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Submarinos ao fundo, matraquilhos, hóquei no gelo, revivalismo soviético e um convite: “Vem cá Cristiano, somos o museu mais fixe”

Por estes dias a tensão entre Rússia e as forças da coligação aumentou um bocadinho, mas em Moscovo já não se nota a cortina de ferro. Mas há um lugar em que é possível recordar os tempos que já lá vão. Fomos ao Museu das Máquinas de Arcade Soviéticas, onde a seleção nacional seria bem-vinda. Reportagem de Lídia Paralta Gomes, em Moscovo.

Lídia Paralta Gomes

Ali diz Museu das Máquinas de Arcade Soviéticas, sim

D.R.

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Uma pessoa acorda em Moscovo, liga a TV e percebe que a Rússia ameaça abater aviões da coligação liderada pelos Estados Unidos caso estes entrem no espaço aéreo da sua aliada Síria.

Ah, como é bom o cheiro a guerra fria pela manhã!

Daqui, tudo isto parece algo estranho: Moscovo já está longe de cheirar ao mofo da URSS. As pessoas sorriem, são simpáticas, prestáveis e basta um joggingzinho pela Kuznetsky Most para perceber que a capital da Rússia onde, na quarta-feira, Portugal faz o segundo jogo na Taça das Confederações, dá um banho de cosmopolitismo a muito boa cidade europeia.

E é exatamente nesta rua pedonal cheia de gente e cheia de vida que fomos dar uma de revivalismo soviético. Não, não encontrámos o ursinho Misha, mas sim o Museu das Máquinas de Arcade Soviéticas. Sim, um museu que se dedica unicamente à recolha e preservação de antigas máquinas de jogos do tempo soviético.

Sasha Stakhanova é uma das jovens que trabalha no museu. Digo-lhe quem sou e porque estou em Moscovo. Ela não liga muito a futebol - “Vá, sei o que é o Spartak e o CSKA”, conta -, mas deixa-me à vontade. “Olha que estas máquinas também são desporto!”, diz-me. O Sporting e a sua recém-criada secção de videojogos aprovariam esta afirmação.

E, de facto, desporto é que o não falta por cá: há várias mesas de matraquilhos electrónicas dos anos 80, mesas de basquetebol (daquelas que a bola cai numa casa com um número que é preciso carregar) e umas um pouco mais antigas, de hóquei no gelo. Talvez da altura de uma das maiores desilusões da história do desporto soviético: nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1980, em Lake Placid, nos Estados Unidos, a super-equipa da URSS, campeã olímpica nas quatro edições anteriores, perdeu por 4-3 frente a uma seleção norte-americana composta apenas de amadores. O “escândalo” ficou conhecido como Milagre no Gelo nos EUA, numa altura em que a Guerra Fria estava, na verdade, bem quentinha - meses antes, o exército soviético tinha invadido o Afeganistão.

Uma reedição do Milagre no Gelo?

Uma reedição do Milagre no Gelo?

D.R.

Mas a grande estrela da casa é a Morskoi Boi, uma máquina em que o objetivo é olhar por um periscópio e torpedear o maior número possível de submarinos - eu bem disse que havia aqui muita Guerra Fria. A Morskoi Boi, Batalha Naval em português, foi a primeira máquina de arcade a ser recolhida pelos donos do museu.

Como estou sozinha, Sasha tem a gentileza de me acompanhar num jogo de “Futbolas”, a versão soviética dos matraquilhos.

Quase todas as máquinas expostas podem ser utilizadas: à entrada do museu, cada visitante recebe antigas moedas de 15 kopeks. Cada moeda de 15 kopek vale uma viagem a tempos que já lá vão e com os quais os russos, ou pelos menos estes russos, já fizeram as pazes.

Torpedear submarinos? Pode ser aqui, na Morskoi Boi, a estrela do museu

Torpedear submarinos? Pode ser aqui, na Morskoi Boi, a estrela do museu

D.R.

Enquanto jogamos, Sasha vai-me contando um pouco da história do museu: “O museu existe desde 2007, mas só há dois anos estamos aqui no centro de Moscovo. No tempo da União Soviética, estas máquinas estavam normalmente em aeroportos, estações de comboio e campos de férias para crianças. Era uma forma das pessoas passarem o tempo antes de embarcarem”. As máquinas começaram a ser produzidas em fábricas militares secretas, desde os anos 70 até à Perestroika. Com o tempo foram esquecidas.

As primeira máquinas de arcade aqui expostas foram encontradas em lixeiras. Agora, estão disponíveis para quem quiser reviver a infância ou mostrar aos filhos como se divertiam os jovens soviéticos nos anos 70 e 80. Há muita nostalgia por aqui, mas a nostalgia inocente de quem é miúdo e não sabe que o Mundo lá fora é feito de tensão política.

Sasha diz que o público do museu é muito diversificado: há pais, mães, filhos, avós e netos. Mas são exatamente os que eram jovens há 40 anos que mais se divertem. “Ficam superfelizes!”, diz-me, enquanto põe os braços no ar, exemplificando aquilo que o seu inglês não me consegue contar. Mas fico esclarecida.

D.R.

Passo para outras máquinas distintamente soviéticas. Tento caçar ursos polares com uma espingarda, falho tremendamente.

Sigo para uma máquina em que o objetivo é tentar acertar em sinais de trânsito e não corre melhor. Noutra, o objetivo é ajudar uma família de camponeses a colher o máximo possível de vegetais. É preciso puxar uma alavanca com muita força e por isso nem tento. Numa versão muito, muito antiga do pinball, lindo, feito de madeira e em que o objetivo é acertar numa baliza, corre-me melhor e por ali me fico para evitar mais humilhações à frente dos outros visitantes.

Sasha já me disse que não liga muito a futebol e o mesmo me conta Dima, outro dos jovens que aqui trabalha. Nenhum deles está a par que, neste momento, decorre a Taça das Confederações na Rússia e que, no dia seguinte, a sua seleção joga com Portugal. “Gosto mais de basquetebol”, diz-me Dima.

Mas quando pergunto a Sasha se sabe quem é Cristiano Ronaldo, o rosto ilumina-se. “Claro que sei! Ele devia vir cá, é um bom museu para relaxar. Cristiano, há outros museus mas o nosso é o mais fixe”, diz, na esperança que a mensagem possa chegar ao capitão da Seleção Nacional.