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Estes são o Hélder e o Paulo, os únicos adeptos portugueses em Kazan (bom, quase os únicos)

Faltam poucas horas para a estreia de Portugal na Taça das Confederações. Em Kazan há muitos mexicanos (muitos mesmo!). Portugueses é que nem por isso. Ao ponto de serem uma espécie de estrelas por cá, com muitos russos a pedirem fotos. Falámos com Hélder Pereira e Paulo Rosa, dois dos poucos que arriscaram a viagem. Até porque eles vão com a Seleção para todo o lado

Lídia Paralta Gomes

Hélder Pereira e Paulo Rosa na Rua Bauman, no coração de Kazan

D.R.

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Pouco passa do meio-dia em Kazan, é domingo e Portugal estreia-se na Taça das Confederações daqui a umas horas. Desde sábado que as ruas da cidade foram invadidas por mexicanos. Muitos mexicanos. Hordas de mexicanos. Eles andam em grupo, com sombreros, com aquelas máscaras da luta livre. Famílias inteiras, pai, mãe, filhos. A Rua Bauman, o epicentro social de Kazan é, por estes dias, uma espécie de Little México.

E portugueses? Nem vê-los.

Entretanto, avistam-se duas jovens com camisolas de Portugal. Falso alarme, são autóctones. Mas eis que começam a correr para dois rapazes que, assim à vista desarmada, parecem portugueses. Um traz uma camisola do Boavista, outro uma da Seleção Nacional com o número sete e a inscrição “Melhor do mundo” nas costas. Definitivamente portugueses. Os únicos que se avistam nestes metros quadrados.

Talvez por isso, toda a gente quer tirar uma foto com eles. Um jovem russo com uma camisola do Real Madrid de Cristiano Ronaldo grita “I have to take a picture with you!”. Hélder Pereira e Paulo Rosa são bichos raros por cá e, por isso, são estrelas. Chegaram há menos de 24 horas, ainda estão a descobrir Kazan, nos intervalos em que não são abordados.

“Tinha sido igual na Ucrânia. Mas lá estávamos mais mascarados, com pinturas na cara e um chapéu. Senti-me como se fosse o Tom Cruise!”, conta Hélder.

Paulo continua. “Foi em Kharkiv, durante o Euro’2012. A cada três minutos mandavam-nos parar. Era surreal! Parecíamos o Cristiano Ronaldo. Sabes, isto é novidade para eles. Na Rússia, tal como na Ucrânia, é a primeira vez que estão a organizar uma prova deste género, estão a abrir-se ao Mundo”.

Foi precisamente na Ucrânia, durante o Euro’2012, que Hélder e Paulo se conheceram. Daí para cá não perdem uma grande competição e tentam acompanhar o mais possível a Seleção nos jogos fora. “Fomos ao Mundial do Brasil, ao Euro’2016 e, se Deus quiser estaremos no Mundial da Rússia”, explica Hélder, que vive em Barcelona há 11 anos.

Paulo também é emigrante: está em Inglaterra há 13 anos. Nos últimos anos, cada vez que Portugal joga fora, ele vai atrás. “Acho que este será o meu 12.º jogo consecutivo fora com a Seleção. Fui às Ilhas Faroe, à Suíça, agora à Letónia. E antes tinha ido a todos os jogos do Europeu. Fiz a promessa que iria a todos os jogos de qualificação do Mundial, já só faltam dois para cumprir. Aqui na Taça das Confederações vou a todos os jogos da fase de grupos e espero ir à final, até porque já tenho bilhete!”.

Ver jogos fora da Seleção, diz Hélder, é especial. Principalmente quando os portugueses estão em minoria. “Nos sítios onde há menos portugueses é onde sentimos mais aquela importância de estar presente. Eu, por exemplo, estive no Azerbaijão e éramos uns 20 ou 30 portugueses no total. Foi espectacular. Como éramos poucos, acabámos por nos conhecer todos e hoje em dia somos amigos, percebes?”

Claro que percebo.

Estamos, então, perante adeptos profissionais?

Hélder e Paulo soltam uma gargalhada. “Sim, sim!”, diz Paulo. “É a paixão!”. E morar fora, ajuda a que o sentimento pela Seleção Nacional seja mais forte? “A mim penso que ajuda bastante”, responde Paulo.

“Identificas-te um bocado mais, mas a verdade é que ao mesmo tempo, quando vês um jogo da Seleção em Portugal já não há aquela emoção. Não sei explicar. Estar fora… é como se viéssemos numa cruzada [risos]! Não é que a gente vá conquistar nada, mas é uma forma de dizer ‘estamos cá’ e é espectacular por causa disso”, conta Hélder, que nesta Taça das Confederações só vai ver dois jogos, frente ao México e Rússia. “Em Portugal é mais um jogo. Aqui não é só um jogo, é estarmos cá, conviver, é tudo em redor do jogo”.

Boas recordações destas “cruzadas” são muitas. “Nas Ilhas Faroé foi espectacular!”, lança Paulo. “Foi das viagens mais fantásticas que fiz. É um país caro, mas valeu a pena porque é daquelas viagens que só se faz uma vez na vida. Por lá o Ronaldo é uma loucura. Bem, lá e em todo o sítio, mas ali notei mais, até porque fiquei hospedado perto do hotel da Seleção”.

“Também estivemos na Suécia”, continua Hélder. Naquele jogo impróprio para cardíacos que nos meteu no Mundial do Brasil. “Sim, esse, o do hat-trick do Ronaldo!”, diz Paulo. “Estávamos a um golo de ficar de fora. Ainda vimos as coisas negras, mas o Ronaldo resolveu”.

Uma luta desigual entre adeptos

O rácio camisolas de Portugal/camisolas do México nas ruas de Kazan é-nos claramente desfavorável. Esmagadoramente desfavorável. Até os próprios mexicanos estão surpreendidos.

“Somos muito poucos cá”, diz Paulo. “E alguns dos que vi nem tem bilhete para o jogo”. Paulo não está exatamente surpreendido. “Eu já esperava porque estive na Letónia, que até é um país de mais fácil acesso, comparado com a Rússia. Lá éramos 60/70 portugueses”.

E porque é que parecemos tão desinteressados na prova? “É um país ao qual Portugal vai voltar - oxalá que volte! - e isso fez com que as pessoas perdessem o interesse. Alguns dos nossos amigos não quiseram vir, porque há o Mundial no próximo ano”, conta Paulo.

“A viagem para cá é muito cara”, segue Hélder.

Se dentro das quatro linhas o Portugal-México tem tudo para ser um jogo equilibrado, nas bancadas da Arena Kazan, certamente que teremos de apelar ao nosso melhor espírito aljubarrotiano. A partir das 18h russas, 16h de Lisboa.