30 pessoas, todos eles jovens, de caderno na mão, à espera da sua sorte. Pergunto a um deles se espera Cristiano Ronaldo, diz-me que sim, com entusiasmo. Esforça-se com o inglês, aliás, ações simples como pedir um café fazem-me crer que muitos, principalmente os mais novos, tentam esforçar-se para comunicar e ficam frustrados por não conseguirem. Como aquele jogador de futebol que trabalha muito, sua em bica nos treinos, mas não consegue que lhe saia aquela finta.

Pepe, Fernando Santos e Cristiano Ronaldo a ultimar a estratégia para a Taça das Confederações

Pepe, Fernando Santos e Cristiano Ronaldo a ultimar a estratégia para a Taça das Confederações

MARIO CRUZ/ Lusa

Logo atrás vem um amigo. “E o Pepe também. E o Nani”. Cristiano Ronaldo é rei, mas não é o único. Desejo-lhes sorte, eles retribuem.

Apanho um táxi. O taxista tem o meu nome no telemóvel. Surpreende-se. Por estes dias há dezenas e dezenas de portugueses e outros latinos pelas ruas de Kazan, mas Fanil parece que viu um extraterrestre. E daí não. No final da viagem lança-me um “até à vista”. Assim, em português. Depois de horas e horas a tentar comunicar, tantas vezes sem sucesso, alguém me fala na minha língua. Tento logo perguntar se sabe mais palavras. Fanil ri-se, abana a mão como quem diz “é tudo o que sei”. Eu provavelmente sei menos ainda em russo. Estamos quites.